domingo, 13 de maio de 2012

Explicações e mais fotos


Vou continuar no mesmo tema do post anterior, pois devo algumas explicações. A primeira é o porquê do incêndio. Um roteiro de cinema não é rigorosamente uma copia do livro, este é um exemplo clássico, no livro o rancho dos Terras é destruído, roubado, Ana é estuprada e tem sua família assassinada e a sequência está descrita em muitas páginas, cinema é  imagem, então um incêndio é  mais dramático e visualmente é entendido mais rapidamente a grande desolação da personagem Ana Terra. Cinema é mágica e o que queimamos foi o telhado, que foi feito da palha de Santa Fé, essa palha é típica dessa região e é usada até hoje para cobertura de telhados, o interessante é que Érico Veríssimo aproveitou o nome da palha para batizar a cidade do livro. O incêndio é controlado e retiramos tudo de dentro do cenário, após o incêndio, recolocamos algumas peças, cobrimos de cinza e acendemos incenso junto a tecidos para termos fumaça e alguns pequenos focos de fogo, dando a impressão de uma grande destruição, como podem ver tudo um truque.
O Lufe mencionou a técnica da construção, é uma técnica típica dessa região, chamada de construção de torrão, bem diferente do que conhecemos no Sudeste. Estamos no pampa, longa extensão de campo, assim se usava o que se tinha, corta-se uma manta de campo (como mantas de grama) dobra-se em três ou quatro, se empilha esses torrões (como tijolos) e se soca, as paredes ficam com mais ou menos 40 cm de largura. Essas casas são térmicas, frescas no verão e guardam o calor no inverno, vimos casas construídas com essa técnica com mais de 100 anos. O cenário foi construído partes com essa técnica e parte cenograficamente com barro, chapas de madeira e tela de galinheiro, como o barro não queima quando assistirem o filme verão que as paredes continuaram de pé. Ninguém perguntou, mas vou falar, essas construções ficavam com frestas e como não havia falta de couro, uma vez que vacas soltas pelos campos era o que mais tinha, se calcula que por volta de 1780 havia mais de um milhão de vacas selvagens nos pampas, eles usavam os couros para tapar essas frestas, como podem ver não foi maluquice da cenógrafa encher as paredes tanto interna como externamente de couro.
E por fim, todo mundo já ouviu a sua mãe dizer: Cuidado com essa faca!  Eu ouvi, mas não obedeci, resolvi fazer uma tampa para uma cabaça e consegui um belo de um corte na palma da mão. Já está tudo bem, não precisei de pontos e sobrou de lembrança uma pequena cicatriz. O filme está na reta final e agora fica tudo mais corrido, no momento só penso em voltar para casa, após cinco meses, descansar e voltar para os meus livros, já cansei do século XVIII e XIX provavelmente passarei os próximos meses lendo ficção cientifica!
A casa coberta com palha Santa Fé.
A casa coberta com a palha Santa Fé.

Redil de pedra, ainda hoje visto no campo.

Cerca feita de pau de mato, aqui um curral.

Até o galinheiro ganha cobertura de Santa Fé.

Uma casa real, com mais de cem anos.

Com o tempo as paredes podem ficar verde!

A cenógrafa não ficou maluca.

No esforço da perfeição vale até pegar na enxada.

Nos pampas há sempre um lindo por de sol.

Boa Semana!

10 comentários:

Rogério Pereira disse...

Tenho agora a resposta à questão antes colocada...

Boa semana

Lufe disse...

Como sou bem curioso fiz a pergunta sobre as paredes. É que vi o engradamento feito e pensei que era como as nossas de taipa, feitas com barro e capim, preenchendo o entrelaçamento. Achei bem interessante essa tecnica do torrão, que não conhecia.Me parece que um engradamento tambem é feito, mais como guia e para conter a parede formada pelos torrões.Parece bem mais fortes que as nossas, embora tenhamos muitas casas de fazendas de mais de cem anos, mas elas são todas estruturadas com vigas de brauna e cobertas de telhas.
Que bom que esteja terminando a tarefa e logo logo a teremos de volta. Saudade de você.

bjo

Luana disse...

Quanta coisa interessante, Ju!
Ja sao quase 5 meses que voce esta ai? Caramba, como o tempo passa voando!

Muito interessante a maneira como as casas eram construídas... Tanta coisa que a gente não faz nem ideia.

Misturação - Ana Karla disse...

Jussara é muito bom te ler.
Me transportei para o século VXIII dentro de todo esse drama.
Mais uma vez, sucesso pra você.
Xeros

Lis S. disse...

Mais uma vez, parabéns pelo trabalho! Deve ser sensacional trabalhar com produção de cenários. Adorei o truque do incenso.

Beijão!

Lúcia Soares disse...

Nem imagino (ou só imagino!) o quanto é fascinante essa sua profissão. Embora trabalhosa. Ver o filme pronto vai ser muito bom, né?
Beijo!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

que fantástico, é um mundo de arte e muito aprendizado! e o seu trabalho foi mto convincente, pelas fotos eu pensei q tudo tivesse queimado rs, parabéns pelo nível do que vcs fazem.

qdo trabalhei na Manchete eu adorava ver os cenários montados, a pesquisa de época e histórica, essas coisas... toda a arte envolvida. ih, eu morria de inveja, pq trabalhava no videotape rs, com as máquinas rs e queria tb fazer essas loucuras lindas q vcs fazem.

lindo trabalho, Jussara, lindo mesmo.
bjs

Inaie disse...

que delicia, Jussara.Pena vc estar nessa correria. Adoraria acompanhar mais da sua "saga"...

Fatima Valeria disse...

Nova postagem: www.expressaempalavrasearte.blogspot.com
Abraços e parabéns pelo belo trabalho.

Inaie disse...

caba logo esse negócio aí e vem brincar com a gente, vai...eu sinto muito a sua falta!