segunda-feira, 6 de agosto de 2012


Desassossego literário

Whitney Sherman

Meu projeto para esse segundo semestre era sair do passado. Isso mesmo, procurar autores novos, fossem brasileiros ou estrangeiros. Por mais que eu ame os séculos XVII, XVIII e XIX vamos combinar que no primeiro semestre eu tive uma overdose deles. Então me propus a procurar autores realmente novos.  Novos para mim e para a literatura, ou seja, alguém que estivesse no máximo no terceiro livro, não precisava ser um best-seller, não precisava ser premiado bastava eu ler uma resenha sobre o autor e o livro que me chamasse à atenção por alguma coisa, qualquer coisa.
Jean-François Martim
Procurem gelo no deserto, é assim que me sinto. Entrei em listas dos mais vendidos, fui a inúmeros blogs que fazem resenha, infelizmente a maioria copia a orelha do livro ou o resumo dos catálogos, por que não é possível que todo mundo escreva a mesma coisa! Crítica essa eu quase não vi, com raras exceções e em geral não me seduziu. Estou ficando bem velha mesmo, mas ninguém me seduz com autoajuda, romances com mensagens edificantes, romances “pornográficos leves”, com minhocas inteligentes que vivem no subsolo do Parque Trianon (SP), com vampiros que andam em pleno sol do Rio de Janeiro e por aí vai, escrever que é bom ninguém quer. Onde anda a prosa? Onde anda a criatividade? Onde andam os autores que nos arrebata na primeira linha? E, principalmente, onde andam os resenhistas para nos levar a esses autores? Alguém leria um livro em que a resenha, no catálogo, contém essa perola: 
(...) O partido compositivo – tão próprio aos impasses da modernidade – desenvolver nas falas mesmas a realidade social e histórica que se deposita, como sedimento, na linguagem vai, aqui, a sua potência máxima. O livro é, assim, o lugar no qual, como em ondas de linguagem, essas vozes todas, múrmuras ou veementes, vêm quebrar. O rumor que então se levanta, engrossado do eco de tantas falas, emanadas de tantas vidas, faz sua atmosfera e clama aos céus por um sentido. (...)
Jessie Willcox Smith
Pois é, nem eu. A conclusão que chego é: estou ficando velha, pois estou apegada a autores do passado e em algum momento eu perdi alguma coisa que não me permite ler linguagem cifrada. Ao correr por aí atrás de um autor, cheguei a conclusão que também são raros os bons editores, pois está todo mundo na onda do fantástico, da autoajuda, de romances com mensagens e folhetins para serem lidos e esquecidos. Ninguém mais ousa, ninguém mais aposta. Guimarães Rosa, Jack Kerouac, Dostoievski e tantos outros não encontrariam editores hoje, triste isso!
Leitores que aqui vem, pois também são leitores, podem me indicar um autor que valha a pena?  Sei que é um pouquinho de preconceito, mas eu apreciaria melhor a indicação se não tivesse, magos, bruxas, lobisomens e outros seres fantásticos.  Gosto de histórias fantásticas, mas já li o suficiente na minha vida para perceber quando se está requentando mitologia velha com nova roupagem. Mais um pouquinho de preconceito, não estou, no momento, a fim de ler nada com final edificante e nem que subestime minha inteligência, gosto de pensar por mim mesma e chegar as minhas próprias conclusões.  Vocês podem me ajudar?


Cena de Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino) 2009

Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos. H. L. Mencken


21 comentários:

Lúcia Soares disse...

Jussara, ultimamente reli Gabriela, Cravo e Canela (amei! gostei mais do que na primeira leitura, por isso ando de implicância - maior - com a Globo, que deu vida aos personagens de Jorge Amado e criou sua própria história); li "Um dia", best seller americano, que virou filme (não vi,ainda) uma linda história de amor, de David Nicholls; tento, há mais de um ano (!) ler "Operação Cavalo de Tróia", de J.J. Benitez, mas não dou conta de acabar; Li "O arroz de Palma", (esqueci o autor!) um dos mais lindos livros que já li; estou no final de "O segredo da bastarda", de Cristina Norton, uma história linda, que se passa no fim do séc.XVIII, na Portugal de D. João VI e Carlota Joaquina, bom demais!; e me caiu nas mãos "A casa dos budas ditosos", do João Ubaldo Ribeiro, que me confundiu mas não consegui parar de ler, erótico, engraçado, instigante. Li, tb, "A convidada", da Beauvoir, que detestei, até fiz post, não achei nada interessante nele. Tirando este último, os outros recomendo muito.
Beijo!

