segunda-feira, 16 de julho de 2012

Quem conta um conto aumenta um ponto


 Todo mundo sabe que adoro ler, mas também adoro falar. Sou daquelas que fala na fila do banco, na sala de espera de médico e dentro do ônibus, nunca me arrependi, pois quase sempre ouvi histórias de vida muito interessantes.  Contar histórias faz parte da humanidade desde tempos imemoriais, só assim passamos para frente nossa história pessoal, de família, de nosso povo e nossas tradições.  A necessidade de contar história nunca muda, a forma como as contamos pode mudar, o que mais fazemos em nossos blogs?  Como gosto de ouvir histórias e de contá-las, tenho a maior admiração por contadores de história, existem muitos por aí, alguns até na sua família, outros são profissionais. Contadores de histórias se deliciem com esse,


O CREDO DO CONTADOR DE HISTÓRIAS

 Creio no contador, como memória viva do amor e creio em seu filho, e no filho de seu filho, e no filho de seu filho, porque eles são a estirpe da voz, os criadores da terra e do céu das vozes: voz das vozes. Creio no contador, concebido nos espelhos da água, nascido humilde, tantas vezes negado, tantas vezes crucificado, porém nunca morto, nunca sepultado, porque sempre ressuscitou dos vivos congregando-os a ser: xamã, fabulista, contador de histórias... Creio na magia que na entrada das cavernas acendeu o primeiro fogo que reuniu como estrelas: o assombro, o tremor, a fé. Creio no contador, que desde os tempos tribais a todos antecedeu para alcançar-nos por que é. Creio em suas mentiras fabulosas que escondem fabulosas certezas, no prodígio de sua invenção que vaticina realidades insuspeitas, e também creio na fantasia das verdades e nas verdades da fantasia, por isso creio nas sete léguas das botas, na serpente que antes foi inofensiva galinha, e no gato único no mundo, aquele gato que ao miar lançava moedas de ouro pela boca. Creio nos contos de minha mãe, como minha mãe acreditou nos contos de minha avó, como minha avó acreditou nos contos de minha bisavó e recordo a voz que me contava para afastar a enfermidade e o medo, a voz que recordava os conselhos entesourados pela mãe para passá-los ao filho;
 — Não te desvies do teu caminho.
 — Nunca faças de noite o que possas te envergonhar pela manhã. Creio no direito da criança escutar contos; e mais, creio no direito das crianças vivas dentro dos adultos de voltar a escutar os contos que povoaram sua infância; e mais, creio nos direitos dos adultos desde sempre e para sempre de escutar contos, outros novos contos. Creio no gesto que conta, porque em sua mão desnuda, despojadamente desnuda, está o coelho. Creio no tambor que redobra, porque o que haveria sido do mundo se não tivesse sido inventado o tambor, se a poesia não reinventasse o mundo dentro de nós, se o conto, ao improvisar o mundo, não o reordenasse, se o teatro não desvelasse a cerimônia secreta das máscaras e por isso... Por que creio, narro oralmente. Creio que contar é defender a pureza, defender a sabedoria da ingenuidade, defender a força da indagação. Creio que contar é compartilhar a confiança, compartilhar a simplicidade como transparência da profundidade, compartilhar a linguagem comum da beleza. Creio que contar É UMA FORMA DE AMOR!

 Garzón Céspedes

SOBRE O AUTOR
Francisco Garzón Céspede (1947- ) – escritor, jornalista e contador de história cubano,  é considerado o melhor contador de história do mundo ou pelo menos é o mais famoso, é um teórico dessa especialidade, tendo adaptado esse formato para teatro e outros espaços. Já publicou mais de 35 livros sobre o como e o porquê de se contar histórias.
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*Só curiosidade: o Dia Internacional do Contador de História é 20 de março e se comemora principalmente na Europa.

18 comentários:

Regina Rozenbaum disse...

Sim sim...é um ato de amor! Enquanto falamos, contamos e recontamos nossas histórias, elaboramos, né? Já disse Senhor Freud com sua descoberta através da "interpretação"; por meio de associações de palavras, curou muita gente. Fiz uma disciplina na minha pós exatamente com contadores de história e pude aplicar essa técnica, principalmente, com pacientes internados num hospital geral. É bem bacana e funciona!
Beijuuss Ju n.a.

Pandora disse...

Eu também creio que contar é uma forma de amor e nós o que mais fazemos em nossos blogs é contar histórias. Seres humanos são assim, faladores por vocação e é lindo.

