segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A roca e seu fuso

A Bela Adormecida, Irmãos Grimm
Bela Adormecida a princesa condenada a dormir 100 anos até a chegada do príncipe encantado e seu beijo salvador. Você certamente conhece a história, até mesmo já deve ter visto um simpático desenho animado ou assistido ao balé inspirado nesse conto. Existem várias versões desse conto de fada, a mais conhecida é a dos irmãos Grimm, dois irmãos alemães que se dedicaram ao estudo da sua língua materna e assim foram recolhendo histórias de tradição oral e as  compilando. Quando já tinham um número considerável delas, acabaram por publicá-las num volume que se chama “Contos da Criança e do lar”, mas não foi a primeira publicação de a Bela Adormecida, já haviam outras em francês,  italiano e até mesmo uma deles mesmos e diferentes versões, onde até mesmo o nome da princesa muda. Existe diferenças entre elas, mas  em todas elas a princesa fura o dedo no fuso da roca.
A roca errada
A roca é o instrumento em que se produz fio de lã ou algodão que será posteriormente utilizado em um tear para confecção de tecido, supõe-se que a roca, como instrumento, foi inventando na India entre 300 e 800 d.C.. Antes disso se produzia os fios à mão e não havia constância na espessura do fio. Algumas notícias sobre a roca: ela ainda é muita usada pelo Brasil à fora, fiando lã e algodão. Existem fabricantes de roca no Brasil em pleno seculo XXI e não são poucos. Os fios produzidos por essas rocas são usados em teares manuais que produzem peças belissímas. E eu preciso de uma roca do século XVIII!
Exitem vários tipos de rocas, mas as usadas no Brasil são as de tradição portuguesa desde 1500, uma roca fabricada em 2012 é igual a uma de 1600 e usa o mesmo princípio, mas não são iguais é aqui que entra meu trabalho. Encontrei uma roca bem velha, podem ver na foto, pensei em até brincar com o jogo de sete erros nesse post, mas desisti, não valeria a pena fazer vocês ficarem olhando para uma foto sem saber o que procurar. Resolvi então postar os erros mais evidentes dela: parafusos do fim do século XIX, começo do século XX e os reparos, das peças que se quebraram ou se gastaram, foram feitos com aglomerado e pintados de branco, o que invibializa sua utilização no filme. Depois de visitar fabricantes, inúmeras fiandeiras, associações de tecelãs e aprender como se fia (fui péssima), encontrei a minha roca. Ela tem uns 80 anos, mas é exatamente igual a todas as referências que tenho, encontradas em quadros e desenhos do século XVIII, quase  todas as peças são originais e as que foram substituídas, tiveram o cuidado de colocar a mais próxima possível do original, a única alteração que vou fazer e trocar o fio que roda a roca por um de couro. Valeu a pena pois a roca tem uma enorme importância no filme, menos um problema e uma enorme satisfação em encontrar a peça certa. A propósito, fuso é uma vareta comprida, roliça e pontiaguda em que se enrola o fio torcido à mão que será fiado, o fio torcido a mão, por exemplo, é um tanto de lã somente lavada após retirada da ovelha e desembaçada, hoje em dia (na verdade a mais de cem anos) não se usa mais fuso, pois a lã é desembaraçada por um instrumendo chamado carda. No Brasil colonial o fuso era de madeira ou nem mesmo existia, se fazia o trabalho do fuso com as próprias mãos, quando na Europa o fuso  já era de ferro. O fuso ser de ferro e afiado na ponta como uma agulha é o que explica a Bela Adormecida ter furado o dedo.
“Cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso.” Ditado popular
SOBRE O AUTOR
Irmãos Grimm - Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) – linguistas, filologos e folcloristas alemães, publicaram o conto A Bela Adormecida  pela primeira vez no livro Contos de Grimm em 1812.
A roca certa.

26 comentários:

Pandora disse...

