domingo, 26 de agosto de 2012

Para o Julio que ama Tia Julia

Tia Julia e o escrevinhador, Mario Vargas Llosa


Há 20 dias reclamava eu por aqui a falta de ler algo bom, alguns dos meus amáveis leitores deram indicações e outros disseram está na mesma que eu e por isso ficavam com as mesmices e quando queriam “biscoito fino” iam para os velhos conhecidos de sempre.  O bom dos nossos velhos conhecidos é que eles sempre nos surpreendem. Eu adoro Vargas Llosa porque mesmo o seu pior livro ainda é melhor que uma tonelada de anjos e vampiros.
Não sei quando Tia Julia e o escrevinhador chegou as minhas mãos, acho que foi no “boom” dos autores latinos lá pelos anos 70/80, mas sei que o autor não era assim um best sellers, mas já havia lido outro livro dele  e gostado.  Esse é mais um daqueles livros que pode até não ter sido um sucesso nas listas dos mais vendidos, mas lá em casa foi eleito o número um do ano, provavelmente. Nunca mais havia relido, não tinha um volume - até hoje não sei de quem era o que passeou lá em casa – e não queria postar aqui sem ter relido. Essa semana eu dou de cara com ele no jornaleiro pela bagatela de R$ 10,00! Água no deserto! Pensem em alguém sedento olhando para um copo de água gelado acessível, essa sou eu. Agarrei o livro, o único que havia por ali e corri para casa. Matei a sede.
A história de Tia Julia é uma novela, sobrinho se apaixona pela tia, que não é bem tia, a tia é mais velha e divorciada e o sobrinho está na tenra idade de 18 anos. Sobrinho cursa direito, trabalha como jornalista numa rádio, sonha viver em Paris e ser escritor. Tudo isso na tradicional e calejada Lima. O escrevinhador trabalha na rádio, escreve as novelas, produz mais páginas em uma hora que o aspirante a escritor consegue em um mês de trabalho, foi importado da Bolívia para os donos da rádio se livrarem dos tubarões cubanos e é um sucesso.
Pausa para o momento cultura. Grande parte das novelas radiofônicas da América Latina (inclusive no Brasil) vinham de Cuba, eles dominavam o mercado. As primeiras novelas da televisão brasileira eram meras transposições de novelas cubanas para a TV. Não acredita? Então levanta a mão quem nunca ouviu falar do Direito de Nascer!  Se você levantou, nasceu na década de 80 e não sabe o que perdeu, o Dr. Albertinho Limonta fez suspirar sua avó e provavelmente sua mãe.
O escrevinhador um homenzinho totalmente voltado para o seu trabalho e acreditando que fazia arte não perde tempo com besteira. Suas novelas falam dos que moram nos bairros ricos e dos pobres que moram em verdadeiras favelas de latão e papelão de Lima. Sucesso em cima de sucesso e por fim ele administra 10 (dez) novelas diárias. Como escreve, dirige as gravações e algumas vezes interpreta um dos personagens acaba por confundir tudo. O doutor das novelas das 10hs da manhã, surge na novela das três como rico empresário, a mocinha tímida da novela da hora do almoço se transforma na vilã assanhada e adúltera na novela das 19hs e assim por diante até que acaba ninguém entendendo mais nada. Eu passei a fazer novela no fim da década de 80 e as fiz por mais de 20 anos, as novelas em geral têm 160 capítulos, mas cheguei a fazer novela com 240 capítulos! Cada capítulo tem por volta de 25 a 30 páginas, 6 capítulos por semana, façam as contas. Eu lia cada página, por isso tenho o maior carinho pelo escrevinhador. Entendo perfeitamente ele ter surtado!
O melhor do livro está na estrutura um capítulo conta a história da Tia Julia e do escrevinhador, o outro é um capítulo de uma das novelas, após os primeiros capítulos (ótimos!) a gente começa a estranhar e achar que houve erro de revisão ou autor se enganou. Ele se enganou mesmo! Ou melhor, não foi o autor livro, mas seu personagem o escrevinhador, delícia! Mario confessa no prólogo, escrito em 1999, que: “O melodrama foi uma das minhas fraquezas precoces, alimentada pelos dilacerantes filmes mexicanos dos anos 50, e o tema deste romance me permitiu assumir isso, sem escrúpulos.” Ah, ele assumiu mesmo!  Os capítulos das novelas permitiram todo tipo de tragédia, pieguice e reviravoltas mirabolantes.
Para o Julio que ama Tia Julia. Quando criei o blog, entre outras razões foi para guardar as memórias que os livros me traziam, minha família, como vocês sabem, de leitores compulsivos, praticamente cada um fez uma lista dos livros que eu deveria falar por aqui! É uma lista informal, não escrita, mas sempre falada. Sou cobrada sutilmente, “olha essa semana reli tal livro”, “nossa que saudades eu tive de tal autor”, “você ainda me deve uma resenha de tal história” e por aí vai. O Julio ama livros tanto que se tornou editor e é o mais cara de pau, “quando vem Tia Julia?”, “você não esqueceu da Tia Julia?” ou “fala da Tia Julia”.  Como expliquei acima, e outras vezes, sempre releio os livros que resenho por aqui, como só consegui reler agora...  Foi dele o primeiro comentário nesse blog. Julio obrigado pelo incentivo e por me fazer reler Tia Julia.
“A arte e o bolso são inimigos mortais, como os porcos e as margaridas.” Pedro Camacho (o escrevinhador)
SOBRE O AUTOR
Mario Vargas Llosa (1936- ) -  Escritor, jornalista e  ensaísta  peruano, laureado com o Nobel de Literatura de 2010. Publicou Tia Julia e o escrevinhador em 1977. A última edição brasileira, de 2010 e com nova tradução, é uma edição de bolso da Editora Objetiva.
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*Mario Vargas Llosa se separou de Julia após oito anos de casamento e de ter morado em Paris. Casou-se a seguir com Patrícia sua prima-irmã e sobrinha de Julia, com quem teve três filhos e vive até hoje.
*Julia Urquidi Illanes (tia Julia) faleceu em 2010 antes do anúncio do Nobel de Literatura.

