segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pátria Gaudéria

O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo

Ana Terra, Capitão Rodrigo e Bibiana Terra Cambará, quem não conhece esses personagens? Acredito que todo mundo já ouviu falar deles, mesmo não tendo lido qualquer dos livros que compõe a trilogia O Tempo e o Vento, composto  em O Continente, O Retrato e O  Arquipélago é dividido em  sete volumes.  Ana Terra e Capitão Rodrigo habitam  O Continente, a primeira parte da trilogia e com certeza a mais famosa, aqui é contada a formação do Rio Grande do Sul, suas famílias, suas guerras ( e são muitas!) e principalmente o sentimento pátrio de pertencer a um lugar, aquele lugar que se luta e se morre por ele! É uma obra ficcional com pinceladas históricas,  a realidade histórica entra enquanto afeta a vida dos personagens, mesmo quando eles mesmo não sejam  politizados ou tenham que escolher um lado.
Considero O Continente a obra-prima do autor, quando você acaba de ler, está tão íntima dos personagens que sente saudades de Ana Terra, inveja de Bibiana que se casa com o Capitão Rodrigo, mesmo ele  sendo um sem-vergonha,  um sentimento de perda com a morte de Bolívar e um sentimento de orgulho e pena de Licurgo que carrega 150 anos da história de Santa Fé e da familia pois é ele quem paga uma conta muito alta, a custa de perdas e sangue, para manter tudo no lugar e honrar  sua própria história.
As mulheres  são as narradoras da história, pois são as que mantêm os  valores morais e familiares enquanto seus homens lutam em guerras constantes, na qual elas não querem saber quem esta certo ou errado só querem sua paz de volta. Paz quase impossível, uma vez que o romance vai de 1745 a 1895, período que os nascido no continente não tiveram qualquer paz, lutam nas guerras guaraníticas, lutam contra os castelhanos, lutam pelo rei português, lutam contra o imperador, lutam na guerra do Paraguai, lutam entre si,  lutam, lutam e lutam. Essas mulheres garantem aos homens uma casa para voltar, o bem estar de sua descendência e pela posse da terra duramente conquistada, por isso são contantes como o tempo e por isso fiam e os homens em sua peleja constante são o vento, ora aqui ora acolá.
Em algum momento O Tempo e o Vento foi considerado um romance regionalista, pode até ser, mas é um romance universal pois conta a formação de um povo, até hoje, extremamente orgulhoso de sua história, que não se envergonha de suas vestimentas típicas e as usa constantemente, que mantêm centro de tradicões,  as CTG (Centro de Tradição Gaúcha) para não esquecerem  jamais como chegaram até aqui e que quase todos os homens portam facas como se fossem celulares, facas usadas nos constantes churrasco, mas quem garante  o que virá pela frente? É lendo o romance  que se começa a conhecer os gaúchos e ao estabelecermos paralelos conhecemos a nós mesmo, nossa história e a formação de nossa região.
Eu, hoje, posso dizer com total segurança que não conhecia a história do sul do Brasil, precisei estar aqui no extremo sul do país, praticamente na fronteira  e estudar exaustivamente sua história, conhecer o infinito do pampa, ver a importância do cavalo, do gado e da ovelha para a ocupação desse vasto território, entender que é uma história comum com os argentinos e os uruguaios, pois todos viveram longos séculos entrelaçados  e que por isso formam a Pátria Gaudéria. Gaudério tem como significado no dicionário: vadio e  ladrão de gado, mas não aqui. No sul do continente são os homens livres e sem pátria que aqui ficaram, desbravaram, povoaram  e lutaram pelo seu chão, são as mulheres que tomaram as rédeas de suas casas, suas vidas e suas estâncias para garantir a posse desse chão. E com isso vocês ficam sabendo qual o filme que estou fazendo e pelo qual estou lutando para que reflita toda essa história e todo esse sentimento.
“Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana.”  Marguerite de Crayencour
SOBRE O AUTOR
Érico Veríssimo (1905-1975) –  escritor, editor e tradutor gaúcho , que com sua vasta obra retratou sua terra e sua gente. O Continente, primeira parte da trilogia, foi publicada pela primeira vez em 1949.

29 comentários:

Bia Jubiart disse...

É apaixonante, a história, o seu trabalho e a sua narrativa!

Jussara, uma semana maravilhosa e produtiva p/ vc!

Beijooooooooo

Pandora disse...

Huhu!!! Que filme, já estou ansiosa para ir ao cinema!!! Eu li apenas um volume desse épico, mas já vi e ouvir Deus e o mundo falando sobre, ou seja, tenho que ler e qualquer dia desses lerei \o/

Ana Seerig disse...

