quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Falamos a mesma língua?



O outro pé da sereia, Mia Couto



Ao fazer uma resenha sobre um livro, sempre procuro ter um mínimo de distanciamento emocional, pois posso escrever de maneira que só faça sentido para mim. O outro pé da sereia me deixou um impacto muito grande, passei semanas pensando nele e sobre ele, então esperei um tempo, reli e só agora falo sobre ele. Na verdade também sou um pouco ciumenta das minhas leituras então fico sem querer dividir minhas paixões.
O outro pé da sereia é escrito na língua que nos une – o português – mas que o autor moçambicano a utiliza com as influências das línguas locais e suas narrativas, fazendo do livro uma viagem maravilhosa por nossa herança comum.  Vários elos nos unem com alguns países africanos: a colonização portuguesa, tráfico de escravos e influências religiosas. O livro se passa em duas épocas no passado e no presente onde tudo mudou, mas tudo continua igual.  O livro começa com a viagem de dois jesuítas transportando uma imagem da Virgem Maria para a evangelização dos ímpios, a imagem cai no rio, perde um pé e imediatamente os ditos “ímpios” associam a imagem com seu manto azul a uma de suas deusas da água – Kianda em Moçambique e Iemanjá por aqui - daí para frente nunca mais realmente se entende, seja no passado ou no presente. Foi exatamente essa incapacidade de compreensão que me pegou pelo pé.
No ano passado eu estudei exaustivamente as Missões Jesuíticas na América o Sul e o que me chamou mais atenção após ler livros e reproduções de documentos é exatamente a presunção dos colonizadores ou evangelizadores que aqui aportaram, a presunção que estavam trazendo a salvação, para quem? Que estavam civilizando os da terra, quem pediu? Com honrosas exceções, nunca sequer perceberam quem aqui vivia, então os Guaranis e outras nações simplesmente fingiam que aceitavam e só faziam o que queriam, há inúmeros relatos de jesuítas dizendo que eles eram como animais, incapazes de compreender a civilização, palmas para nossos nativos! Mia Couto permeia seu romance exatamente com essa capacidade de adaptação dos habitantes originais de Moçambique, então a imagem da Virgem Maria sempre será uma deusa das águas, se para viver melhor e suportar o colonizador devemos ir à missa, por que não? “Eles são loucos e não veem o que é tão claro”, assim pensa quem é da terra. Todos os colonizados resistem de alguma forma e no livro estão muito bem representados pelos habitantes da Vila Longe, que nome genial! Pois só é longe para quem chega.
No presente essa incapacidade é representada por um casal afro-americano, que se assim intitulam já que eles não se sentem bem se chamando de negros, o que é incompreensível para os habitantes da aldeia, afinal eles são negros! E nesse ritmo todos da aldeia fingem que estão aceitando tudo e ligando a mínima para as boas intenções, a honrosa exceção vai para a mulher que por empatia feminina tenta entender um pouco o que acontece a sua volta. E a imagem da Virgem Maria continua lá!
O outro pé da sereia é permeado de poesia, magia, tradições milenares e conflitos atuais com os que chegam, seja no passado ou no presente e me deixou uma grande lição: sempre seremos mais quando reconhecemos o que somos e enquanto mantivermos nossa essência intacta.

“Somos todos parecidos; santos para viver, demônios para sobreviver.” Mia Couto

SOBRE O AUTOR

Mia Couto (1955- ) - nascido Antônio Emílio Leite Couto é um biólogo e um dos escritores mais importantes de Moçambique. Seu trabalho na área ambiental é de suma importância para seu país após anos de guerra.  O outro pé da sereia é publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

22 comentários:

Alexandra Cunha disse...

Eu havia lido apenas uns contos do Mia Couto. Então, ele esteve no Brasil, veio ao Sul para o Fronteiras do Pensamento, deu uma entrevista no Roda Viva (quem não viu, recomendo. Tá no Youtube). Eu vi a entrevista e o achei sensacional; um sujeito simples, sensível, cordato.
Aí, li a Confissão da Leoa. A partir de então, virei fã.
Vou ler este que você resenhou. E recomendo o último romance dele, esse de que falei. É um libelo feminista, é belo, é tocante.
Um beijo,

Regina Rozenbaum disse...

Só li dele Antes de nascer o mundo e os outros estão na lista. Acabo atropelando a sequência que eu mesma criei por conta dos presentes/livros recebidos. Incluirei mais esse, e com essa frase então? Adorei!
Beijuuss Ju

Lúcia Soares disse...

"Sempre seremos mais quando reconhecemos o que somos e enquanto mantivermos nossa essência intacta."
Frase perfeita, Jussara.
Nunca li Mia Couto. Vou providenciar.
Beijo!

Inaie disse...

querida!! fiz um post falando da minha mãe, copiando, digo, inspirado num post seu.

Inaie ladra de idéias alheias!!!

saudade de vc

Beth/Lilás disse...

