quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Submisão, sensualidade e dor



História D’O, Pauline Réage
Desenhos, Guido Crepax


Os assuntos entram e saem de moda, provocados pelos noticiários, cinema, televisão e livros. Submissão entrou na moda através dos livros, o que é uma boa notícia, mas não se trata de um assunto novo em literatura, aliás é bem velho! Tão velho quanto a humanidade, pois se trata da sexualidade humana e suas variáveis. Como sou uma defensora de boa literatura e esse é o assunto da moda, vou de História D’O.
O é uma mulher livre, independente, fotógrafa de moda nas Maisons de Paris, antenada e que frequenta as altas rodas dos anos 20, apaixonada por René (seu amante) aceita ser sua escrava. Vai para um castelo perto de Paris, onde se torna uma escrava de René e de outros homens, fazia parte das lições. O castelo é uma propriedade particular; no seu interior muitas mulheres são educadas para serem submissas à vontade dos homens. O deixa-se ensinar para ser uma perfeita submissa. Como parte de seu treinamento, ela é amarrada, chicoteada, usa coleira, algemas e passa por outras humilhações. O aprende ser uma escrava submissa, mas ela permanece sempre confiante e consciente do seu poder sobre os homens. Nada acontece sem o consentimento dela, eles perguntam e ela aceita. Tudo é descrito sob sua   perspectiva, cuja vida interior é retratada de uma maneira sutil, sem  avaliação  moral ou psicológica, por isso o romance é considerado uma obra feminista.
História D’O, como livro tem uma história bem interessante. Foi publicado nos anos 50 e sua primeira edição já saiu em francês e inglês,  assinado por Pauline Réage. Quem????? Ninguém sabia quem era o autor/a, inclusive se duvidava que tivesse sido escrito por uma mulher, o editor se calou.  Foi um enorme sucesso e com todas as controvérsias no ano seguinte à sua publicação recebeu o prêmio Les Deux-Magots  de 1955 por suas qualidades literárias, tornando-se assim um dos ícones da literatura erótica do século XX. Quarenta anos depois a autora se apresentou,  Anne Desclos.  Muitos franceses, que provavelmente leram Historia D’O escondidos, cairam de suas cadeiras. Anne era uma figura conceituada no meio literário francês, tinha sido militante da Resistência e era a única mulher que fazia parte do comitê de leitores da Editora Gallimard, onde se incluía Albert Camus e um ou dois autores titulares da Legião de Honra e era uma especialista em poesia do século XVII. Por que ela escreveu livro? Por que um dos editores  disse que nenhuma mulher era capaz de escrever um romance erótico com qualidade.  Ela o fez  e ele editou. Por que o anonimato? Era um livro altamente erótico, ela já era respeitadíssima, tinha 47 anos e morava com seus pais e um filho. Quarenta anos depois eram outros tempos e segundo ela: “Não gosto de mentiras!”  Pelo bem da verdade, ao longo desses anos alguns amigos sabiam e respeitaram a sua vontade.
Desenho de Crepax
Li o romance  ainda no século XX,  não me lembro de ter me marcado,  bem escrito, sem nenhum palavrão  ou imagens grotescas, não gostei  da temática: submissão, mesmo que por amor, não serve para mim e ainda com dor!!!!  Eu li a tradução para o português de Portugal, até fazer esse post nem sequer sabia que houve tradução para o português brasileiro e pelo que pude constatar está há anos esgotado, quem sabe agora com tanto auê sobre o assunto alguém resolva reeditar.  Por volta dos anos 70, encontrei História D’O desenhada por Guido Crepax, um desenhista  mais que reverenciado por quem gosta de HQ. Crepax tem um traço leve e delicado, seus trabalhos têm sempre um alto grau de erotismo e ele sempre se aventurou entre sadomasoquismo e fetiche, sua mais famosa criação é Valentina. Achei perfeito! Tenho meu volume até hoje e apesar de ser uma temática pesada e o desenhista não esconder nada,  os detalhes e a delicadeza do desenho me encantam, nunca vi art nouveau tão bem desenhada, as roupas (quando há) são aulas de moda. É uma edição portuguesa, não descobri se houve edição no Brasil, mas vi pelos sebos virtuais que existem edições iguas a minha à venda.  Vale apena ler? Lógico, principalmente se for em HQ. Aliás sempre vale a pena ler!

