segunda-feira, 25 de março de 2013

Uma carta


Ando sendo cobrada para escrever textos mais pessoais, como prometido vou fazê-lo quando me inspirar, viu Inaie!
Em março de 2011 a Luciana do Borboletas nos Olhos me convidou para escrever sobre uma mulher de minha escolha, então escrevi a carta abaixo.
 
Ser mulher não nos impede de nada
Março de 2011
 

Senhoras,

Sou uma mulher do século XIX, nasci em 1847 e morri em 1937, vivi longos 87 anos. Sou filha de um General do Exército e uma mulata, que só se casaram após meu nascimento e me deram mais três irmãs. Como toda moça da época tive uma educação primorosa, mas ao que mais me dediquei foi ao piano.
Como toda moça da época me casei aos 16 anos, com um homem mais velho e bem posto na vida, era sócio do Barão de Mauá, como dote de meu pai recebi um piano. Não foi um casamento feliz, tive meu primogênito um ano depois, logo estava grávida novamente e como meu marido morria de ciúmes da minha música, foi só a minha menina nascer para ele me enfiar em um navio que levava suprimentos para Guerra do Paraguai (onde logicamente não havia um piano, mas consegui um violão). Minha filha recém-nascida ficou com meus pais e por eles foi criada, levei tantos anos para vê-la novamente que quando a reencontrei ela sequer sabia que eu era sua mãe.
A viagem foi um suplício, quando chegamos ao Rio Grande do Sul não aguentava mais e simplesmente o abandonei, peguei meu primogênito e voltei para o Rio. Meus pais se recusaram a me receber, eu tinha ousado abandonar um marido sem sentimentos, mas estava grávida de novo e acabei voltando para casa dele.  Foi uma gravidez penosa já não tínhamos o que falar um para o outro e assim que meu segundo filho homem nasceu eu parti. Meu marido ficou com o bebê, de qualquer forma não poderia levá-lo comigo, pois virei uma pária da sociedade, só levei meu primogênito.
Comecei tocando nas casas musicais e dando aulas de piano particular, mas o amor me levou para os braços de um engenheiro lindo e sedutor. Ah, o amor! O que ele nos leva a fazer, saímos do Rio e fomos morar onde a estrada de ferro se expandia, pelo menos evitamos as fofocas, fiquei grávida da minha caçula. O engenheiro era lindo, sedutor e não resistia a um rabo de saia, não suportei. Peguei novamente meu primogênito e parti, mais um homem que não me permitiu criar minha filha. Não pensem que não sofri, sofri muito, mas sabia que agora seria uma desclassificada, julgada por todos que me haviam conhecido, minha família decretou minha morte e eu já não existia mais para eles. 
De volta as aulas particulares, sem a tutela masculina, passei frequentar cafés e fui fazer parte de um conjunto musical que tocava em festas particulares, afinal meu primogênito precisava de um teto e comer. O nome do conjunto era Choro Carioca, foi a primeira vez que oficialmente se nomeou esse estilo de tocar.  Era uma mulher da vida (bem vivida) e me engajei em várias causas, fui uma abolicionista de primeira hora e ajudei com minha musica a arrecadar dinheiro para compra de alforrias.  Como vivia com “boêmios e vagabundos” (músicos, atores, jornalistas e autores teatrais) conhecia e era amiga de muitos. Comecei a compor para operetas escritas pelos amigos, compunha também polcas, valsas, quadrilhas, mazurcas e outros gêneros, tenho orgulho em dizer que vendiam como pão quente.
Em 1885 me tornei a primeira maestrina brasileira. Após a abolição eu já havia me tornado republicana e passei a frequentar as reuniões e manifestações, nessa altura pouco ligava o que pensavam de mim, como ganhava dinheiro com meu trabalho e tinha minha própria casa, para a sociedade da época estava um degrau acima das prostitutas, aliás conheci muitas delas, todas mulheres que tentavam sobreviver.
Ó abre alas que eu quero passar, eu sou da Lira, não posso negar”, sempre gostei de carnaval e das manifestações musicais vinda do povo, em 1899 compus essa musiqueta para um bloco do Andaraí, pensei que ela só seria tocada durante os quatro dias daquele carnaval, hoje me espanta que ainda a cantem e digam que foi a primeira musica feita especialmente para o Carnaval, mais um pioneirismo, mesmo que na época eu não visse assim. 
Fui levando minha vida, me reaproximando aos poucos de meus filhos que ficaram para trás. Aos 52 anos estava em uma confeitaria quando conheci um belo menino, ele tinha 16 anos, como eu já sabia, o amor não enxerga nada! Apesar de 35 anos de diferença nos apaixonamos. Tudo que eu não precisava a essa altura era ser acusada de corruptora de menores, um amigo encontrou a solução, fui a um cartório e o adotei. Que graça, agora ele usava meu sobrenome!  A sociedade preconceituosa teve que engolir essa situação, vivemos juntos até o último dia de minha vida.
Saímos do Rio e fomos para Europa, começando por Portugal onde eu fazia enorme sucesso. Nessa viagem percebi que muita gente ganhava dinheiro com minha arte, encontrei musicas minhas editadas até em Berlim! E eu não ganhava nada! Na volta me engajei na luta pelo reconhecimento dos direitos autorais, briguei com todo mundo, fui aos jornais e falava sobre o assunto onde podia, os autores teatrais e músicos me apoiaram e em 1916 o Congresso Nacional aprova uma lei de sobre propriedade artística e literária.  Com isso juntei os amigos e parceiros e fundamos a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) onde fui sócia nº 1. Muito me orgulho deste feito, pois a SBAT é atuante até hoje. Meu belo menino depositou todo o meu acervo na SBAT, onde pode ser consultado.
Nasci num Império estável e morri em plena Ditadura Vargas, fui testemunha da história. Hoje dizem que vivi 100 anos à frente do meu tempo. Eu digo que vivi conforme minhas convicções, não temi a sociedade, não temi a família e não temi aos homens.
Essa longa carta é para lhes dizer, que ao fim da vida, ao olharmos para trás o importante é fazer a diferença para nossos semelhantes, algumas vezes perdemos, outras ganhamos, mas ao fim vale a pena! Ser mulher não nos impede de nada.
Sua
Chiquinha Gonzaga



