segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Você conhece, mas não leu

Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga

Ao escrever o post abaixo sobre o Dia Nacional do Livro me dei conta que nunca havia lido Marília de Dirceu. É verdade que quase ninguém leu, mas todo mundo conhece. É daqueles livros que são sempre citados por professoes de literatura quando nos ensinam os movimentos literários e o autor é muito citado quando se fala na Inconfidência Mineira, quando muito mostram algum trecho e fica por aí mesmo. Resolvi ler. Sabia  que era um poema interminável e cheio de rococó, mas lá fui eu atrás de uma versão integral.
Marília de Dirceu é um poema dividido em três partes e está inserido no movimento Neoclássico ou Arcadismo. Cada parte tem umas tantas liras, na primeira constituída de 33 liras é onde mais se vê a presença de Marília, o poeta até podia estar apaixonado mas usa a musa para tecer loas a si, veja aí:
(...)
“No rosto teu
Em vão terias
Essas estelas,
E as tranças belas,
Que o céu te deu;
Se em doces versos
Não as cantasse
O bom Dirceu.” (...)
A  beleza dela é vã apesar de ter sido dada pelo o céu e ele é o máximo pois  em sua bondade se dignou a cantar essa beleza. Oi! desculpa aí Tomás, mas não queria ser sua Marília, não! Toda as primeiras liras, mesmo comparando ela com mares, pedras e céus, invocando Cupido e Vênus  é  para ao final dizer: “terás um Vate, que te preze, que cante seus louvores.” Sei que a leitura desse poema hoje é muito diferente da que se fazia no século VXIII, mas somos leitores de agora, essas liras da primera parte foram muito populares na época, mas seriam de difícil degustação por grande parte do público moderno.
Na segunda parte (38 liras) Marília ainda está presente, não mais como Musa inspiradora mas como depositária das choramingas e dos lamentos do poeta que se encontra preso (por causa do seu envolvimento com a Inconfidência Mineira)  e clama sua inocência :
(...)
“Chega as horas, Marília,
Em que o Sol  já se tem posto;
Vem-me à memória que nelas
Vi à janela teu rosto:
Reclino na mão a face,
E entro de novo a chorar.” (...)
A teceira parte é vergonhosa (9 liras e 13 sonetos), Marília praticamente some de vez, é chamada de vários nomes inclusive Dircéia (ninguém merece!), poemas recheados de mitologia grega (praticamente precisa-se de um curso de mitologia para entender), descrições de uma viagem por mar rumo a liberdade, afinal Tomás havia sido degredado para Moçambique, e loas ao reino português:
(...)
Feliz então, então só inocente
Era de Luso reino. Oh! bem perdido!
Ditosa condição, ditosa gente!” (...)
Só podia ser “ditosa condição”, pois foi mais fácil todo mundo envolvido, com dinheiro e lustro, jogar a culpa nas costas de Tiradentes (o mais pobre e mais idealista) e ir cumprir degredo nas colônias africanas. Tomás foi para Moçambique, casou-se com a filha de um rico mercador de escravo (Marília?!... quem?) e voltou a servir o reino português como funcionário, de lá não se conhece nenhuma poesia dele.
Acredito que para os estudiosos o longo poema Marília de Dirceu deva ser de grande valor, mas eu só comecei a me divertir quando me pus no lugar de Marília, ri desse pastor/poeta babão que mal me via e nem sabe se sou morena ou loira, que descreve campos verdejantes cheios de ovelhinhas (juro!), quando tudo que vejo são as montanhas de ferro de Ouro Preto, que tem o desplante de dizer que minha beleza vai fenecer e meus cabelos ficarão brancos antes que ele saia da prisão mas que devo esperá-lo pois ele vê beleza em mim! Se quiserem se divertir, fica a sugestão.
“Marília escuta
Um triste Pastor.” Tomás Antônio Gonzaga
SOBRE O AUTOR
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) - foi  jurista e  poeta, filho de pai brasileiro e mãe portuguesa, passou a infância no Brasil e completou seus estudos jurídicos em Coimbra. É considerado o mais proeminente dos poetas árcades, publicou as primeiras liras de Marília de Dirceu em 1792, em Lisboa. É patrono da cadeira de número 37 da Academia Brasileira de Letras. Por ser um livro de domínio público existem inúmeras edições.

17 comentários:

APPedrosa disse...

Eu também não li Marília de Dirceu, mas me diverti com seu post. Deve ser péssimo ser musa de um poeta assim.

Beth/Lilás disse...