A maior perfeição da alma é ser capaz de prazer.  Luc de Clapiers

SOBRE OS AUTORES

Anne Desclos (1907-1998) - uma jornalista, escritora, critica literária francesa e atuante juíza em prêmios literários. Publicou História D’O em 1954, sob o pseudônimo de Pauline Réage.

Guido Crepax (1933 - 2003) – desenhista e quadrinista italiano, criador de Valentina sua obra reflete a inquietação dos anos 60 e 70 do século XX. Desenhou a História D’O em 1975.

A título de curiosidade:

Bondagem é um fetiche que tem como finalidade ter e proporcionar prazer através da imobilização, pode ou não envolver dor.
BDSM é um acrônimo para a expressão: Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo.

21 comentários:

Lucas disse...

Troco vinte sete livros Cinquenta tons de Cinza (mesmo sem tê-los lido) por um desse.Mais um para a lista de desejos!

Lucas disse...

Aliás, desejo é a palavra!

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Jussara
Aproveito uma folguinha...
Vc costuma pesquisar e postar com consistência... isso é ótimo em termos de literatura!!!
Apesar de apreciar outros estilos, vejo o quão vc é competente na área... Parabéns!!!
Bjs de paz

Rogério Pereira disse...

Minha querida, tenho andado arredado né?
Se me trouxeres temas teus e meus, de mim e de ti, edição portuga ou brasuca, de qualquer maneira... conheces os novos autores portugueses?
eu não conheço os novos autores brasileiros...

Me ajuda, Palavra Vagabunda?

Cintia Branco disse...

Ju,

Só você para me fazer vir comentar, rs, ando tão corrida que mal visito o meu blog. Vou em busca do livro, não imagino uma obra como essa, escrita por uma mulher e ainda naquele tempo, com qualidade então, nem se fala.
Quanto aos 50 tons, não gostei no princípio, detestei a autora, mas ela soube aproveitar o momento e vender seu peixe, o personagem masculino para mim é fascinante, um príncipe encantado contemporâneo, não que eu queira um assim para mim, não troco meu Mestre, mas ele faz tudo aquilo que uma mulher quer. Creio que a abordagem vai além, a mulher de hoje sonha com uma vida mais caseira, sem tantas responsabilidades, com um homem que assuma as rédeas, pois poucas tem o privilégio de ter de fato um homem companheiro.
Fui ao lançamento de um dicionário de direito de uma amiga, e lá vi várias obras sendo lançadas. Quando vi os autores falando, babei, peguei os livros e foi uma decepção. O dicionário é excepcional, valeu a noite! No outro dia essa amiga me mandou um link com um concurso de contos e a seguinte questão: Duvido você se arriscar... Tenho pensado nisso desde então, seu post além de tratar de um tema que adoro, porque penso que o poder feminino está em descobrir seus limites e do outro, ainda tocou no dilema que vivo essa semana, afinal, a autora também foi motivada pelo impossível segundo os outros.
Amei!
Grandes beijos

Calu disse...

Uma revolucionária,a autora, com certeza. Já pela data da criação do livro se revela sua alma indômita.
Ouvi falar da obra , mas nunca a li.È uma provável aquisição.

Bjos, Jussara.Uma boa noite.
Calu

Beth/Lilás disse...

Jussara,
Você sempre trazendo títulos incríveis e sua descrição mais ainda.
Estou com o Lucas, acho que quero um desses no lugar desse tão badalado tons de cinza e que já não aguento mais ver gente comentando sobre o mesmo nas redes sociais.
E eu que adoro esses anos art nouveau ia ficar bem contente se ganhasse um.
beijos cariocas



Pandora disse...

Ah eu já to com vontade de ler especialmente o HQ!!! Eu sei, eu não presto, mas leio coisa mal escrita porque não ia ler uma bem escrita?!?!? Resta apenas encontrar um lugar pra guarda fora do alcanse dos aborrescentes e crianças que acham que meus livros são brinquedos em potencial!!! rsrs

Nadia V. disse...