Chiquinha com 85 anos.

23 comentários:

Lúcia Soares disse...

Uma vida sofrida, mas muito rica. Uma mulher determinada, antes de tudo. Em vez de chorar e se enfiar em casa, saiu para abraçar a vida.
Algumas coisas jamasi faria, a principal delas, deixar meus filhos para trás. Nem imagino o que Chiquinha Gonzaga passou, por isso minha admiração por ela. Viver é isso.
Beijo, Jussara.

Cris Mussi disse...

Muito bem escrito Ju.... Nao digamos que foi uma guerreira e sim uma pessoa determinada.... Viveu o que lhe apareceu pela frente.... feliz...
Bjs

Pandora disse...

Eu conheci a Chiquinha através de uma série que passou na Globo, me apaixonei por ela e por sua história. Ela se tornou desde então uma inspiração para mim! Linda, lia sua carta e revia na tela da memória as cenas da mini-serie. Momento perfeito.

Nadia V. disse...

Também conheci Chiquinha Gonzaga através da minissérie da Globo. Muito interessante a sua história e sua contribuição para o Brasil e a arte.
Beijos.

Luana disse...

Eu conheci a historia da Chiquinha porque meu avo por parte de mãe foi um boêmio. Ele are ator e compositor. Deu muito trabalho pra minha avo, que cuidou da casa e dos 4 filhos praticamente sozinha, enquanto ele vivia nas noites paulistas.
O que eu mais gosto da historia dela eh depois de tudo ela vai la, e pá, na cara da sociedade e adota o namorado! hahaha... MUITO BOM!

chinanaminhavida.com disse...

lindo seu texto Ju... uma aula deliciosa. Estarei ai em junho, primeira ou segunda semana! Beijo.

Regina Rozenbaum disse...

Realmente foi uma mulher bem "prafrentex" (rss)e você nos brinda com uma biografia deliciosa de se ler. Como a Pandora, também assisti a minissérie e gostei muito da interpretação de minha xará.
Beijuuss Ju

Inaie disse...

Reconheci a "autora" da carta no primeiro parágrafo.
Não sabia que ela tinha tido o engenheiro na vida dela.

Que venham muitas Chiquinhas!

Teresinha disse...

Olá Jussara,
Um exemplo de determinação.Ela foi a luta em busca de conquistas e realizações...
Amei!!
Beijos mil

Bia Jubiart disse...

Li tudo num fôlego só!
O que sabia sobre ela era muito superficial, que mulher batalhadora e boa de briga! E quanto sacrifícios...
Ju, já estás participando do sorteio no cafofo?

