segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Retrospectiva em blog





Esse ano foi um ano bem atípico, fiquei fora de casa durante cinco meses fazendo o filme o Tempo e o Vento então postei pouco. Como tenho leitores fiéis não me senti abandonada, mas todos nós temos leitores que entram e saem silenciosos, quando o blog fez dois anos falei deles o que acabou sendo o meu post mais comentado. Não me preocupo com o menos, pois sei que isso não significa que me abandonaram.
No mês de outubro a Beth do blog Mãe Gaia, propôs uma blogagem coletiva e foi para esse evento que escrevi o meu melhor post do ano de 2012. Porque quase não escrevo posts pessoais, me fez relembrar tempos felizes e fez com que meus leitores me conhecessem além dos livros. Estas são as razões pelo qual escolhi esse texto para a Blogagem Retrô proposta pela Elaine do blog Um pouco de Mim, não deixem de ir lá ver os outros blogs participantes e relembrar o que foi o ano  que passou  para um monte de amigos.


Girinos no Quintal
Aos 9 anos

Tenho 8 anos e quatro irmãos, estou doente e ouço as brincadeiras lá fora. Tudo bem! Tenho a companhia de fadas, princesas, madrastas más e príncipes encantados, um enorme livro com todos os contos dos Irmãos Grimm. Todas as histórias tinham pão preto, alguém fazendo, alguém comendo ou alguém roendo um pedaço duro, como eu tinha sérias restrições alimentares, comecei a atormentar minha mãe que queria pão preto. Não era fácil de achar e a família se pôs a procurar em armazéns, padarias e mercadinhos, supermercado só se via no cinema. Nessa época morávamos em São Paulo, uma cidade basicamente de imigrantes, então alguém teve a ideia de procurar nas padarias que se encontravam nos bairros com concentração de alemães, poloneses, tchecos e outros eslavos, finalmente eu teria meu pão preto (sem sal). Lá se foi minha mãe buscar. Devo dizer que até hoje me lembro do gosto e que nunca mais comi um tão bom, mas quando meus irmãos viram o dito disseram que eu queria comer pão bolorento! Nem sei se eles se lembram disso, pois sou a mais velha e a quarta irmã, depois de dois meninos, mal andava!
Quando eu estava com 10 anos chegou um bebê, outro irmão. Agora esta equilibrado, três meninas e três meninos. O caçula chegou trazendo revolta, quando fomos informados qual era o nome escolhido, achamos horroroso! Simplesmente nos recusamos a falar o nome e só o chamávamos de bebê. Depois de quase um mês meus pais acharam um nome aceitável para o bebê. Anos depois minha mãe um dia perguntou para os quatro mais velhos, afinal a caçula anterior só tinha dois anos e a gente mandava nela, o porquê de não querermos o nome, a resposta foi unânime: Era um nome de gente velha!  E era só um bebê! De onde tiramos isso? Vai lá saber!
No ano seguinte mudamos para uma cidade muito pequena em outro estado, foi uma aventura!  Fomos estudar numa escola enorme, pelo menos para mim era. Na verdade era a única escola estadual da cidade. Esqueci de contar, tenho uma irmã que é quase minha irmã gêmea, quase porque temos a exata diferença de um ano. É isso mesmo, ela nasceu dois dias depois que eu fiz um ano, como podem ver nunca fui uma criança solitária daquelas que não tinha com quem brincar. Eu não me lembro, até acho que é intriga, mas conta a lenda familiar que quando ela tinha uns três meses, eu consegui na cozinha um bom torresmo, dei umas lambidas e gostei.  Ora eu tinha uma irmã que só bebia leite então fui lá repartir meu achado, fui pega em flagrante. Minha linda irmãzinha estava chupando com vontade o torresmo e eu rindo de felicidade com o braço entre as grades do berço segurando o torresmo. Acho que foi aí que minha mãe começou a ter cabelos brancos! Aliás, acho que essa de dar comida errada para os meus irmãos era minha especialidade, dei quase um pepino inteiro temperado para salada para o último bebê que chegou, quando ele tinha uns seis meses. Dessa eu me lembro, inclusive da bronca. Eu achava que ele era minha boneca, só que comia de verdade.
Eu fui para o ginásio, juntamente com minha irmã, lembre-se perdi um ano doente, e daí até nos separarmos no colegial estudamos na mesma classe. Foi bom e foi ruim, foi bom pois tivemos muitas amigas em comum e hoje compartilhamos várias história, foi ruim pois ela era uma peste e tinha uma advertência por semana e eu era tímida  e quieta. Nunca estudamos juntas para qualquer prova, ela só estudava de última hora. Nunca fizemos nenhum trabalho juntas, hoje vejo que meus pais incentivavam que tivéssemos nossos próprios amigos, sem qualquer dependência uma da outra. Brigávamos que nem cão e gato e dividíamos o mesmo quarto, aliás as três meninas, hoje somos muito amigas! Como o nome dela também começa com Ju, brincamos que quando estivermos bem velhinhas, ninguém vai achar que estamos gagás quando ouvirem o seguinte diálogo na feira:
- Juju pegou os chuchus?
- Lógico Juju!
Brinquei na rua, pulei muro e corda, brinquei de queimada e taco. Minha irmã foi goleira no time dos meninos, eles queriam ser artilheiros, aí já viu. Eu era péssima em futebol.  Tomei banho de chuva e enfiei o pé na lama, tive bicho de pé.  Andei de bicicleta, carrinho de rolimã e patinete. Trago cicatrizes das batalhas infantis contra asfalto novo, queda de muro, queda de árvore, encontro com pedras e outros troços que insistiam em ficar no meu caminho. Comi fruta tirada do pé e ora vejam, sem lavar e não morri! Pesquei em riachos, ribeirões e lagoinhas que não passavam de cacimbas. Tentamos criar girinos em um tacho no quintal, para sorte da minha mãe todos que trazíamos morriam muito rápido. Nunca gostei muito de brincar de casinha, mas quando brincava o fazia era para valer, montávamos uma enorme casa no quintal, com todas as bonecas e minha mãe deixava a gente almoçar por lá!
Tenho saudades da minha infância, agora que eu e meus irmãos passamos da idade da responsabilidade, temos netos e filhos adultos, nos permitimos algumas traquinagens juntos e muitas risadas. Sempre nos lembramos do que aprontamos e como quem conta um conto aumenta um ponto, os filhos e os netos pensam que só fazíamos arte e têm pena do vovô e da vovó. Daria um livro do tipo Como enlouquecer seus pais, quem sabe um dia!

