terça-feira, 4 de setembro de 2012

Cartas de amor, amor?

Sempre Tua – Correspondência amorosa 1920-1925, organização Maria Lúcia Dal Farra
  
Gosto muito mais dos poetas do que de poesia. Gosto de saber sobre suas vidas e seus dilemas de escrita, mas devo ter vindo com defeito de fábrica, sou péssima leitora de poesias. A verdade é que a poesia não me atinge tanto quanto um texto bem escrito, muitas vezes fico sem entender nada, pois tenho a impressão que nunca chego ao que o poeta pretendia. Gosto de algumas poesias, de outras passei a gostar depois de ler uma análise ou até mesmo por ter descoberto o momento em que o poeta a escreveu. O engraçado é que das que gosto as li separado de um livro ou de uma antologia, pois elas reunidas me cansam e fujo da leitura.  De Florbela Espanca li muito pouco, alguma coisa aqui e acolá, já até publiquei uma aqui, infelizmente é mais uma poetisa que não me atingiu, talvez por conhecê-la muito pouco.  Sempre Tua é um livro que me permitiu suprir a necessidade de conhecer melhor Florbela e de ler um livro somente feito de cartas, cartas das quais não conhecemos as resposta.
Florbela Espanca é uma poetisa portuguesa que suicidou-se  aos 36 anos (1894-1930)  após uma vida de intenso sofrimento de alma. Digo que foi um sofrimento de alma porque ela não sofreu o que era usual uma mulher sofrer no começo do século XX na sociedade tradicionalista e carola portuguesa, pois casou-se três vezes, frequentou uma universidade e publicou algumas de suas poesias em vida. Teve seus dissabores, sofreu alguns abortos espontâneos, se viu completamente sem dinheiro e vivendo de favores e (a meu ver) teve maridos muito menos inteligentes que ela. A correspondência amorosa de Sempre Tua, são as cartas que escreveu para aquele que viria a ser seu segundo marido, por elas acompanhamos o namoro, noivado e casamento além das dificuldades que o casal enfrenta. As cartas mostram uma Florbela compulsiva e com altos e baixos, mas sempre se derramando de amor. Não sou especialista em nada, mas a poetisa me pareceu egoísta, ama o Amor e não o amado, idealiza a vida em conjunto e se desilude com a realidade (pouco dinheiro e muito sacrifício), cobra demais do amado mas dá pouco, sua vida interior é mais importante que qualquer coisa. Aos olhos de hoje seria diagnosticada com bipolaridade. Ao ler um pouco mais sobre ela essa impressão se aprofundou, além dela própria ela só amava o irmão. Suas poesias refletem toda essa angústia interior, então como sou uma pessoa prática suas poesias não me atingem em qualquer profundidade. O defeito é de fábrica!
Não me lembro de ter lido um livro de correspondência, mas gostei muito da experiência, vou procurar outros e sei que alguns já deixei passarem por mim. Em Sempre Tua a organizadora coloca notas explicativas sobre o momento histórico português, sobre a situação da poetisa e de seu marido, essas notas são fundamentais para quem, como eu, conhecesse um pouco mais sobre a correspondente. Sempre tua é um livro para quem gosta de poesia, para quem gosta de cartas e para quem quer saber mais sobre uma das maiores poetisa de Portugal, Florbela Espanca.
Quem disser que se pode amar alguém
 Durante a vida inteira é porque mente! ( Florbela Espanca)
SOBRE O AUTOR
Maria Lúcia Dal Farra (1944-  ) -  paulista, poetisa e doutora em Literatura Portuguesa. Publicou Sempre Tua, Correspondência amorosa 1920-1925, pela Editora Iluminuras em 2012.

30 comentários:

Bia Jubiart disse...

Oi Ju!

Não a conhecia... Parece que ela teve uma vida bem intensa em todos os sentidos. fico indagando-me na questão do suicídio, dizem ser um ato covarde, acredito que é um ato de muita coragem, será que as pessoas tirando sua vida acha que tudo acaba, os problemas somem? Que doce ilusão...

Gosto de ler poesias de alguns, não sei se é preconceito ou pura coincidência: São todos homens rs.

Bella, tenha um ótimo fim de tarde!

Bjoooooooo

Bia Jubiart disse...

Correção: ACHAM.

Bjooooooo

Rogério Pereira disse...

Olá,
Há muito que não vagabundeava por tuas "Palavras Vagabundas" e eis que chego e encontro não uma mas duas caras conhecidas... e, surpresa, sou citado no link que foi postado...

Sabes que penso o mesmo de Florbela (da obra dela)e estou de acordo quando escreves: "a poetisa me pareceu egoísta, ama o Amor e não o amado, idealiza a vida em conjunto e se desilude com a realidade (pouco dinheiro e muito sacrifício), cobra demais do amado mas dá pouco, sua vida interior é mais importante que qualquer coisa. Aos olhos de hoje seria diagnosticada com bipolaridade."

Num outro dia te falarei de poesia, que é um meu amor recente...

navirj disse...

