segunda-feira, 20 de maio de 2013

Bata antes de apanhar

Ando sem tempo e sem inspiração, então publico aqui uma das crônicas que mais gosto, afinal também me sinto meio cafetina das palavras.
 O Gigolô das palavras, Luis Fernando Verissimo


Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro.
As múmias conversam entre si em Gramática pura.

Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.

SOBRE O AUTOR
Luis Fernando Verissimo (1936) – Escritor, jornalista e cartunista gaúcho. Com mais de 60 títulos publicados, é um dos mais populares escritores brasileiros contemporâneos. É filho do também escritor Érico Verissimo. O gigolô das palavras (livro de crônicas) foi publicado em 1982 pela editora L&PM e já teve inúmeras reedições.

13 comentários:

JAN disse...

Apenas o Luis Fernando Veríssimo poderia dizer que "A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda." sem me deixar muito brava. ;-)

Abração
Jan

Luana disse...

Amo muito os Verissimos, o pai e o filho =)

Regina Rozenbaum disse...

Ah Ju, você bem sabe do meu amor por esse Luis...já deixei isso registrado aqui e lá no Divã. Não conhecia essa crônica...gigolô das palavras é baum dimaiiss da conta! Anda sem tempo? Aposto que já está em outro projeto-pesquisa-produção...pq vc não para mesmo, né?!
Beijuuss

Lúcia Soares disse...

Hahahah! Ótimo, né?
Mas não passa de uma brincadeira. Ele pode até não conhecer tudo e precisar dos revisores, mas como escreve muito bem, claramente, deve fazê-lo irretocavelmente.
Quando se gosta de escrever, sai tudo naturalmente, erra-se pouco.
Quem sou eu para discordar de Veríssimo?
Só não concordo nesse ponto. Mas ele pode escrever o que quiser.
Beijo, Jussara.

Bia Jubiart disse...

Dupla dinâmica: Cafetina e Gigolô!

Oi Ju! Me diverti lendo Veríssimo, esta não conhecia, excelente!

Tenha uma noite relax!

Bjooooo

Luma Rosa disse...

Mui corajoso se referir aos membros da Academia Brasileira de Letras "As múmias conversam entre si em Gramática pura". Mas há de ter coragem quem escreve para o público... rs.
Ler Luis F. Veríssimo é sempre pura diversão!! A coluna dele e do Ubaldo no O Globo, nunca deixo de ler!
Boa semana!! Beijus,

Jose Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Sei que me repito, mas o Verissimo "filho" é muito mais atraente e divertido "escrito"...
Evoé!

APPedrosa disse...

Amo Verissimos e todos os usos que eles fazem das palavras.

Lufe disse...

Oi Jussara,

Sob pena de afrontar os puristas, concordo plenamente com o xará.
A preocupação excessiva com a gramatica embota o texto, por muitas vezes se perde a espontaneidade, o suspense, o humor.Gosto dos textos escritos como se saissem da boca do autor. Com o seu jeito de falar, sua construção de frases proprias. As pessoas que falam gramaticalmente correto se tornam chatas, ficam com um ar professoral. Adoro os gigolos das palavras, elas é que devem servi-los, se apaixonarem por eles, trabalharem pra eles, somente com o intuito de exibi-los, orgulhosas,aquele que as domina.

bjos

Calu disse...

JU,
só quem tem a intimidade no grau preciso com a gramática fala dela com esta naturalidade, mas quem fala pode, afinal é Veríssimo, gigolô elegante da linguagem e suas anatomias.
Sou fãzoca dele.
Bom fim de semana.
Bjos,
Calu

Neanderthal disse...

Sabe o que eu notei dando uma olhada nos seus posts e que se repete aqui? Você apresenta o autor para seus leitores. Coisa que eu não lembro de fazer quando estou escrevendo, mas que considero super importante!
Meu nome foi escolhido após a minha mãe ler o romance "Olhai os Lírios do Campo" do verissimo pai. Quando descobrí isso na adolescência, lí todos os livros dele. Atualmente, gosto mais do filho... Minha mãe me dá liberdade para fazer minhas escolhas, mas sinto que ela ficou um pouco decepcionada por eu não ter me interessado e nem me identificado pela Olivia do livro. Mas fiquei sabendo que a maioria das Olívias desse mundo ou são uma homenagem à alguma avó ou parente próximo, ou à personagem do Érico Veríssimo. Pelo visto, deve ter marcado uma época!
Nem sei pq estou escrevendo isso, se o post é sobre o filho dele! =)

luís rodrigues coelho Coelho disse...

A gramática é necessária em qualquer língua. Existem regras como na matemática que devem ser observadas...

Carlos Medeiros disse...

Gostei da frase: escrever claro não é certo, mas é claro. Abraços.