Também converso muito, com qualquer um que esteja afim de conversar, gosto muto de contar e ouvir histórias, sou humana oras!!!

Amei esse texto Jussara, é impossível não amar, eu acho!!!

Beth/Lilás disse...

Ih, Jussara, sou que nem você, também gosto de conversar em salas de espera ou fila de alguma coisa, acho que faz parte da nossa espécie feminina.
Eu acho essa coisa de contar as histórias de um povo, coisa de indíos, de povos antigos, simplesmente sensacional, pois sobrevivem aos séculos e solidificam a origem dos povos.
um super abraço, carioca

Lufe disse...

Oi Jussara,

Muito legal este texto.
Quem gosta de gente e gosta de conversar se torna naturalmente um contador de historias.
Se estas historias falam de nós mesmos, elas se tornam um bom instrumento de elaboração, como bem lembrou a Regina.

bjo procê

Lúcia Soares disse...

Jussara, acho que seria uma boa contadora de histórias, exercito com meus netos, me empolgo mesmo! rsrs
As histórias, passadas de boca em boca têm que ser registradas, sim, porque realmente quem conta um conto aumenta um ponto e elas vão se engrossando, volteando, e é um perigo a original se perder.
Histórias passadas de geração a geração são mágicas da imaginação.
Beijo!

Nanda Pezzi disse...

Adorei... ;)

Beijos

nandapezzi.blogspot.com

Nanda Pezzi disse...

Jussara, vim te desejar uma ótima tarde!

Beijos

nandapezzi.blogspot.com

Misturação - Ana Karla disse...

Jussara, penso assim também, que todas as pessoas são contadoras de histórias mentirosas ou verdadeiras.
Mas a arte de contar uma história é simplesmente maravilhosa.
E viva o amor.
Xeros

Linda disse...

Que legal isso!
Lindo, lindo!
Eu nem sabia que existia dia do contador de histórias.
Acredito que pessoas que vivem apressadas e que fazem de tudo uma correria e um estresse perdem muito da vida.
As melhores histórias de vida que ouvi e as melhores pessoas que conheço hoje eu conheci assim, dando atenção a um murmúrio aguardando o sinal abrir, na banca de frutas da feira, na fila do banco...
Ali estão as pessoas que vivem, que observam a vida e o seu ritmo.
Um abraço!

José Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Que delícia de postagem!
Parabéns!
Também me considero picado pela mosca da leitura!
Abraço

Afrodite Deusa do Amor. disse...

Eu adorei seu blog parabéns beijos.

APPedrosa disse...

Adorei! Contar (e se contar) é uma delícia e um alívio. beijo

Afrodite Deusa do Amor. disse...

Boa noite,obrigada pela visita beijos.

Luma Rosa disse...

Gosto muito!! De conversar e de contar histórias! Esse exercício aprendi em Minas, Estado que nasci. Lá, a maioria gosta de uma prosa. Chega um, chega outro e daqui a pouco está formada uma roda. Primeiro fica-se a par dos últimos acontecimentos da cidade: quem morreu, quem casou, quem separou, quem pulou a cerca... depois quem quebrou, quem enricou... tudo isso é preâmbulo para uma boa história, um aquecimento - Pode ser uma lembrança, um feito e a prosa sempre acaba com uma dúvida... afinal, a história nem era bem assim.
Bom fim de semana!! Beijus,

Adelaide Araçai disse...

Ah! mas eu também falo pelos cotovelos e também adoro ouvir. Nestas férias fomos a Maceió, e no domingo caminhando pela beira mar, paramos em uma apresentação da banda da policia militar, e é claro que eu eu comecei a conversar com um senhor, e ficamos 2h de papo, fui apresentada a 5 pessoas e conheci um pouco da vida de cada um... Adoro esse tipo de interação.

Muita Luz e Paz

Abraços

Nanda Pezzi disse...

Jussara, passando para te desejar um ótimo final de semana!

beijos

nandapezzi.blogspot.com

O Guri disse...

Achei muito bonita parte que ele fala do direito que as crianças tem de ouvir contos. Deveria ser um direito previsto em lei, né?

Mundo da Lu Roque disse...

Muito legal, adorei. Na verdade adoro histórias, perco ou melhor ganho horas se possível ouvindo uma boa história, não é por acaso que o nosso livro se chama Um rio de histórias rsrs, ouvi muita coisa durante as viagens de pesquisa e não poderia ser outro nome. Um abração.