Eu adoro os poemas dela, mas não conhecia sua história. Que triste...
Beijos,
Nadia

Ziula Sbroglio disse...

Penso que estou precisando reaprender a ler e seu blog está me levando a isso.

Abraços

Regina Rozenbaum disse...

Defeito de fábrica é? kkkkkkk só você Ju...só você mesma! Eu daqui adorei sua análise sobre a poetisa. És uma psicanalista nata minha querida...és sim! Senti um certo alívio por encontrar mais alguém que não é EN-CAN-TA-DA por Florbela e sua poesia ou se sentir afetada (e entendida)com todos os poetas - desse mundão de D'us - e suas elucubrações poéticas.
Beijuuss n.a.

Lúcia Soares disse...

Li uma poesia aqui, outra ali, pelos blogs. Conhecia alguma coisa sobre ela, mas não em profundidade, Jussara. Gosto desta, especialmente:

"Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!"
Beijo!

Aline Gomes disse...

Jussara,
Me sinto como você quando se trata de poesia e de vida (hahaha, amei essa parte da bipolaridade da Florbela).

O amor é fogo, mas tem que ter os dois pezinhos no chão e os olhos bem abertos pra não se queimar. Esses românticos são MUITO melodramáticos pro meu gosto, não que eu não tenha tido uma fase assim também, mas chega uma hora em que a realidade nos dá uns cascudos e a gente acorda.

Falando em cartas, já ouviu falar de "Cartas de uma freira portuguesa" de Mariana Alcoforado? Não é poesia, mas é beeem interessante.

Um abraço!

Fatima Valeria disse...

"Cartas ao Théo", sobre a correspondência de Vincent Van Gogh com seu irmão, claro, do ponto de vista biográfico. Não conheço muito Florbela, mas de qualquer maneira para mim seus pecados estão perdoados, nem sempre erudição faz o amor ser mais racional, no início do século XX, mulher, sei lá...vai ver que ela era tudo isso, egoísta, intimista e bipolar. Tratando-se de artistas as vezes o mundo é um caos, Van Gogh, Gauguin, Modigliani e tantos outros. Até hj me pergunto sobre isso, as melhores obras quase sempre emergem de vivências muito caóticas,criação e confusão, médico e monstro, criador e criatura...mas isso é outro capítulo, o fato é que gosto não é defeito de fábrica, é gosto, só isso. Abraços

SHEYLA - DMulheres disse...

Oi, Jurema
Já tinha ouvido falar dessa poetisa, mas não conhecia sua trágica história... Preciso ler mais e coisas melhores, isso sim!!

mil beijos.
Sheyla.

SHEYLA - DMulheres disse...

Oi, Jurema
Já tinha ouvido falar dessa poetisa, mas não conhecia sua trágica história... Preciso ler mais e coisas melhores, isso sim!!

mil beijos.
Sheyla.

Adelaide Araçai disse...

Não sei qual o defeito de fabricação mas eu também não sou muito de livros de poesia, embora goste da poesia em si...solta...sozinha....

Muita luz e Paz
Abraços

Luana disse...

tenho o mesmo defeito de fabrica que voce, Ju... nao sou tocada por poesias... que lastima!

Beth/Lilás disse...

Nossa, entendi perfeitamente o que quis dizer e muita gente sente o mesmo que você, mas não sabe expressar-se assim e somente diz que não gosta de poesia.
Eu, ao contrário, já gosto mais de poesia do que textos. Eu sabia que Florbela era uma angustiada com sua posição dentro daquela sociedade fechada da época e por isso tanto sentimento e o final trágico.
Não li este livro ainda e vou adorar lê-lo, já estou aqui anotando.
beijocas cariocas



Wilqui Dias disse...

Vivo em eterna divida com vc, vc ja me visitou algumas vezes, mas eu passo por aqui uma vez ou outra e nao deixo comentario, desculpas...

Eu ia adorar ler esse livro, nao li ainda, otima dica.
bjs

Clara disse...

Já li algumas poucas coisas dela e também não gostei muito. Não sei se pela época que escreveu ou pela intensidade de sofrimentos que pra mim são extremamente exagerados.
Mas gostei de ler o seu post... aliás, gostei muito!

Beijos

Augusto Sperchi disse...

Olá Jussara. Seu texto é brilhante e expressou muito do que também penso. Adoro Florbela e já conhecia sua história, porque também me interesso mais pelo autor do que pelas suas obras, se bem que são estas que alteram a história da humanidade para melhor. Parabéns pelo post. Um abraço!

Marina disse...

