terça-feira, 12 de junho de 2012

Como andar 200 anos atrás de uma carreta!


Jean Leon Pallière Grandjean Ferreira

Jean Leon Pallière

Gaúchos por Pallière
Por favor, se alguém conhece esse pintor, levante a mão! Eu não conhecia, não sabia nada sobre ele, mas convivi com suas pinturas durante os últimos meses e tenho muito a agradecê-lo, pois deixou minha vida mais fácil. Uma das coisas que eu mais gosto na minha profissão é a pesquisa, aquela que a gente parte de uma palavra escrita para chegar no objeto, veículo ou postura concretizada em imagem. Um exemplo foi a roca. O meu mais novo amigo, Pallière, entrou quando comecei a procurar carreta de bois, não qualquer uma, mas a que se usava por volta de 1795. Só para relembrar: Ana Terra abandona sua casa e segue com uma caravana para fundar Santa Fé. As caravanas eram feitas com carretas de  bois, carroças e cavalos não aguentariam a viagem. Primeiro se vai ao livro, nenhuma descrição, depois se parte em busca de descrição e imagens em autores da época (aqui entra tudo, tese, cartas, relatórios e etc.). Encontrei imagens lindas de gaúchos seus usos e costumes nesse pintor, apaixonei. Imagens na net e depois a cata de livros, não são fáceis. Primeiro por que ninguém sabe bem quem é ele e segundo porque ele é considerado um pintor argentino, apesar de brasileiro. Brasileiro? Sim, nascido e criado no Rio de Janeiro, filho de um pintor e neto de um arquiteto que aqui chegaram com a Missão Francesa, por volta dos 20 anos ganhou uma bolsa de estudo na Europa (da Imperial Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro) por lá ficou alguns anos e ao voltar  logo partiu para Buenos Aires, não descobri o porquê, só sei que ele se apaixonou pelos pampas e pelos gaúchos e praticamente passou a pintar só sobre esse tema, mesmo quando voltou para morar na França e o fez até sua morte, com sucesso em suas exposições.
Menina volta para as carretas! Ah, é. Muitas carretas em várias paisagens e situações foram pintadas por Pallière, mas ele nasceu em 1823 e morreu em 1887, um pouco moço para 1795, guardei na manga a informação e continuei, consultei professores, pesquisadores, gente que gosta de sua própria história, fui a Melo (no Uruguai) atrás de informação e todos afirmavam que as carretas eram as que estavam em seus quadros. É eram mesmo, pois aí encontrei os desenhos do jesuíta Floriam Paucke (1719-1780),  ele será o tema do próximo post, esperem o próximo capítulo.  Bem já tinha a informação, agora sair a procura da carreta: imagens na mão, encontrar a certa, fazer as transformações necessárias  e encontrar o boi certo, sim pois não é qualquer boi! Nelore, angus e sei lá mais quantas raças, não existiam por aqui em 1790, precisava ser um boi daquela raça indefinida que levou 150 anos apurando nos pampas selvagens. Esse tipo de gado ainda existe, em poucos lugares e são praticamente bichos de zoológico. Tudo bem, mas eles puxam uma carreta? Ah, isso são outros 500! Não sei se vocês sabem, mas existe a Nossa Senhora da Produção de Arte, Bage inteira me dizia, procure na Estancia Minuano, o dono tem uma carreta como você quer. Fui e encontrei Minga Blanco, um gaúcho que gosta de sua história e procura preservar o passado campeiro, logo de cara  encontrei a “minha carreta”, os bois certos e um pesquisador que não só  ensinou a mim como a todos do filme. Ele tinha uma carreta, eu precisava no mínimo de duas, ele me ajudou a encontrar a base, montou a segunda, treinou os bois (ele é um dos estanceiros que ajuda a preservar esse tipo de gado) e foi sem dúvida nosso anjo da guarda em vários momentos do filme.
É essa emoção que me fez me apaixonar por minha profissão, partir de uma única palavra em um roteiro e abrir um leque enorme de conhecimento, seja de pintores mortos a 100 ou 200 anos ou de pessoas que nos doa seu tempo e conhecimento para que tudo seja perfeito, mesmo quando se trata de uma carreta de bois que  aparece meros 15 minutos no filme.


Carreta de bois -  Pallère

Pallière

Carlos Morel - pintor argentino

Imagem obtida no Museu de Melo, Uruguai

Carreta de Florian Paucke

Carreta da Estancia Minuano, Aceguá (RS)

Minga Blanco toca sua carreta em um desfile comemorativo.

Uma das carretas no filme.
Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem que assim é que a natureza compôs as suas espécies. Machado Assis

18 comentários:

Fatima Valeria disse...

Muito, muito bom, valeu a pena esperar. Conhecia o pai da Missão Francesa, nem sonhava com o filho, também amo a pesquisa, coisa linda.
Vou lendo seus post, de agora em diante como capítulos de um livro...
Abraços

Luana disse...

Que linda a carreta! Eu me perco imaginando como era a vida dessas pessoas ha tanto tempo...
Estou me cocando muito pra ver esse filme!

SHEYLA -DMulheres disse...

Nossa, que luta pra se conseguir colocar na tela por alguns minutos ou até segundos. Amei isso, da estória por trás da imagem.

Um cheiro grande

Regina Rozenbaum disse...