Bah, "O tempo e o vento" é uma maravilha. Comecei a ler por acidente, minha mãe não parava de falar nos livros enquanto lia e, como eu estava sem o que se ler, longe de casa, quando ela terminava de ler um volume, eu começava a ler... Me apaixonei. Devo dizer que por vezes me pego remoendo "O arquipélago", tenho um fascínio incrível por Floriano Cambará, maior do que meu encanto pelo Capitão Rodrigo e pelo Major Toríbio...
Temos aqui em casa o DVD da minissérie feita pela Globo... Provavelmente pelo meu encanto por TODA a trilogia, especialmente a última parte, é que acho que a série deixou a desejar... Quer dizer, acho que podiam ter adaptado tudo e feito mesmo uma série... Mas enfim, a parte que foi feita tá legal, mesmo que por vezes seja possível notar quais são os atores gaúchos e os que não são, pelo modo de falar e de se portar em certas situações... Apesar de detalhes aqui e acolá, é inegável que, mesmo não sendo gaúcho, Tarcísio Meira imortalizou o Capitão Rodrigo... Quanto ao filme, devo dizer, como sempre, que receio adaptações, mania de apego aos livros. Mas certamente verei. =)

Fatima Valeria disse...

Estive um pouco ausente, e veja só, que delícia retornar e encontrar tão belo comentário, adorei o significado do tempo e o vento, como é bom ver diferente, mais e melhor. Abraços e Obrigada

Cissa Branco disse...

Ju,

Minha paixão o Erico Veríssimo. Estive em Cruz Alta nessas férias, a família do Tiago é de lá, sua avó estudou com o Érico, e senão me engano no livro Acidente em Antares tem um personagem da família Branco, em referência a um certo familiar, rs, não sei se é verdade ou lenda, mas enfim. Sou uma das viúvas do capitão Rodrigo, eta homem bom, rs. Li tudo do Erico, mas minha paixão ainda é Olhai os lírios do campo. Cada vez que vou ao sul volto mais fortalecida, é como encontrar a essência. Todos dizem que somos esnobes, metidos, xucros, e somos mesmo, mas temos uma noção da nossa história, um orgulho por todas essas batalhas que nenhum outro estado tem. Já encontrou o dicionário gauchês? Vale a pena, uma preciosidade! Fiquei super chateada de não podermos nos encontrar, mas minhas férias foram mais para tratar de inventário, mudança, cremação, maior pauleira. Quando vc volta? Grandes saudades, beijos

Inaie disse...

Me lembro de ter lido o tempo e o vento quando ainda era adolescente... e depois vi o seriado da Globo, adorei!

Saudade de vc, viu!
A vida aqui ta boa. Segui seu conselho. To feliz...

Luana disse...

Lindo esse livro!

Tive um professor de física que me chamava de Bibiana.. eu nunca entendi porque, pois nao me comparo a ela... mas no fundo eu gostava da referencia...

Glória Maria Vieira disse...

Meu Deus. E minha lista só aumenta, né Juh?!

Vamos que vamos! \o/

Bruno S disse...

Li esse livros quando tinha 14 anos. Foi passado o Ana Terra na escola. Só que aí acabei lendo a obra completa.

Foram 2 meses em companhia de Terras e Cambarás.

Luma Rosa disse...

Li a trilogia na Escola, tinha 11 anos e não gostei. Só depois no pré-vestibular fui ler novamente e já com outros olhos.
Estou sabendo da adaptação de O Tempo e o Vento com roteiro assinado pela Leticia Wierzchowski e Tabajara Ruas. Cleo Pires no papel que foi de sua mãe na TV. Está nessa, fia? (rs*)
Bom trabalho!! Trabalhar com o Jayme Monjardim deve ser o máximo!!
Beijus,

andreia inoue disse...

sou apaixonada pelos personagens do tempo e o vento,
principalmente por ana terra o rodrigo cambara.
:D

Julio disse...

Oi Ju. Já há bastante tempo faço uma viagem anual ao sul do Brasil (normalmente Serra Gaúcha). Me encanta ver o orgulho do gaúcho de suas tradições, suas roupas, seu jeito de falar, seu mate. É uma mistura de orgulho, xenofobia, teimosia e prepotência que fascina a paulistas como nós que não temos esse passado de guerras em defesa da nossa terra. Pelo contrário, com os bandeirantes fomos nós os invasores de outras terras. Já num passado mais recente nos acostumamos a ver São Paulo recebendo e acolhendo cada vez mais gente de fora, outras culturas, outras raças, o que torna esse sentimento de "essa é a 'minha' terra" cada vez mais vago e impreciso para nós. Agora uma prosinha privada: lembra que há algum tempo nós fizemos uma votação no e-mail da família de quem seriam os dez maiores escritores brasileiros? Então, na minha lista o Érico vem disparado em primeirão com três voltas de vantagem sobre o resto. Vamos lá, fãs de Graciliano, Jorge Amado, Mário de Andrade, Drummond, etc., podem espernear à vontade. Na minha estante eles não servem nem pra limpar as botas, lavar as bombachas ou lustrar as esporas do Érico, tchê!..... bjs

mirtes disse...