15 comentários:

Rogério Pereira disse...

Passai e li. Sempre que passo leio. Recordar a infância é estarmos um pouco com ela... faz-nos bem!

José Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

História tocante. Penso sempre em textos "biográficos"como exercício e criação que transcende qualquer gênero, porque vem da alma, bem lá do fundo. Mas há sempre "teóricos" de plantão para "explicar" o inexplicável. Mais uma vez, embalei-me na poesia de sua voz escrita! Que 2013 seja uma no de saúde, alegria, realizações e tranquilidade para você e os seus! beijinho
;-)

Lúcia Soares disse...

Reler foi ótimo!
Sempre é bom demais passar por aqui.
Beijo!

Luma Rosa disse...

Jussara, esse seu texto ainda está fresquinho na minha memória, pois na época pensei em como as nossas memórias da infância não são somente nossas, afinal, nessa época o mundo parece grande e nos aconchegamos em nosso "clã" e conforme os anos passam, esse clã se torna um pouco distante - pois pessoas vão morrendo, sumindo da nossa vista ou "na vista", mas cada um cuidando da sua própria vida - e o mundo torna-se pequeno e as memórias adultas se tornam apenas nossa. Beijus,

Roseli Gomes disse...

Bom dia Jussara!!

Blogar é o tempo todo uma egotrip, mesmo quando parece que não estamos ali, e se colocar "sua alma" em um POST, bem, o blog fica com brilho - rs!!

Também fiz um post retro... passo para visitar e conhecer novas blogueiras!!

FLYRoBrasileira

Kinha disse...

SE VOCÊ LANÇAR ESSE LIVRO JURO QUE VOU QUERER LER, RSRSRS

Teresinha disse...

Olá Jussara,
Esse texto é demais. Recordar momentos especiais da nossa infância é muito bom.
Também concordo em você lançar um livro.
Beijos mil

Ivan disse...

Como enlouquecer seus pais? Com uma narrativa gostosa assim, as editoras vão brigar para publicar esse livro!

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Jussara
Bom ler mais um texto retrô e ser, justamente, sobre a infância...
Estou com a casa cheia e os netinhos me fazem reviver um mundo mais alegre e feliz...
Bjs de paz e bem em 2013

Regina Rozenbaum disse...

Bom de reler e ver vc, muito das fofas, do alto da sua infância.
Beijuuss Ju

Beth/Lilás disse...

Jussara, você fez realmente uma participação brilhante com este texto e acho que depois dele você se consagrou para escrever um livro. Já tem aqui uma compradora, podes crer.
beijos cariocas



Chris Ferreira disse...

Oi Jussara,
Adorei ler essa história. Muito inspiradora. Adorei!
Beijos
Chris
http://inventandocomamamae.blogspot.com.br/

Cissa Branco disse...

Ju,

Que delícia de post, emocionante demais. Adorei a história do pepino e do torresmo, imagino a sua mãe. Como elas davam conta?!
Lembrei de muita coisa lendo o texto, sou a irmã mais velha, tenho um irmão 7 anos mais novo que estudou na mesma escola que eu e quando os professores o olhavam de cara feia e perguntavam se ele era meu irmão, ele negava até o último momento, rsrs, fui uma peste e o pobrezinho se assumisse o parentesco seria prejudicado. Amei muito!
Beijos

Inaie disse...

Se você escrever o livro, chame minhas filhas, elas tem uma boa experiência no assunto!

Agora me conta...qual era o nome que o bebê ia ter??

Adelaide Araçai disse...

Realmente esta retrospectiva nos faz ler e aproveitarmos só o melhor de cada blog. Adorei relembrar com você

Muita Luz e Paz
Abraços