21 comentários:

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Jussara
Passo, especialmente, pra te agradecer o carinho no comentário no Blog da Lúcia Soares...
Tem festa no Blog pra VC...
Deus te cubra de bênçãos e e te faça feliz!!!
Bjs festivos de paz

Luana disse...

Nunca li nada dele! Shame on me!

E concordo com voce... Tem coisa que eh taaaaao melhor que um bando de anjos e vampiros...

Regina Rozenbaum disse...

Ah que lembrei de minha mãezinha com a referência que vc fez ao Direito de nascer e o galã. Júlio deve ter gostado imenso dessa resenha, né? Eu adorei...só pra variar.
Beijuuss, Ju, n.a.

Pandora disse...

Eu acho que vou adorar esse livro, só isso tenho a dizer, agora vou atrás dele!!! Na estante virtual e derivativos, o céu é o limite néh?! huashuahs

Julio disse...

Glória, glória, aleluia!
Glória, glória, aleluuuuuuia!
Até que enfim, Tia Julia. Só não acho o Mario Vargas Llosa o melhor contador de histórias que eu conheço porque o Érico Veríssimo vem galopando o seu baio na na frente, tchê! Só uma bronca: você não devia ter contado a estrutura do livro. Uma das grandes graças desse livro é o leitor só começar a entender o que está acontecendo, lá pro quarto ou quinto capítulo. De qualquer forma, esse é um dos livros que marcou minha vida. Não sei se pelo romantismo do garoto, se pela história de amor impossível ou se pela enorme imaginação do Pedro Camacho, só sei que sou apaixonado pela Tia Julia até hoje. (Ou seja, meu amor durou mais que o do Mario...)Uma notinha: o meu exemplar é aquele, que rodou nossa casa durante muito tempo. Não lembro se quem o comprou fui eu ou você ou outra pessoa. Só sei que está comigo desde aquela época e não dou, não vendo, não empresto. Ele me acompanha desde a adolescência, foi comigo no meu primeiro casamento, foi embora comigo na separação, me acompanhou no segundo casamento e está comigo até hoje. Resumindo: é a minha relação mais duradoura... hehehe.
Agora que você falou do meu livro predileto, achou que ia se ver livre das cobranças, certo? Errou! Estou começando uma nova campanha pro meu segundo livro latino-americano preferido: quando você vai falar de "O amor nos tempos do cólera"????? Não adianta, eu sou um romântico... e pelo jeito o Gabriel e o Mario também, então estou em boa companhia... bjs e obrigado pela lembrança.

Lúcia Soares disse...

Jussara, já está na minha lista. Adorei o comentário do seu irmão, adoro essa intimidade de vocês.
Anotei Gabriel tb. Obrigada.
Beijo!

navirj disse...

Nunca li nada dele. Este, pela sua resenha, parece ser mesmo uma delícia.
Beijos, Nadia

navirj disse...

Ah, respondi seu comentário lá no meu blog. Obrigada pela visita.
Beijos, Nadia

Celia na Italia disse...

Ju
Passo por aqui para dar um oi, aprender um pouco mais sobre autores e suas obras e te deixar um super abraço.
É sempre bom estar perto de pessoas especiais!

Luma Rosa disse...