Ju amaaada!
Lendo fiquei pensando como eu (e creio a grande maioria) não fazia a mínima ideia de quanto trabalho há por trás de um filme, minissérie, novela (mesmo as atuais)! UAUUUU...suei daqui só lendo e imaginando a trabalheira tooooda. Mas,como reafirmou, é o que te moveu e move,né? PAIXÃO pelo que faz.
Beijuuss n.a.

Teresinha Ferreira disse...

Olá Jussara,
Não conhecia esse pintor.Fico fascinada em ver a História retratada através da arte.
Tem pessoas que pensam que é fácil fazer alguns eventos, tais como na área da arte, moda, gastronomia etc. Não sabe o quanto temos que estudar, ter embasamento para mostrar algo verdadeiro.
Beijos mil

Lufe disse...

Cada vez mais o seu trabalho me fascina. Dá para entender e certamente comungar com a sua paixão.
Uma das coisas que mais me incomodam nos filmes americanos que tratam ou citam o nosso país é o total desconhecimento da geografia, da natureza, do povo e de seus costumes.
Quantas vezes não vemos "brasileiros" falando espanhol.Outra coisa que me intriga é como os nossos artistas que participam destes filmes se compactuam com os diretores, roteiristas e diretores de arte.
A Carmem Miranda era um exemplo disso, pois até o conjunto que a acompanhava usava roupas cubanas.
Não sei se era ignorancia, falta de respeito ou descaso.
Seu trabalho é louvavel.
Cada dia fico mais seu fã.

Quanto ao Pallière......muito prazer!

bjo procê

Rosa de Paiva Lopes disse...

Ju, que bom tê-la de volta!!
Adoro cenografia, a pesquisa.
E mesmo q uma obra seja "adaptada" sempre deixa plantada a semente da curiosidade e assim a gente vai descobrindo mais da história.
Ui q sorte a tua!!
Siga-nos mostrando o seu material, está fascinante.
bj

Beth/Lilás disse...

Jussara,
Teu trabalho é fascinante e extremamente agradável, eu adoraria fazê-lo. gosto desse negócio de pesquisa, descobrir coisas, hábitos, história.
Lindíssimos os quadros e eu também desconhecia este incrível pintor.
Agora, esperar pra conferir tudo isso na telinha. parabéns!
beijos cariocas

Ivan Monma disse...

Quanta erudição me traz esse blog! É um prazer ler linhas de alguém possuidora de tamanha bagagem cultural. Parabéns!!!

Inaie disse...

Estou começando a entender quão desprendida a pessoa tem que ser para fazer o seu trabalho. Tudo depende de você, os mínimos detalhes, as coisas que "ninguém vÊ". Mas ninguém vê se os eu trabalho for feito direitinho, por que se vc coloca a dita carroça com cavalos, um desinfeliz ( talvez muitos desinfelizes) vão rapidinho notar que tá errado.
Trabalhar nos bastidores da ação é pra poucos iluminados. Hoje em dia todo mundo corre atrás dos holofotes!

Luma Rosa disse...

As carroças eram muito parecidas com as que usavam nos filmes de faroeste ou estou vendo diferente?
Essas pesquisas são enraizadas e para um pesquisador é um prato cheio, pois de uma pesquisa se cai em outra, algo bem interminável! Salve as anotações!!
Eu não conheço o pintor... bem queria para poder contribuir de alguma forma.
Bom fim de semana!! Beijus,

Pandora disse...

Gente que loucura!!!

E no fim isso é isso que também me encanta na História uma coisa não é apenas uma coisa ela tem dentro de si um universo de possibilidades e a medida que pesquisamos esse universo vai aparecendo...

É ótimo ler/ver as suas descobertas Jússara, mergulhar com você no mundo dos que tornam os sonhos realidade e fazem a gente ver o passado diante dos nossos olhos. Tem que ser artista mesmo!!!!

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Enfim, uma blogueira que definitivamente também não tem medo de parágrafos! Sua história com "as carretas" de antanho é digna de livro pela só dedicação em desagulhá-las do palheiro. Sublime. Parabéns! abs

Lúcia Soares disse...

Apaixonante, Jussara. Ir atrás dos detalhes, das minúcias, que a qualidade impõe. Um filme é, além de entretenimento, uma história no tempo. A vida era muito mais rica nos antigamente, não é?
Mais melindrosa, caprichosa.
O progresso, a tecnologia, são bem vindos, afinal ninguém quer viajar mais em carroças puxadas por bois, mas muita coisa também perdemos nos caminhos.
Este é o tipo do trabalho que, acima da busca, do cansaço, fica o prazer. Vou amar assistir esse filme e prestar atenção aos detalhes, não só focar nos atores.
Beijo!

Inaie disse...

vamos comigo prá Asia? Vamos comigo prá Asia? vamos comigo prá Asia?

Vc merece ferias. E eu sou boa compania ( a maior parte do tempo...kkk)

Renata (impermeável a) disse...

Lembrei com as carretas de quando era criança e via filmes de cowboys americanos....

certa melancoliaaa...


adorei!

Clê disse...

Não conhecia, mas me envolvi com a sua narrativa. deve ser uma existencia tão rica!bjns
cadernocolorido@blogspot.com.br

José Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Parabéns: uma lição de História para deixar muito historiador "metido" com inveja... Quisera eu ter sua disposição para pesquisar e escrever em seu blogue... A síndrome de Macunaíma não me deixa, às vezes...
Bom final de semana!