Passando p/ te desejar um Páscoa especial!

Bjssssss

Luma Rosa disse...

Que beleza de texto, Jussara!!
Chiquinha Gonzaga foi uma mulher admirável que não teve medo de ir à luta! Sempre à frente do seu tempo e espelho para muitas mulheres de sua época.
Imagino em 1900, ela desafiar a sociedade com um romance com um homem mais novo... A minha mãe se casou em 1960, estava com 35 anos e meu pai com 20 anos e já deu o que falar! Imagino Chiquinha Gonzaga naquele tempo!
Feliz páscoa!!
Beijus,

Evanir disse...


Que, na Páscoa, nossa fé seja revigorada pela
certeza de que Cristo ressuscitou e está entre nós.
O sentimento de Páscoa não termina,
ele sinaliza um novo começo da primavera
e a vida marca nossa amizade.
Feliz Páscoa Deus abençoe
tremendamente sua vida.
Beijos na alma carinhos no coração.
Evanir..

Sandra Portugal disse...

Realmente impactante. Ótima escolha! Mulher forte, de fibra, como vc, como muitas de nós!

Uma Páscoa repleta de Boas Vibrações, de Renascimento de Esperanças e de Luz para a Realização dos seus Sonhos!
Nesse momento de Renovação e de Fé, compartilho o Renascimento do Projetando Pessoas, agora em forma de site, mais amadurecido pelos seus dois anos e 1/2 de existência, reforçado por sua audiência e público fiel, com identidade própria e logomarca que já se firmou, com a sustentação de um grande projeto da Novos Elementos!
Torcendo muito para que os feedbacks sejam positivos, aceitando sugestões e críticas construtivas!
Com muita dedicação e muita paixão pela construção desse trabalho até aqui:
www.projetandopessoas.com.br
http://projetandopessoas.blogspotcom.br//
facebook.com/projetandopessoas
@Projetapessoas
Projetandopessoas@hotmail.com
Sandra Portugal

ONG ALERTA disse...

Uma Páscoa iluminada beijo Lisette.

Fabiano Mayrink disse...

Oi Jussara! Feliz pascoa pra vc também ;)faz sim o bolo!

Ser mulher realmente não impede de fazer nada! Só se ela não quiser!

bom finalzinho de domingo de pascoa

Chris Ferreira disse...

Clap, clap, clap, clap!!! Estou aplaudindo esse post de pé!
Maravilhoso!
Beijos
Chris
http://inventandocomamamae.blogspot.com.br/

Adelaide Araçai disse...

Adoro as musicas que ela compôs e sou fã. Amei ver sua carta aqui. Pois acredito que a mulher pode tudo o que desejar. Nada a impede.

Muita Luz e Paz
Abraços

luís rodrigues coelho Coelho disse...

As agruras da vida obrigaram-na a soltar-se e a ser livre nas suas escolhas e nos seus amores.

Penso que hoje ainda existem muitas mulheres iguais a ela, mas com uma diferença - não deixam nascer as crianças que depois não podem acompanhar.

Os filhos tem direito a ter uma mãe.

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Jussara
Vivi, um pouco, isso "na pele" (em família, vários casos assim), mas hoje em dia, tudo é muito mais normal... preconceito é derrubado dia após dia...
Belíssimo texto e dá pra mergulhar, como vc fez, na história da Chiquinha...
Bjm de paz e pascal

Inaie disse...

estamos esperando!!

Calu disse...

Uma deliciosa e minuciosa narrativa, Ju.Desde que soube a existência desta mulher vanguardista,dedico-lhe enorme admiração.Vi aos pedaços a mini-série da TV.Agora,com esta carta testemunho conheci mais sobre Chiquinha.
Obrigada por esta página.
Bjos,
Calu

Daniel Brazil disse...

Faz tempo que não passava por aqui, e continua bom. Aliás, cada vez melhor! Adorei a lembrança da grande Chiquinha.

Beijo,

Beth Blue disse...

Que mulher pioneira esta Chiquinha, hein? Eu confesso que só a conhecia de nome mas fiquei com vontade de saber mais...quem sabe acho uma biografia dela?!!

Adorei isso aqui:
Hoje dizem que vivi 100 anos à frente do meu tempo. Eu digo que vivi conforme minhas convicções, não temi a sociedade, não temi a família e não temi aos homens.