Jussara, nesse aspecto somos opostas: sou uma boa leitora de poesias e amo-as. Florbela Espanca é a minha poetisa preferida (entre os homens gosto muito de Manoel de Barros e João Cabral de melo neto). Conheci Florbela matando aula numa biblioteca perto do meu colégio quando tinha uns 16 anos. Eu estava profundamente apaixonada nessa época e descobrindo o amor (físico, inclusive) e achei as poesias da Florbela de uma melancolia sensual... adorei, me deliciei com aquilo, lia e parecia que bebia uma taça de vinho... Desde então quando leio Florbela me lembro dessa época de muitas descobertas e emoções fortes. Atualmente eu "me encontro" em poesias mais maduras da poetisa e percebo que, ao longo da sua produção, ela sofreu muito, se desiludiu e passou a encarar a vida com muita frustração. Tenho a impressão de que a Florbela não viveu algumas coisas que desejava, que se tolheu muito, enfim, que tinha muitos arrependimentos. Quem conhece a obra toda dela talvez perceba nas entrelinhas uma série de pequenos enganos e amarguras que divergem do que se costuma falar dela (ou que se somam ao que já se fala a respeito dela). Não sei se ela era egoísta, teria de ler esse livro para ver se concordo, mas pelas poesias dela, lidas a esmo mas também na ordem cronológica, entendo que ela não concretizou metade das coisas que queria em vida.

Beijos!

Marina disse...

Jussara, acabei de ler os comentários anteriores ao meus e vi que alguém postou "Os versos que te fiz". É uma das minhas poesias preferidas da Florbela.

APPedrosa disse...

Eu nunca fui muito de poesia, mas ultimamente ando meio poética e descobri versos ótimos que me sensibilizaram muito. Mas ainda não consegui ler um livro só de poesia.

She disse...

Ah muito legal! Também gosto de conhecer a histórias de quem são os autores, sua vida, seus trabalhos, o que inspira, suas vidas, muito bom!
Beijo, beijo!
She

Linda disse...

Eu achava que também não sabia ler poesia. Pensava bem assim como você, que não entendia onde o poeta queria chegar.
Mas aí, sei lá... Comecei a pensar que talvez o objetivo fosse exatamente esse. Nos fazer pensar,analisar,questionar...
incomodar mesmo sabe?
E se for isso, então o objetivo foi alcançado. rsrsrsr
beijão!

José Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Florbela apresentada pela "dama de roxo"... A Dal Farra s;o anda de roxo. Não sei se é fetiche... Adorei seu texto! Também, em muitos casos, a vida do poeta é mais interessante que sua poesia. Mas sem, sempre, a vida faz parte da poesia e vice versa. Os "pós-modernos" de plantão vão torcer o nariz, vou ser chamado de impressonista, mas não adiante. Não há teoria da literatura que me convença que do contrário. Ando meio cético demais e até pensando em parar de escrever no blogue: quase ninguém "comenta". Já era esperado, mas ando com muita preguiça... De qualquer jeito vou continuar esse visitador esporádico de suas linhas... tão bem traçadas! Bom feriado e final de semana juntos!
beijinho

Celia na Italia disse...

Ju
Finalmente achei alguém que tem a dificuldade com poesias, assim como eu!
Sempre acho que perdi alguma coisa importante, mas releio e não continuo meio perdida.
De qq forma não vou desistir.
Super abraço

Tati disse...

Ju
Poesia realmente é algo muito díficil e eu sou uma leitora esporádica. Li muito a Florbela Espanca quando era adolescente justamente porque me identificava com essa melancolia exarcebada dela, essa visão do mundo trágica, ou tudo ou nada. Na verdade, continuo me identificando, mas hoje sou mais realista, digamos assim. Adorei a dica do livro de cartas, vou procurar!
Você perguntou lá no blog onde achar o livro Dignidade!, eu comprei na saraiva online mesmo. Também sou doadora do MSF há muito tempo, pelo menos uma Organização que a gente pode acreditar na seriedade do trabalho né?
Beijos
Tati

Misturação - Ana Karla disse...

Estou passando pra me atualizar nessas suas dicas maravilhosas.
Xeros

Teresinha Ferreira disse...

Como sempre as suas dicas são ótimas!
Pois é, ainda bem que o público é diversificado em seus gostos.rsrs...Assim cada um tem seu espaço.
Eu não morro de amores por poesia mas curto muito.
Beijos mil

Nanda Pezzi disse...

Jussara, já ouvi falar sobre ela, uma amiga portuguesa disse que eu precisava conhecê-la, mas ainda não tive a oportunidade!
Fiquei curiosa para ler este livro, gosto de poesias, mas não sou fã! Vou ver se encontro!

Boa terça-feira para vc!

Nanda Pezzi

Inaie disse...

eu sempre me apaixono pelo autor, quero saber mais, quero me sentir mais proxima, quero dividir alguma coisa com quem divide tanto comigo...

Beth Blue disse...

Florbela Espanca! Descobri a poeta lá pelos meus vinte anos e gostava muito da poesia dela. Engraçado que eu nunca falo de poesia no meu blog mas amo alguns poetas. Entre eles: Fernando Pessoa (claro), Manuel Bandeira, Mário Quintana (que velhinho mais querido ele era), Cora Coralina...e.e.cumming! Eu sou formada em Letras mas sempre fui autodidata...li de tudo um pouco nesta vida.