Jussara, querida!
Gostei demais da forma como fez a análise desse livro, pegando o principal que é justamente a incompreensão do colonizador em não aceitar e respeitar as crenças e costumes dos habitantes locais.
Mia Couto é sim um ótimo escritor, admiro mais suas poesias ou frases filosóficas, mas já li dois livros dele: O Último voo do Flamingo e Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra, masssss confesso, não sou fã do seu estilo, embora perceba o quanto de história e filosofia ele embute em seus textos. Entretanto, quem sou eu para fazer uma crítica a tão importante escritor! rsss
Ele é e continuará sendo um grande mestre nas palavras e na forma de contar a vidas e o misticismo de seu povo.
um grande abraço carioca


Cissa Branco disse...

Ju,

Que delícia de livro esse. Adoro o tema e me pareceu muito bem desenvolvido. As missões e seus causos com os nativos são de uma riqueza sem fim, a arrogância dos colonizadores chama atenção sempre, nem precisamos ir tão longe para percebê-la, basta ver o domínio americano e sua incoerência frente aos demais países em desenvolvimento para saber o quão petulantes são os colonizadores.
Beijos

Rosa de Paiva Lopes disse...

Obama no seu discurso, segunda-feira, disse algo como: "o país que leva liberdade pra os que a não tem"
Pois então, presunção de colonizador ...
No tempo presente.

Bjinho

Nadia V. disse...

Uma das minhas metas literárias para 2013 é conhecer Mia Couto. Adorei a entrevista dele no Roda Viva e como passei a minha infância em Moçambique (fui pra lá bebê e morei até os 8 anos) quero muito ler seus livros. :)
Beijos.

Calu disse...

Oi Ju,
vou anotar correndo este livro na minha lista.Aprecio muito Mia Couto, sua narrativa entremeada de ditos, filosofias e expressões regionais é marcante.

Tua resenha faz uma clara apresentação da obra.Imagino com quantas revelações vc se deparou na pesquisa para o Tempo e o Vento.Adoro História e todos os seus meandros.
Um lindo fim de semana.
Bjos,
Calu

Celia na Italia disse...

Ju
Como sempre uma bela descrição de mais uma grande obra.
Confesso não conhecê-la, mas já deu uma pontinha de curiosidade!
Bom final de semana

Carlos Medeiros disse...

Mia Couto está na minha lista dos livros a adquirir. Parece muito bom. Bom final de semana.

Teresinha disse...

Olá Jussara,
Tenho uma lista das suas indicações, que por sinal são dez!!!
Beijos mil

ONG ALERTA disse...

Adoro ler, beijo Lisette.

Lufe disse...

Oi Jussara.
Como sempre voce aparece com uma sinopse intrigante.
Quem não há de quereu ler " O outro pé..." depois desse relato?
Mais um pra fila.......rsrs
bjos

Ps. Agradeço as visitas constantes e a lembrança.Vou tentar ser mais presente.

Luma Rosa disse...

Gosto demais da narrativa de Mia Couto, mas nesse livro me perdi um pouco devido ao grande número de personagens e volume de pequenos acontecimentos. Porém esse é apenas um detalhe que não fez muita diferença quando da importância da ideia central, tão bem desenvolvida com ironia e neologismos, características do poeta/escritor.
Se ainda não leu ‘Um Rio Chamado tempo, Uma Casa chamada Terra’, recomendo... :)
Beijus,

Jose Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Como eu gostaria de vencer a preguiça e estimular a curiosidade para ler mais textos dos escritores africanos de língua portuguesa...
Bom final de semana!
beijinho

Bia Jubiart disse...

Oi amiga Jussara!

Vc já leu Baba? Ele acha que todo colonizado no fundo quer ser o colonizador... De tão complexo, li ele num grupo de estudo que frequentava na UFT. A sua delicada e sensível resenha fez-me voltar memória da história do meu companheiro amado, não lembro se já falei (escrevi)ele lutou pela independência de Angola, nasceu em Lisboa e se criou em Luanda, e se orgulha de ser africano, enfim a história é longa...
Realmente deveria haver um respeito pelo que somos na essência.

Bella, tenha um fim de semana maravilhoso!

Beijãooooooooo

Bia Jubiart disse...

Ah! Vou atrás do livro p/ o companheiro devorador de livros...

Sandra Portugal disse...

Jussara
Por você ser tão querida, amanhã preparei uma surpresa para você, compartilhando um presente que ganhei.
Espero você lá no Projetando Pessoas para uma visita de domingo, tá?
bj carinhoso
Sandra
http://projetandopessoas.blogspot.com.br//

Pandora disse...

Eu conheci a literatura africana de língua portuguesa por força do trabalho e morri de amores por Mia Couto. Como não amar a forma perfeita com a qual ele escreve, os sujeitos que ele coloca em evidencia a forma como a gente se reconhece em seu texto??? Impossível não amar!!! "O outro pé da sereia" já está na lista!

Cissa Branco disse...

Ju,

Obrigada pelo carinho. Beijos e ótimo carnaval!

Teresinha disse...

Olá Jussara,
Estou fazendo um desafio lá no blog (tipo blogagem coletiva), vamos ver se vai dar certo. Desenhar faz bem para alma...
Confira!!!
Beijos mil
www.democratizacaodamoda.blogspot.com