sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Girinos no quintal!



Aos 9 anos.

Tenho 8 anos e quatro irmãos, estou doente e ouço as brincadeiras lá fora. Tudo bem! Tenho a companhia de fadas, princesas, madrastas más e príncipes encantados, um enorme livro com todos os contos dos Irmãos Grimm. Todas as histórias tinham pão preto, alguém fazendo, alguém comendo ou alguém roendo um pedaço duro, como eu tinha sérias restrições alimentares, comecei a atormentar minha mãe que queria pão preto. Não era fácil de achar e a família se pôs a procurar em armazéns, padarias e mercadinhos, supermercado só se via no cinema. Nessa época morávamos em São Paulo, uma cidade basicamente de imigrantes, então alguém teve a ideia de procurar nas padarias que se encontravam nos bairros com concentração de alemães, poloneses, tchecos e outros eslavos, finalmente eu teria meu pão preto (sem sal). Lá se foi minha mãe buscar. Devo dizer que até hoje me lembro do gosto e que nunca mais comi um tão bom, mas quando meus irmãos viram o dito disseram que eu queria comer pão bolorento! Nem sei se eles se lembram disso, pois sou a mais velha e a quarta irmã, depois de dois meninos, mal andava!
Quando eu estava com 10 anos chegou um bebê, outro irmão. Agora esta equilibrado, três meninas e três meninos. O caçula chegou trazendo revolta, quando fomos informados qual era o nome escolhido, achamos horroroso! Simplesmente nos recusamos a falar o nome e só o chamávamos de bebê. Depois de quase um mês meus pais acharam um nome aceitável para o bebê. Anos depois minha mãe um dia perguntou para os quatro mais velhos, afinal a caçula anterior só tinha dois anos e a gente mandava nela, o porquê de não querermos o nome, a resposta foi unânime: Era um nome de gente velha!  E era só um bebê! De onde tiramos isso? Vai lá saber!
No ano seguinte mudamos para uma cidade muito pequena em outro estado, foi uma aventura!  Fomos estudar numa escola enorme, pelo menos para mim era. Na verdade era a única escola estadual da cidade. Esqueci de contar, tenho uma irmã que é quase minha irmã gêmea, quase porque temos a exata diferença de um ano. É isso mesmo, ela nasceu dois dias depois que eu fiz um ano, como podem ver nunca fui uma criança solitária daquelas que não tinha com quem brincar. Eu não me lembro, até acho que é intriga, mas conta a lenda familiar que quando ela tinha uns três meses, eu consegui na cozinha um bom torresmo, dei umas lambidas e gostei.  Ora eu tinha uma irmã que só bebia leite então fui lá repartir meu achado, fui pega em flagrante. Minha linda irmãzinha estava chupando com vontade o torresmo e eu rindo de felicidade com o braço entre as grades do berço segurando o torresmo. Acho que foi aí que minha mãe começou a ter cabelos brancos! Aliás, acho que essa de dar comida errada para os meus irmãos era minha especialidade, dei quase um pepino inteiro temperado para salada para o último bebê que chegou, quando ele tinha uns seis meses. Dessa eu me lembro, inclusive da bronca. Eu achava que ele era minha boneca, só que comia de verdade.
Eu fui para o ginásio, juntamente com minha irmã, lembre-se perdi um ano doente, e daí até nos separarmos no colegial estudamos na mesma classe. Foi bom e foi ruim, foi bom pois tivemos muitas amigas em comum e hoje compartilhamos várias história, foi ruim pois ela era uma peste e tinha uma advertência por semana e eu era tímida  e quieta. Nunca estudamos juntas para qualquer prova, ela só estudava de última hora. Nunca fizemos nenhum trabalho juntas, hoje vejo que meus pais incentivavam que tivéssemos nossos próprios amigos, sem qualquer dependência uma da outra. Brigávamos que nem cão e gato e dividíamos o mesmo quarto, aliás as três meninas, hoje somos muito amigas! Como o nome dela também começa com Ju, brincamos que quando estivermos bem velhinhas, ninguém vai achar que estamos gagás quando ouvirem o seguinte diálogo na feira:
- Juju pegou os chuchus?
- Lógico Juju!
Brinquei na rua, pulei muro e corda, brinquei de queimada e taco. Minha irmã foi goleira no time dos meninos, eles queriam ser artilheiros, aí já viu. Eu era péssima em futebol.  Tomei banho de chuva e enfiei o pé na lama, tive bicho de pé.  Andei de bicicleta, carrinho de rolimã e patinete. Trago cicatrizes das batalhas infantis contra asfalto novo, queda de muro, queda de árvore, encontro com pedras e outros troços que insistiam em ficar no meu caminho. Comi fruta tirada do pé e ora vejam, sem lavar e não morri! Pesquei em riachos, ribeirões e lagoinhas que não passavam de cacimbas. Tentamos criar girinos em um tacho no quintal, para sorte da minha mãe todos que trazíamos morriam muito rápido. Nunca gostei muito de brincar de casinha, mas quando brincava o fazia era para valer, montávamos uma enorme casa no quintal, com todas as bonecas e minha mãe deixava a gente almoçar por lá!
Tenho saudades da minha infância, agora que eu e meus irmãos passamos da idade da responsabilidade, temos netos e filhos adultos, nos permitimos algumas traquinagens juntos e muitas risadas. Sempre nos lembramos do que aprontamos e como quem conta um conto aumenta um ponto, os filhos e os netos pensam que só fazíamos arte e têm pena do vovô e da vovó. Daria um livro do tipo Como enlouquecer seus pais, quem sabe um dia!

