quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um soco na consciência

Minha casa do outro lado do Atlântico, Helene Cooper



O desafio de hoje proposto pela Luciana é um livro que é um soco no estomago, a minha escolha talvez seja um pouco estranha, por que esse livro não foi exatamente um soco, mas uma abertura em que levei um soco no estomago e na consciência.
Helene Cooper é liberiana, uma moça negra oriunda da elite do país. Vivia confortavelmente, numa ilha de paz e prosperidade quando em 1980 estoura uma revolução na Libéria, que levou a duas guerras civis e que durou 20 anos. Então aos 14 anos sai do país e vai viver nos EUA, se torna jornalista, 23 anos depois volta ao seu lar africano, este livro são suas memórias e seu relato quando volta para lá. O que mais me incomodou foi a pouca visão crítica do verdadeiro caos que é a Libéria, desde 1822!
Passei as duas últimas semanas vendo e lendo tudo que podia sobre a Libéria e levando variados socos no estomago. A Libéria nunca existiu, é um país artificial, criado em bases equivocadas e racistas.
Vamos a uma rápida situada, em 1816 os americanos criaram a Sociedade Americana de Colonização que o objetivo principal de “repatriar” escravos libertos, pois de acordo com a opinião predominante de alguns setores da população dos Estados Unidos da época, os negros não seriam capazes de se integrarem na sociedade do país. Em 1821 enfiaram 65 ex-escravos em um navio e partiram para a costa africana, escolheram um ponto sem nenhum interesse para as potencias da época, os poucos que lá aportavam eram os portugueses que compravam pimenta e escravos. Se assentaram e descobriram logo que existia gente lá, precisamente 16 tribos. Com dinheiro e armas, principalmente armas, compram um pedaço de terra de uma tribo e nos próximos anos chegam 12 mil ex-escravos. E eles, a maioria nascida nos EUA, reproduzem exatamente o que viam no país de origem, exploração ao máximo da gente da terra.  Se tornam um país em 1847 e dizem as más língua que a constituição foi escrita em Washington. A autora é descendente direta de um dos poucos sobrevivente da primeira leva, seu tetravó é considerado um dos fundadores da pátria. Essa elite dominou o país por mais de cem anos, ignorando totalmente as gentes da terra, algumas tribos sucumbiram e se tornam empregados domésticos, agricultores em terras da elite e outras profissões menos votadas, mas a tensão sempre esteve presente principalmente entre as tribos e de todas as tribos com a elite. Na década de 20, sem dinheiro e sem recurso a Firestone empresta cinco milhões de dólares ao país em troca de uma concessão de terras para as plantações de borracha da companhia, se tornando um poder paralelo, em um país que, ainda hoje, é considerado o país mais corrupto do planeta. Em 1980, vem o golpe, as tribos tomam um lado e começa a guerra civil. Em 1989 vem o contragolpe, com apoio americano, tudo só piorou e se tornou uma das guerra civil mais sanguinária do século XX, até terminar(?) em 2003 com um precário acordo de paz. Essa guerra matou 400 mil pessoas e fez 1 milhão de refugiados.
Por que você nunca ouviu falar dela? Talvez até tenha visto em uma nota de jornal ou uma notícia rápida na TV. Porque eles são pobres, de um país   africano pouco maior que Pernambuco, não têm petróleo, um pouco de diamante que não se compara ao de outros países africanos, as terras são constituídas de florestas de mangues no litoral, enquanto no interior o que predomina são pastagens secas e agricultura de subsistência se tanto. Não dá mídia. Quem se preocupa?
O livro não é mal escrito, afinal Helene é uma jornalista, mas tudo que está escrito acima não está no livro dela. Vale a pena ler o livro?  Para mim valeu. Desde as primeiras páginas me incomodava a visão da elite e com isso me abriu as portas da curiosidade sobre um país que pouco ou nada sabia. Acredito que um livro deva fazer isso, mesmo quando não concordamos com nenhuma das palavras escritas, abrir portas para o mundo. Um mundo que está vendo milhares de refugiados e que ninguém pode ignorar.
Se alguém quiser saber como é a Libéria hoje, o documentário The Cannibal Warlords of Libéria, rodado quase 10 anos após o fim da guerra pelo menos não faz julgamentos, onde 70% das mulheres já sofreram estupros, 80% são desempregados e a maioria viciada em cocaína e heroína, onde a AIDS e o vírus Ebola é uma realidade inclemente, onde 50% são de analfabetos e onde não há qualquer saneamento básico e nem rede elétrica. Soco no estomago!


“...ao introduzir as artes da civilização e as benção do cristianismo em meio a uma raça de indivíduos que têm, até agora, vivido em uma escuridão pagã, destituída da luz do Evangelho e do conhecimento do Salvador ...”  Ephrain Bacon (Comissário Assistente dos EUA para a África, 1821)

SOBRE A AUTORA


Helene Cooper (1966 -  ) – jornalista nascida na Libéria e hoje cidadã americana. Foi correspondente de guerra e atualmente é correspondente diplomática do New York Times. Minha casa do outro lado do Atlântico foi editado pela Editora Nova Fronteira.

Um comentário:

Luana disse...

Ju que saudades que eu estava de voce!
Sabe, depois da minha viagem pra Tanzania, agora em Julho, eu fui ler muita coisa de varios paises (em especial as ex colonias portuguesas e belgas) e MEUDEOZDOCEU como essas coisas tem me tirado o sono.
Tanto que comecei a contar da minha viagem, mas parei... porque eu acho q sofri mais do que me diverti... sofrimento de dor e culpa mesmo... De pensar que toda a familia do meu pai foi arrancada daquele continente e vendida como escravos pra morar no Brasil... Eu nao sei de onde eles vieram, eu nao sei nada sobre eles... Sao historias perdidas, de gente que nunca foi ouvida, nunca virou historia... como essa gente da Liberia e de tantos outros lugares...
Eu me sinto diretamente responsavel pela dor das outras pessoas.