Pandora disse...

Jussara nesse fim de semana eu estava comentando com meu irmão uma passagem de um livro de Gaiman e Pratchett "Belas Maldições", apesar dos autores fazerem uma tiração de onda com Apocalipse que ficou tensa para mim, tem uma passagem na qual o Cavaleiro do Apocalipse Fome reflete sobre essas comidas fast food, uma de suas maiores invenções, um tipo de não-comida que paradoxalmente faz as pessoas morrerem gordas e com fome.

Ultimamente eu tenho me sentindo assim no terreno da literatura, não que eu não goste de uma boa não-literatura gordurosa e adocicada, mas acho que tenho lido tanto disso que perigo morrer gorda e com fome. (Acho que isso foi meio dramático, em outra encarnação eu fui shakespeariana ou mexicana com certeza rsrs)

Enfim, lembrei de Nebulosidade Variável de Carmen Martín Gaite, da italiana Natalia Ginzburg e de Luzilá Gonçalves Ferreira, mas acho que elas não são novatas para a literatura, talvez sejam apenas para mim.

Acho que esse post vai ser um daqueles que vou acompanhar os comentários...

Inaie disse...

adorei a "orelha"que vc colocou no post! hhhiihihihihi deve ser do time adversário, tenho ceretza.

Estou tentando encontrar dois livros aqui no Vietnam - um sobre uma médica que se enfiou nos túneis de Ho Chi Minh e passou 20 anos lá dentro, lutando contra os americanos. O outro, sobre um americano que foi deixado aqui e conta hist';orias da guerra sob um prisma diferente.
Se eu conseguir compra-los, leio e depois mando prá vc. interessa?

Luma Rosa disse...

Tenho a mania de pegar um autor e ler tudo dele. É o que estou fazendo com Colum McCann. Não gostei do primeiro livro que li "O Bailarino", mas como tinha comprado 3 livros do mesmo autor, prossegui. Ele tem a fama de escrever literatura para homens e em suas palestras diz que a literatura a muito deixou de ser passatempo para senhoras ou para homens afetados. Constatei que ele tem uma queda por personagens marginais. A surpresa foi com "Zoli" que é sobre ciganos do leste europeu. O próximo será "Deixe o grande mundo girar" em que ele pega o artista Philippe Petit e o transforma em personagem.
Infelizmente tenho que concordar com o que escreveu. Acho que estou ficando velha também. Odeio essa onda vampiresca que contaminou a literatura, o cinema... Ah, estou esperando chegar ao Brasil 1Q84, de Haruki Murakami.
Nessa hora da manhã, são esses dois autores que lhe indico. Beijus,

José Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Meu bem a coisa está mais negra do que parece. O parágrafo que você destaca não diz ABSOLUTAMENTE NADA!!! E isso é o que impera no "mercado" e, pasme, na universidade. Penso que a tal de globalização foi muito mal digerida pelo campo literário na terra brasilis. Um autor de Juiz de Fora de que gosto é o Embla Rhodes (que passeia com galhardia e tutano pelas sendas do romance policial, sem xageros). Na poesia, o grupo de Mariana, do Aldravbismo tem produzido tanto poemas quanto até, textos em prosa de prazer indiscutível e com consistência. Estou me sentindo como você, um dinossauro...

Deusa disse...

So vim para dizer que saber que uma linha minha lida por você me faz ficar tão orgulhosa que você nem imagina,porque sei que escrevo errado,uso palavras simples demais e falo com o coração,e mesmo assim alguem que le tantos livros maravilhosos ainda assim me da essa honra.
Obrigada amiga,sua opinião e um presente.
bjs

Deusimar

Deusa disse...

So vim para dizer que saber que uma linha minha lida por você me faz ficar tão orgulhosa que você nem imagina,porque sei que escrevo errado,uso palavras simples demais e falo com o coração,e mesmo assim alguem que le tantos livros maravilhosos ainda assim me da essa honra.
Obrigada amiga,sua opinião e um presente.
bjs

Deusimar

Adelaide Araçai disse...

Não sei se rio ou choro...rsrs Pois eu estou numa fase de acompanhar minha filha adolescente eu compro ela lê eu leio, alguns consigo emprestado, ou troco e só eu leio...não importa o estilo..