Ah, sério que você está trabalhando na produção de O tempo e o vento?
Amo a trilogia. Comecei a ler O Arquipélago para o vestibular, parei no meio e depois li tudo, desde O Continente que para mim também é uma obra prima.
O Continente, com seus dois livros, é a minha parte favorita da história. Amo Ana Terra, parece que sempre a conheci.

Sou gaúcha, amo esta terra e penso que Érico Veríssimo traduziu muito bem o quê e porquê gostamos tanto do RS.

Estou louca para assistir ao filme! Boa sorte e bom trabalho! rs

Bjs

Cinderela Descaída disse...

Sou gaúcha adotada, mas filha de gaúchos pouco esforçados na sua gauchez. Moro aqui e acho impressionante esse amor a este chão.
Mas acho que, como colocaste explendidamente, ser gaúcho é algo que transcende fronteiras: há os argentinos, os uruguaios. Onde houver o pampa, lá estarão eles, como também retratou Borges.
Beijo,

Lúcia Soares disse...

Jussara, estou naquela de ter lido tantos livros há tanto tempo, que me esqueci das histórias e preciso reler!
Bom trabalho! Beijo.

Mayara disse...

Jussara que lindo! fiquei ansiosa agora, para ver o filme rsrs Uma ótima semana de descanso no carnaval, para voltar com tudo! um abraço!

mEu munDinHo LoUcO disse...

Olá,Lindinha:
Dedico um selinho do meu bloguinho para você com muito carinho...:)
Segue o link: http://meumundinholouco.blogspot.com/2012/02/do-meu-mundinho-louco-para-voce.html
Beijos, Elaine

Carlos Medeiros disse...

Faz um bom tempo que li essa trilogia, e gostei. Preciso reler, já que esqueci a história. Aliás, gosto de reler livros. Bom carnaval.

Orvalho do céu disse...

Olá, querida
Sempre indicando boas obras literárias e dando dicas preciosas... parabéns!!!
Bjm de paz e alegre

Christine disse...

Que bom ter noticias suas através do blog. E realmente qdo estamos vivendo uma situação nova, temos que ir atrás da história.Vc além de tudo precisa ir buscar suas fontes e achar o caminho para reproduzi-las. Como diz Confucio: para entender o futuro, estuda o passado.
Beijo

Lis S. disse...

Oi Jussara, meu sogro é gaúcho e meu esposo morou mtos anos no Rio Grande do Sul. Tenho mta vontade de conhecer a região por td oq o meu esposo me conta.. Vou indicar este livro pra ele.

Mto boas suas resenhas. Parabéns!

Obg pelas visitas! Bjs!

Adelaide Araçai disse...

Amo esses livros os li a muito tempo e como entrei na história sindo-me como se tivesse vivido a época. A ve-los aqui deu uma vontade louca de relelos.

Tenha uma Ótima semana
Muita Luz e Paz
Abraços

Margot Félix disse...

Nunca li essa obra e considero que é uma lacuna na minha vida de leitora. Foi bom ler seu texto, pois o coloco na minha estante de "livros a serem lidos".

Gostei muito daqui e com certeza voltarei para ler posts antigos.

Saudações,
Margot Félix!

http://compartimentosecretopara.blogspot.com

*

Celia na Italia disse...

Ju
Isto é "história na veia" e das boas!
Estou ansiosa por ver a finalização do teu trabalho!
Deve estar sendo uma experiencia incrível.
Nós os Gaúchos somos sim orgulhosos de nossas tradições e mesmo que "meio fechados" temos um coração gigante!
Acredite"

Kinha disse...

aDORO ESSA OBRA. JÁ A LI INTEIRA (O CONTINENTE, O RETRATO E O ARQUIPLÉLAGO) UMAS TRÊS VEZES E SEMPRE COM UMA PERCEPÇÃO NOVA.

Teresinha Ferreira disse...

Olá Jussara,
Apaixonante essa obra.
Amanhã vou citar seu blog na minha postagem.
Tudo de bom.
www.democratizacaodamoda.blogspot.com

ღα૨gѳђ ખ૯૨ท૯૮ઝܟ disse...

Ja estou na fila dos ingressos!!!!!

[e fico aqui tb...rs]

Beijao

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

eu amo esse livro! Aliás, gosto de tudo que o Érico Veríssimo escreveu.

E foi linda a minissérie que a Globo fez... pena que não fazem mais séries daquela qualidade né?

saudades, querida Jussara. um bom dia pra vc

Kathleen Irizaga disse...

Ju, meu filho é Pedro - com certeza inspirado pela força do Missioneiro... Amo a obra, amo a trilha que o Tom Jobim fez para o seriado, ainda lembro das falas do Tarciso na tv: arre, mas que muchacha branquita(ele fala pra Bibiana)bjks!!!Adorei te conhecer ao vivo, vizinha!