Ah, fiquei interessada. Quero ler um bom um livro sobre esse tema depois de ter lido os '50 tons de porcaria' rs.

Beijo

Luciana Nepomuceno disse...

Oi, querida. Nunca mais comentei porque ainda não consegui colocar a vida nos eixos (que esperança), mas estou sempre por aqui. Estava pensando se você não queria pegar esse post, aumentar um pouquinnho a parte resenha de conteúdo e me dar pra eu publicar no biscate...(sou pedinte descarada).

saudades e beijos

Valéria Cruz disse...

Deixou-me com água na boca...rs
Vou procurar!
Obrigada pela dica e pela resenha tão bem escrita
Bjão
V.

She disse...

Ah que delícia de post querida Jussara, obrigada por ter me chamado para ler, ando tão ausente dos blogs que eu amo, e o seu é um deles. Bem, fiquei com megavontade de conhecer essa obra. Eu sou uma amante do erotismo, me encanta em proporções mil. Nem todo mundo sabe trabalhar com ele sem acabar indo para o pornográfico, pois realmente existe uma linha bem tênue entre os dois. Mas um de fato não tem nada a ver com o outro.
Não gosto de submissão na vida real, mas em livros e filmes eu acho uma patologia fascinante que leva a outras, e por isso acabei no meu primeiro livro também falando sobre ela.
Mais uma vez seu post está perfeito, muito bom, parabéns!
Beijo, beijo!
She

Regina Rozenbaum disse...

Não me apeteceu (como diriam nossos amigos portugueses). Acabei de ler, numa sentada, e adorei, Jardim de Inverno da Zélia G. Desconhecia sua veia cheia de bom humor e esse diário dos tempos de exílio.
Beijuuss

Letícia Alves disse...

Não conhecia!
Muito interessante! é um livro para se conhecer e ler.

Obrigada por compartilhar!

Abraços!

Inaie disse...

a história da autora me fascina muito mais que a da sua personagem...eu como sempre, apaixonada pelas histórias da vida real. Será que ela tem biografia publicada?

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Há algum tempo li críticas sobre este livro mas nunca o li. Sua matéria, que mais parece um ensaio, aguçou a minha curiosidade e interesse. Vou "catar" nos sebos...

Um abraço!

Carlos Medeiros disse...

Por ser considerado um livro de qualidade, pretendo lê-lo, mas também não gosto do tema, submissão. Suponho que seja uma crítica ao forte machismo da época. Abraços.

Lu Guedes disse...

Comecei a ler o livro da moda "cinquenta tons de cinza" mas é tão mal escrito que abandonei e o tema acho que poderia ter sido melhor abordado, enfim, me interessei por esse citado por você. Não sou adepta ao sentir dor e tão pouco a submissão. Sou muito incisiva para perder o controle de qualquer coisa que seja. kkkkkkkkkkkkkk
Enfim, mas leio esses temas acho que por curiosidade. Tenho dois amigos que são "escravos" e as vezes fazem relatos que me causam algum desconforto quanto as questões, mas isso é lá com eles. Eu fico aqui no meu mundinho colorido, sem dor, apenas prazer. rs

bacio

Drixz disse...

Quadrinhos eróticos me deixam um pouco frustrada. Prefiro erotismo em letrinhas. Minha imaginação é muito fértil. Mas quanto à submissão, sei lá. Não acho que estamos num grau de igualdade para podermos afirmar que a submissão nesse caso pode ser 100% consentida, ainda mais na nossa cultura brasileira.

Nina disse...

Uau,como vc descreveu, deu ate vontade de ler. e que historia, esperar 40 anos pra revelar que escreveu o livro. Ainda nao tinha ouvido falar desse livro, Jussara. Que interessante, apesar de assim como vc, nao gostar da temática :-/

Luzia Henrique disse...

Olá. Não li o livro, vou colocá-lo em minha lista. Mas achei interessante ela escolher como pseudônimo o nome também de uma mulher.

Muitas outras escritoras escreveram sob pseudônimo masculinos para fugirem do preconceito. Como é o caso da Karen Blixen que escrevia sob o nome de Isak Dinensen.

Fiquei impressionada também como este livro não foi condenado pelo movimento feminista.

Abraços