Mas li tanto portugues errado (tradução) que quando li "Leite Derramado" do Chico Buarque fiquei em extase em ver nossa lingua tão bem escrita...rsrs Mantenho ele em minha estante, sabe como socorro para um momento de overdose de erros... assim ele sai para visitar pessoas (por emprestimo) e volta ao meu encontro e eu sei que tenho ao menos 1 bem escrito....rsrs
Li:
- Um Bom trico - e fiquei com desejo de montar um armarinho (ou seja o livro é bom...não é ótimo mas bom, conseguiu envolver.

Li "Adeus China" e gostei muito.

De resto estou lendo um por semana, leio tudo vampiro, suspense, sexo, drogas, auto-ajuda, psicografia

Mas que eu possa recomendar a você com a certeza que vá realmente gostar....está bem dificil imaginar. Tem alguns que demoro a semana toda para ler dada a dispersão que me acomete durante a tal leitura...consigo me concentrar em tudo menos no livro...rsrs E são livros que quando gosto leio em poucas horas.

Julio disse...

Oi Ju. Mas você chegou a ler o "Gota de Sangue" do Fábio? Não é pra puxar a sardinha pra nossa brasinha não, mas é o melhor livro que eu li nos últimos tempos. Uma história bem escrita, que me prendeu legal do começo ao fim. O defeito? Talvez seja "paulistana" demais pelo fato de se passar toda no centro de SP. Mas já li tantos livros que se passam em Londres e nunca coloquei os pés lá.....

Cissa Branco disse...

Ju,

Acho que a grande vantagem de ler tudo o que cai na minha mão me faz menos exigente. Cansei de pegar obrar como A menina que roubava livros que todo mundo ama e achar "... bom..." mais nada, não tenho encontrado nada arrebatador, encontro histórias legais, diferentes, fáceis de ler, que te relaxam, mas daqueles que te derrubam, faz tempo que não encontro. Li esses dias, Olhai os lírios do campo, pela milésima vez, e fiquei chorando por qualquer coisa depois. não leio livro de autoajuda, mas no começo do ano ganhei "O Pão da amizade", li e achei bem bacana, apenas bacana. E assim vou indo, prefiro pegar um romance de banca e me esbaldar em todo o clichê que cair nessas ciladas de marketing que dão nova roupagem aos mesmo clichês. Quando eu quero inspiração, vou ler Anna Karenina, O Velho e o Mar, Cem anos de solidão e volto ao normal, caso contrário, fico me empanturrando com vampiros, dom, e tudo o que a mídia apresenta, desde que seja light, porque estou numa fase que me nego a sofrer com literatura, leio muita obra específica e isso me deixa deprimida e revoltada. Comecei a ler o Manifesto Comunista em italiano já que é uma obra que domino bem e teria facilidade para ler em outro idioma e quando vi estava fazendo discurso pela casa, chamava marido e filho para mostrar o quanto é belo o texto, piro geral, então preciso de obras que me alienem, rs. Beijos

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

acho o máximo qdo vc parte para novas descobertas. pq sempre "sobra pra gente", rs, vc apresenta muita coisa bem interessante, legal, que a gente não teria chances de conhecer. e pedindo um help para os universitários: mais dicas, mais livros bons.

já leu Haruki Murakami? faz o maior sucesso aqui, gosto do estilo do autor. quem sabe vc curte?
bjs e bom dia!

Marina disse...

Ai, Jussara, que ótimo essa postagem sua!!! Tenho um amigfo que é excelente escritor e que lançou um romance por uma editora pequena aqui de Curitiba. O nome dele é Felipe Leprevost e o livro se chama "E se contorce igual a um dragãozinho ferido", editora Arte & Letra. Eu leio boa lietratura e gostei de verdade do livro. É o primeiro romance dele, mas ele já escreve poesia e é um diretor de teatro conhecido por aqui que aos poucos vai se tornando conhecido na cena nacional. Na verdade ele faz de tudo e muito bem. Não é puxação de saco gratuita, eu não indicaria o livro se não tivesse gostado. O livro conta a estória de um homem jovem que sai de Curitiba para tentar a vida no Rio de Janeiro. Lá ele conhece uma atriz com quem desenvolverá uma relação super instável, passional, cheia de altos e baixos. Preso em sua própria genialidade e incosntância e tentando fazer algo de prático com ela (como trabalhar e pagar as contas) o personagem principal passa por uma crise existencial e tenta encontrar uma forma de usar suas aptidões intelectuais num mundo que é prático e pragmático, tão pouco acolhedor. O cenário é toda a cidade do Rio de Janeiro com seus recantos boêmios, as cafeterias-livrarias, etc. e depois uma Curitiba gélida que soa para o personagem como um porto seguro. Anos depois esse casal se reencontra. A narrativa alterna os dois momentos, intercalando trechos da estória que se passa no Rio e em Curitiba. Eu geralmente não gosto desse recurso, mas ele funcionou bem no livro dele. Bom, essa resenha é minha e não tewm nada a ver com a que está na orelha do livro.