Chii, também nunca li Marília de Dirceu, mas já ouvi falar tanto!
Bom você trazer estas coisas para a gente, vamos nos informando aos poucos.
Pois então, por isso tem que existir poetas nesta vida, eles veem e dizem o que não conseguimos captar.
beijocas cariocas


Pandora disse...

Eu ri rsrssrs... Sei não viu, esses amantes que só amam a si e a seu ego são de fazer ri mesmo!!!

Rogério Pereira disse...

Jussara, hoje ao te ler,
senti que tinha que de colocar um desafio. Sem compromisso.

Quando cheguei ao fim e li sobre o autor (que não conhecia) que seu primeiro livro, Marília de Dirceu, foi editado em Lisboa... senti-me corar de vergonha por não conhecer...

Isso me fez pensar mais ainda, na ideia surgida. Que tal, você editar post mensal sobre autor português editado no Brasil?
Eu faria o mesmo, sobre autor brasileiro que se tenha editado em Portugal... Vale?

Dia 30 de Novembro?

Lúcia Soares disse...

Não le e agora não me interessa.rs
Claro que se me cair em mãos, darei uma passada de olhos. Realmente, nunca ouvi falar que ele fosse poeta, a não ser para louvar Marília.
Vale sua visão.
Beijo.

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Jussara
Vir aqui é sair mais culta... que bom!!!
Bjs de paz e bem

Lufe disse...

he he he Jussara,

não li e nem vou ler......rsrsrs
Me arrefeceu qualquer animo que por ventura tivesse.
Tadinha da Marilia....ou melhor, que sorte ela deu para que esse Dirceu tambem desse com os burros n'agua e fosse degredado.

PS. Quem sabe não arrumam um bom lugar para enviar o Dirceu de hoje?

bjo procê

Luana disse...

Po, Dircéia meu irmão? hahahaha
Eu li alguns trechos desse livro na escola e bocejei... Fico feliz que não tenha sido a única a achar a obra um porre!
E quero ver sua lista de 11 felicidades sim!!! =)

Adelaide Araçai disse...

Eu sou uma daquelas poucas pessoas que leu e o mais interessante...tenho o livro...rsrs
Adorei Vê-lo aqui por sua ótica confesso que nem me lembro mais da tal Marília vou relê-lo para ver qual a minha impressão sobre o mesmo na atualidade...rsrs

Muita Luz e Paz
Abraços

Kinha disse...

às vezes a gente se surpreende ao ler clássicos achando que são chatos e decobre que são deliciosos...

Ashen Lady disse...

Li quando era adolescente, há muito tempo atrás, mas antes a professora nos pediu para ler A Ladeira da Saudade do Ganymedes José, cuja história se passa em Ouro Preto com dois adolescentes chamados Marília e Dirceu. Acabou que lembro mais desse que do original que inspirou esse.

Rosa de Paiva Lopes disse...

Oi Ju!
Menina fazia tanto tempo!!!
Mas olha independente dos vacilos do Dirceu eu ri demais; ri dele, ri dos nosso professores de literatura que seguem sem saber como nos estimular a ler Marília de Dirceu...

Bem melhor recordar contigo!!!
Bjinhos

Nadia V. disse...

Eu não li, mas ri muito com o seu texto rs. Gente, não quero um Dirceu a minha vida hahaha.

Beijos

Regina Rozenbaum disse...

Também sou da turma que não li, mas trechos e mais trechos foram dados pelos profs mineiros. Também iria mandar Tomás catar coquinho na esquina com esse amor(?)depreciativo de meu ser! Cê é chique demais Ju...só usou "desplante" no xingatório kkkkk. Cê é chique nu úrtimu e eu a-do-ro esse seu humor!
Beijuuss sorrindo procê

Clara disse...

Eu sei que eu estudei e até decorei alguma coisa de Marília de Dirceu... mas faz anos... estava na 6ª série e a professora de Literatura era fabulosa!
Que bom relembrar disso.... muito bom mesmo!

Um ótimo fim de semana... beijos

Drixz disse...

Taí, acho que nunca li o famigerado. Trechos sim, afinal de contas, arcadismo é algo pelo qual todo estudante de letras teve que passar, mas gostar...

Mas quem nunca quis ser uma Marília para o seu Dirceu? Meu marido disse que eu sou sua musa das ciências, mas isso não tem a menor graça.

Daniel Brazil disse...

Confesso, eu li. Escrevi até um roteiro de cinema sobre eles.
Retrato de uma época, certamente. Se tivesse morrido jovem, teria sido o Romeu brasileiro, apaixonado pela sua Julieta (idealizada). Mas envelheceu e envileceu, como acontece com a maioria...