segunda-feira, 30 de julho de 2012

Proseando


Chapadão do Bugre, Mário Palmério



- Quer baldear agora, ou dilata um tico pro café?
E antes que o outro resolvesse:
- Vigia a mulher já na cozinha. Fogo de sabugo esquenta de vereda...

O café chega, a prosa está boa e o livro é uma delícia.  Delícia de prosa, porque a história é uma tragédia só. Tragédia muito comum no interior do Brasil; um bom rapaz, trabalhador, honesto e ingênuo se apaixona por uma menina simples, da sua mesma classe social e apadrinhada por um poderoso do lugar. O moço respeita a donzela e pensa em casar, todo mundo faz muito gosto, mas...  Um dia o destino bate à porta, nosso dentista (o rapaz) sai em viagem, sobe a serra com sua mula e vai dando uma saudade, um aperto no coração e decidi voltar para se despedir melhor, dar uma espiadinha em sua amada, chegando ao sítio da donzela encontra a boa moça, recatada e simples nos braços do filho do coronel do lugar no maior rala e rola, só aí ele entende o porquê de todo mundo, incluindo aqui o poderoso padrinho da moça, faz tanto gosto no casamento... cena de sangue... e o filho do poderoso coronel jaz morto, a mocinha foge e o bom moço empreende a fuga. Dito assim parece bem simplinho, mas não é. A descrição dos lugares, os pensamentos do moço e as forças poderosas que estão por toda parte deixam uma trilha de tensão fantástica, tudo naquela prosa bem mineira que empolga e delicia.
O livro é dramático, cruel, violento e não faz concessão. A vingança toma vulto, sangue se lava com sangue, todo mundo toma partido, os inimigos do pai aproveitam o momento frágil pra tirá-lo da política, os amigos tomam o partido e saem à caça, sangue e mais sangue derramado clamando por vingança. Todo grotão do país conhece uma história assim, no mais das vezes histórias reais, como essa. Chapadão do Bugre foi inspirado numa história real do começo do século XX acontecida no Norte de Minas. Mário Palmério, um educador do triângulo mineiro, que começou na literatura um tanto tarde, após os 40 anos, conhecia a história e resolveu contá-la ao seu jeito ou, melhor, ao jeito mineiro.  Ele é um dos grandes autores mineiros e justamente ocupou a cadeira de Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras.
Chapadão o Bugre é daqueles livros que quando você pega não larga mais, a prosa vai te envolvendo, envolvendo e até a mula tem voz no romance, começa com um cafezinho e termina com banho de sangue e se torna daqueles livros que volta e meia você relê só pelo prazer da prosa, pois ele é todo em um tom de conversa entre compadres, inesquecível!
Este post é uma homenagem aos meus amigos mineiros Lufe, Regina e Foureaux sempre uma boa prosa.

"O destino, como os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho." Machado de Assis

SOBRE O AUTOR

Mário de Ascenção Palmério (1916 -1996)  -  professor, educador, político e romancista mineiro, publicou Chapadão do Bugre em 1965 com enorme sucesso. Atualmente publicado pela Editora José Olympio.

15 comentários:

Lufe disse...

Jussara,
Que coincidencia.
Estou publicando agora outro capitulo das minhas ruminâncias e cheguei a Uberaba, onde Mario Palmerio imperava. Ele era o reitor da minha faculdade e tinha acabado de retornar de seu retiro voluntario no amazonas onde morou por anos em um barco.
Ele já havia a esta epoca sido embaixador do Brasil no Paraguai. sendo inclusive autor de algumas guaranias, como "Saudade"
Conheci-o pessoalmente e tenho lembranças memoraveis dele. Boemio,mulherengo, boa praça,bom de copo, excelente contador de historias. Um tipo inesquecivel!

Agradeço a homenagem, principalmente com a obra de um homem que marcou profundamente a minha vida.

bjos procê

Cissa Branco disse...

Ju,

Que delícia, e lendo o comentário do Lufe deu mais vontade ainda de ler, tornou o autor, para mim sempre um ser inalcançável, uma pessoa comum, porém especial na sua maneira. Vou "catar". Claro que como uma pessoa antenada no mundo literário comercial estou lendo o tão polêmico "50 tons de cinza", mas estou sofrendo viu?! O autora que escreve mal.
Grandes beijos e ótima semana

Regina Rozenbaum disse...

Ah que adorei essa homenagem! De proseamento sabe ocê o tanto que nóis, mineirinhos, apreciamu... e se for perto de um fogão de lenha, cafezim coado na hora, broa de fubá mais pão de queijo saído do forno então?! Nem carece ser cumpadre...só amigo dus bauumm sÔ! Quando é que vem pra cá Ju?!
Beijuuss,amada, n.a.

Nanda Pezzi disse...

Jussara, fiquei curiosa para conhecer mais do autor!
Não conhecia, adoro uma boa prosa... e se o livro é uma delicia melhor ainda!

Abraços e uma ótima tarde!

nandapezzi.blogspot.com

Carlos Medeiros disse...

Li esse livro quando rapaz, e adorei. Uma delícia mesmo. Vale a pena reler. Abraços.

Rogério Pereira disse...

Divulgando (e bem) autores que não chegam até cá... o pior é estou feito ilha, que é pedaço de gente cercada de livros por todos os lados. Livros não lidos, apesar de comprados... :))

Beth/Lilás disse...

Hummm, Jussara, parece mesmo muito bom este livro!
Lembrou-me o último do Mia Couto que li e tinha esse tipo de personagens fantásticos. adoro esta literatura!
Tô de férias em Cabo Frio, mas não dá pra desgrudar os olhos das minhas amigas virtuais.
beijocas cariocas

Nanda Pezzi disse...

Jussara, vim desejar a vc uma ótima tarde de quarta!!!

Beijos

nandapezzi.blogspot.com

Kinha disse...

Relmente, todo interior tem uma histórinha parecida. No nordeste então, nem se fala!

José Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Delícia de postagem... Li o romance já faz um tempinho e sempre penso em reler... Obrigado pela "referência" e pela "deferência"... Minha vaidade agradece!
beijinho
;-)

Teresinha Ferreira disse...

Olá Jussara,
Obrigada pela presença no meu blog. Pois é, estou de volta a realidade. rsrs...
Quantas coisas belas pude ver pela Europa afora. Ah!!! Sei que o Brasil é um país lindíssimo, mas falta tantas coisas básicas que poderiam ser implantadas por aqui.
Mas... Viver e ser feliz em qualquer lugar, né?
Bons fluidos.

Wilqui Dias disse...

Vim lhe agradecer pelos desejos de boa viagem, foi tudo muito bom e agora estamos de volta. obg mesmo!!

Cinderela Descaída disse...

Adorei a dica de leitura. Mais um para a pilha...Bjs,

Cristiano disse...

Boa indicacao contrapondo a que eu estou lendo... preciso mudar de livro, pois o que eu estou lendo de tao bom me faz mal... de tao triste.

"O espetaculo mais triste do mundo"

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

esse livro é ótimo né? eu lembro qu eli por causa da série da Bandeirantes rs. a gente assistiu como trabalho de escola...e acabei me interessando pela história.

bjs