Se tiver interesse, o livro é vendido em algumas livrarias pela net afora... é meio difícil de encontrar porque a editora é pequena (embora só publique livros exceçlentes)coisa e tal, mas vale a pena. Numa busca rápida na net eu achei pra vender aqui:
http://www.estronho.com.br/livraria/product.php?id_product=74
Suponho que deva ter em outros lugares também, mas esse foi o primeiro resultado.

Se chegar a ler esse livro depois me fala o que achou. Abraço!

Marina disse...

Jussara, enviei meu comentário sem revisar e está cheio de errinhos... Ai.. (vergonha)

Cleci disse...

Boa tarde JUssara: estamos numa maré baixa, mas alguns acham que e melhor literatura ruim do que nenhuma. Ainda tenho minhas duvidas ...
Seus comentários seguem inspirados e inspiradores.
Abraços Cleci, Morro Reuters, RS

Carlos Medeiros disse...

Olá. Não sei se você já leu, mas adorei o "Trem Noturno para Lisboa", de Pascal Mercier. Um livro pra ser lido devagar, de modo que possa ser saboreado aos poucos. Talvez eu tenha gostado dele por ter algo de comum a minha personalidade. Abraços.

Nanda Pezzi disse...

Jussara, leio muito, mas acredito que não posso te ajudar!

Beijos, boa tarde!

nandapezzi.blogspot.com

Regina Rozenbaum disse...

A ajuda veio rapidim...eu não ouso, não mesmo, a sugerir leituras procê. Tô doida assim naummmm...ainda não!rsrsrs
Beijuuss de boa sorte n.a.

Lufe disse...

Oi Jussara,

Lendo seu post me veio um questionamento. Será que é por isso que não ando lendo nada ultimamente?
As editoras parecem ter adquirido o procedimento absurdo da industria fonografica. Pegam uma mesmice, que por algum motivo vira sucesso de vendas e daí em diante todas copiam e nos privam da criatividade de novos autores.
Tive a sorte de ser contemplado outro dia num concurso para escolha do nome de um livro a ser lançado pela Digitexto e como premio eu escolhi o "Gotas de Sangue" do Fabio Brazil. Que grata surpresa! Como disse o Julio em seu comentario aí em cima, é um livro que nos prende pela trama, pelo cenario e pela qualidade da escrita.Sinceramente não me lembro de nada para te sugerir, pois como voce bem transcreveu aquela "orelha", estes novos livros não nos dizem nada, e ainda pecam pela apresentação. Uma resenha dessas nos espanta e nos faz refugá-lo.

Um bejo e muita sorte na sua busca.
Se descobrir algum, por favor nos avise....rs

bjo procê

Augusto Sperchi disse...

Olá Jussara! Gostei de seu passeio em meu blog e de seu comentário. Também vim conhecer o seu espaço e percebi que possui um hábito, dos mais saudáveis, que é a leitura compussiva. Também sou assim. Sua lista é como a minha, está sempre aumentando. No momento, estou lendo Civilização e pecado, de Konrad Lorens. É uma crítica fantástica dos oito erros do homem atual. Vai aí uma dica. Um grande abraço e volte sempre.

Misturação - Ana Karla disse...

Ju, esse título do post está demais.
Nem sei se posso te indicar algo, pois sou uma leitora fajuta, leio pouco.
Eu que venho buscar inspiração e indicações aqui com você...imagina se eu tenho competência pra indicação!!!
Xeros

Beth Blue disse...

Dicas de novos autores? Tenho muitas, só que a maioria li em inglês (ou holandês). Nos últimos anos o que mais tenho lido são debuts literários e novos autores, além de nomes consagrados da literatura inglesa e americana...eu simplesmente não sei que dicas dar mas me veio à cabeça Ian McEwan, jâ leu?

Se tiver tempo e paciência, passa no meu blog e olha o marcador livros...eu tenho lido um bocado e tento comentar sobre minhas leituras quando dá...beijos