Que teia essa blogosfera!! Eu achando que estava sentada na sua sala e estou sentada na sua cozinha? O Júlio é seu irmão, a Macá é sua cunhada... ou entendi errado?
Gosto da forma informal que usa para falar dos livros. Não é técnico e você sente o envolvimento emocional que o livro trouxe para dentro de você e da sua família. Não meramente um livro.
As editoras pagam muitos blogueiros para resenhar e sentimos que o blogueiro não lê o livro, pois as resenhas são enviadas prontas. Isso é muito chato! Como leitor, ao pesquisar sobre um determinado livro e lê o mesmo texto replicado em vários locais, me sinto usada pela indústria editorial. Mesmo quando é blogueiro amigo, não tenho incentivo de comentar sobre o livro.
Não sabia das influências das novelas cubanas nas novelas radiofônicas da América Latina. Albertinho Limonta ainda passeia pelas novelas. Dizem até que é uma maldição!! A síndrome do filho bastardo, filhos procurando por pais e mães ou para os novelistas; os filhos perdidos na audiência.
Fiquei com vontade de reler "Tia Julia e o escrevinhador", tenho ele aqui. Só preciso adiantá-lo na fila (rs*) e me organizar, pois... "Os filhos e a literatura são incompatíveis.” (p. 113).
Boa semana!! Beijus,

Nanda Pezzi disse...

Jussara, nunca li nada deste autor, e fiquei curiosa para conhecê-lo mais!

Obrigada por compartilhar!

Beijos, ótima quarta!

nandapezzi.blogspot.com

Teresinha Ferreira disse...

Olá Jussara,
Adorei a resenha e quer saber? Amanhã mesmo vou a procura dele pelos cantos aqui de Vitória.
Obrigada pelo carinho.
Bons fluidos.

Morgan Nascimento disse...

Olá, parabéns pelo blog!
Se você puder visite este blog:
http://morgannascimento.blogspot.com.br/
Obrigado pela atenção

silvioafonso disse...

.



Seria tão gostoso encontrar você
no Bar do Escritor que eu sairia co-
mo um bobo falando pra todo mun-
do sobre a sua delicadeza.
Eu até pediria que voltasse lá pa-
ra conferir o que eu certamente
falaria pra você em agradecimento,
como fiz com os outros a quem cha-
mei e não deixaram de atender a
este Palhaço Poeta que, comovido,
faz graça e se bobear, chora, mas
de felicidade.

(O meu texto é o quinto de cima
para baixo com data de 23/08/12)

http://bardoescritor.blogspot.com

Um beijo e obrigado, amiga.

silvioafonso






.

Vinicius.C disse...

Olá!!

Navegando como quem chuta pedras acabei por chegar em seu blog, e que feliz surpresa! Feliz em estar aqui!

Se puder e quiser convido você a conhecer o Alma do Poeta- meu blog!

Deixo meu beijo e o desejo de uma ótima tarde!!

Beatriz Paulistana disse...

Boa noite flor!!!
Vim agradecer a sua visitinha no nosso blog: Clube Das Amigas Leitoras.
Sou uma das participantes e vim te conhecer. Que delícia saber que também ama ler.
Tenha um domingo feliz e uma semana abençoada.
Bjokas...da Bia!!!
http://pequenosgrandespensantes.blogspot.com.br/

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

eu sou FÃ do Vargas Llosa! e nem preciso dizer o qto adorei esse livro!

falando nisso, vc já ouviu a série "Mi Novela Favorita"? Que o Llosa faz uma introdução dos livros que ele mais gosta e segue uma espécie de radionovela do livro? achei mto legal.

bjs e boa semana, Jussara!

Cinderela Descaída disse...

Oi,

ando meio relapsa porque a vida vai apertando, apertando e quase não dá tempo.
Adoro Vargas Llosa e este ainda não li e me interessou muito agora que li sua resenha.
Tem também um fato interessante na vida dele, não? Pois não foi ele casado com uma tia?
Abraço!

Beriour disse...

Olá Jussara, vim retribuir a visitinha e dizer que as portas da minha humilde casinha estão sempre abertas :) Bj

Adelaide Araçai disse...

Jussara você me fez lembrar de minha infância ao perguntar da novela "Direito de Nascer" ...eu nasci em 70 mas só tive acesso a TV após os anos 80...então tem muita programação que desconheço da época...e só hoje percebi o motivo...para a mídia nasci em 80..kkkk

Já anotei este na minha lista,

Abraços

Julio disse...

Só uma pequena resposta para "Cinderela Descaída". Sim, ele foi casado com uma tia. Sim, o livro é autobiográfico mas misturado com muita invenção. Sim, ele e a tia acabaram se separando. E pra quem leu meu comentário, foi por isso que escrevi que o meu amor pela tia Julia durou mais do que o do Mario....