A Beth juntou as amigas blogueiras, fez uma homenagem ao Dia das Crianças e está cheia de histórias e fotos, vai lá!

28 comentários:

Luana disse...

Ju, cade livro contanto tudo isso? Cade?
Seria uma delicia e eu compraria, juro!
E claro que eu fiquei curiosa em saber o nome do seu irmão mais novo, ne? =)

Teresinha Ferreira disse...

Olá Jussara,
Que lindo texto. Fiquei aqui rindo e lembrando de coisas da minha infância. Quantas lembranças!
Adorei ver a sua fotinha no blog da Beth. A minha está lá também.rs
Beijos mil

✿ chica disse...

Vim dizer que adorei te ver na Beth!! beijos,lindo dia!chica

Valéria Cruz disse...

Ju, viajei no tempo!!! Lembrei-me de uma amiga psicóloga que quando reclamava da minha filha caçula, que me deu um "trabalhão", pela sua irreverencia e espírito travesso em que ela dizia-me: acalme-se, pois, as vivências da infância, realmente, determinam que tipo de adulto seremos. Criança que não estravava, que não se machuca, que não questiona os pais, que não fica de castigo, que não faz perversidade, fica com tudo guardado dentro de si e torna-se um adulto inseguro, invejoso, mal resolvido...
Olha, hoje a minha caçula é uma moça tão responsável, equilibrada, organizada, madura! Eu olho para suas "marcas de infância" e secretamente, chego a ter orgulho!!!
Obrigada pelo deleite!
Bom feriado.
V.

Palavras Vagabundas disse...

Luana,
o nome escolhido foi Murilo e hoje é Fabio. Eu até hoje tenho especial implicância com esse nome!
bjs

Clecia disse...

Olá! Estou vindo lá do blog da Beth! Que lindo post! É uma verdadeira viagem no tempo! Encantador! Feliz Dia da Criança! Bjo

Beth/Lilás disse...

Nossa, Jussara, que texto incrível!
Viajei contigo neste passado glorioso de uma família grande.
Obrigada por participar da coletiva.
Você era uma menina linda demais, adorei sua foto.
Viva nossa criança interior e um beijo grande, carioca

Pandora disse...

Eu sempre sonho com uma família assim enorme!

Acho que apesar das traquinagens, cabelos brancos e derivados seus pais devem ter sido imensamente felizes com vocês!

Tão linda essa crônica de uma infância feliz!!!

Nadia V. disse...

Ah que lindo post, Jussara. É tão bom lembrar da infância. Também tenho ótimas lembranças com meu irmão e minhas amiguinhas. Quanta saudade!
Acabei de fazer um post especial de dia das crianças também. :)
Beijo.

http://navirj.blogspot.com.br

Calu disse...

Oi Jussara,
que delícia a infância solta, em meio à natureza, comendo fruta no pé... Lembranças maravilhosas duma família grande cheia de gente arteira.
Uma comportada menina, a da foto, porque a de verdade foi sapeca.
Bjkas,
Calu

JAN disse...

Olá Jussara!
Que boas lembranças!

Realmente, há homens com certos nomes, que fico pensando como a mãe daquela criatura pode pôr tal nome num bebezinho...;-)

Abração
Jan

Toninhobira disse...

Belas recordações Jussara.
A vida repassada com saudades de um tempo de liberdade onde criança livre vivia intensamente a feliz idade.
Bela participação.
Meu terno abraço.

ML disse...

Oi, Jussara: aqui é a Mônica, vim agradecer e retribuir sua "visita" e me deparo com palavras absolutamente luxuosas!
Lindo post, parabéns!

bjnhs e ótimo feriadão!

✿ chica disse...

Que coisa linda tuas lembranças e histórias. Bem família grande mesmo!Adorei e a foto também!beijos,chica

Evanir disse...

Linda suas lembranças !!
È maravilhoso termos coisas boas para recordar.
Feliz final de semana beijos,Evanir.

Luma Rosa disse...

Suas memórias da infância são bastante vivas e o que é engraçado, me fez perceber que guardo muita coisa que não é da minha infância, como se eu fosse expectadora de um tempo. Lembro muita coisa da minha mãe, dos meus irmãos e do que eu sentia, mas ao mesmo tempo, não era eu ali. Eu não sentia as mesmas coisas que eles sentiam, ao contrário de você, que tem uma irmã quase gêmea e que até hoje são cúmplices. Sempre fui mais próxima da minha mãe e dos meus irmãos, um certo respeito. Sou caçula e meus irmãos muitos anos mais velhos. Eu precisava aprender a enlouquecer meus pais! :) Beijus,

Yasmine Lemos disse...

Muito lindo seu texto ,rico em fatos e lembranças.
beijo

Lin Sousa disse...

olá, suas lembranças me fazem lembrar das minhas que ,salvando algumas proporções, são bem parecidas.. não se fazem mais lembranças como antigamente .. bjks LIN

Lu Souza Brito disse...

Oi Jussara,

Ai ai, já fiz tanta das coisas que citou aqui. Eu era uma arteira, batia nos meninos e tinha uma irmã quase gemea, que só se tornou minha amiga depois de adulta. Eu tinha um ciume danado dela, porque ela era o exemplo da filha perfeita, dedicada, quieta e eu, o demoninho, ahahahaha.
Adorei sua participação e sua visita ao Lichia Doce.
Beijooos

Priscila Ferreira disse...

Nada melhor do que a infância!
Daria um bom livro hein!!
beijos

VaneZa disse...

Adorei essas histórias. Eu tô vendo a moral que vocês têm com os filhos de vocês quando eles ficam sabendo dessas traquinagens de vocês. Essas coisas não se conta pra filhos. kkkkkk

BeijoZzz

Marli Borges disse...

Muito legal esse texto. Ah! a nossa infância! Única, diferenciada, sempre a melhor!!!! Parabéns querida, pela volta ao passado. Com certeza "recordar é viver". Bj

Cinderela Descaída disse...

A infância é linda, tão rica de experimentações de dores e alegrias imensas. Linda a sua infância. Senti saudades da minha.
Beijo,

Misturação - Ana Karla disse...

Ju tá lindo demais esse post.
COmo ser criança era bom mesmo. Mues filhos não conseguem nem imaginar o que é pular um muro, subir numa árvore.
Por que será que mudou tanto?
Te vi lá na Beth, uma fofa.
Xeros

Chris Ferreira disse...

Lindo demais esse post.
Amei!
Beijos
Chris
http://inventandocomamamae.blogspot.com.br/

Paulo Francisco de Araujo disse...

Estou vindo do fina flor. Adorei o blog.
Já estou seguindo.
Um abraço

Regina Rozenbaum disse...

Vi você na Beth e adorei. Aqui, esse texto-história-depoimento, refaz a ideia dos bons e velhos tempos...onde ser criança era um tempo encantado: "E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança.
A gente brinca
Na nossa velha infância."
Beijuuss Ju

Lúcia Soares disse...

Adorei a Jussara menina, levada da breca.
beijoooo!