Sabe aquele texto que vc ler quase comendo as letras, devorando as informações? A roca aparece na história da Bela Adormecida e em muitas outras, é praticamente um personagem de grande parte dos romances medievais europeus e só agora aprendi capítulos de sua história, estou encantada \o/

E no final quando vc disse: "O fuso ser de ferro e afiado na ponta como uma agulha é o que explica a Bela Adormecida ter furado o dedo." Lembrei uma máxima que aprendi estudando História: "os homens fazem os objetos, cultura material, e os objetos fazem o homem"!

Bendito filme!!!! Opera, roca de fiar... o que virar por ai ainda??? #Ansiosa

Bia Jubiart disse...

Hummmmmmmm pelo jeito pesquisando e trabalhando muitooooooo!

Já vi pelos rincões do país algumas rocas, mas quem tinha nunca quis me vender, gosto de colecionar coisas antigas. Adorei saber mais...

Uma semana produtiva e iluminada p/ vc!

Beijoooooooooooooo

Luana disse...

Quando eu li o livro da Bela Adormecida eu nao sabia o que era uma roca... Fui atras, na Barsa - outros tempos, ne? - e me lembro de ter achado aquilo taaaao lindo! Eh como uma peca de decoração, linda!

Aleska disse...

Esse é o meu conto favorito, mas não sabia que tinha sido escrito também pelos Grimm. Conhecia pelo Charles Perrault.

Rogério Pereira disse...

"A roca eram as mãos..."

Para que a memória não esqueça. Isso, e esse livro.

Beijo

Christine disse...

Não sou a Bela Adormecida, mas furaria todos os meus dedos se tivesse que trabalhar numa roca. rs
Mas esse filme ainda darámuito que falar e aguçar sua curiosidade (e anossa, claro), além de te fazer pensar nas necessidades do filme (objetos, cenário, vetes) e nas necessidades do blog (livros, leitura) e juntar as duas num texto só. Parabéns, Ju! Vc se supera sempre! Bj

Orvalho do céu disse...

Olá,
Passando pra desejar-lhe uma semana abençoada e comunicar que estou bem afastada da net...
Meus blogs sumiram e tivemos que criar outros continuando os antigos...
Uma enfermidade me pegou de supetão e me distanciou ainda mias daqui pois precisei estar hospitalizada e agora, em "liberdade condicional"... ( dias em Hospital e dias em casa, entre exames, diagnósticos e outros)...
Assim que der, seguirei lendo seu post e me enriquecendo, como sempre.
Bjs de paz e esperança

Rosa Lopes disse...

o que eu queria mesmo era saber se vc sabe se vai rolar ou não a segunda parte da biografia de Gabo!!
Bj

david era uma vez... disse...

Vc sabe que quando eu tinha meus 5 anos e minha mãe me contou essa historia, na hora que falou: "No fuso de uma roca" eu ja parei com a narrativa, lembro que era pequeno e fui logo perguntando o que era isso.
Minha mãe explicou me direitinho, pois eu sempre soube o que era, inclusive quando, ja um pouquinho maior, li a Roupa Nova do Imperador, nos desenhos do ilustrador tinha uma roca e eu identifiquei-a.

Mas voltando ao presente...
Jussara minha querida... vc vai fiar?
Vai na loja! tem taaaanta lã tão linda... tem umas até que parecem que foi uma fiadeira maluca que não conseguia fazer um fio uniforme!!
Agora se é para ornamentar a casa... Très Bien! ai é legal!!

Beijos Ju!

Beth/Lilás disse...

Oi, Jussara!
Realmente, a roca é um objeto que nos remete direto para essas estorinhas, tem lá alguma coisa de romântico, de princesas, de torre, qualquer coisa assim.
Eu tô achando que você está fazendo algum trabalho de pesquisa de época.
Tô doida pra saber o que será! hehe
beijinhos cariocas
]

Regina Rozenbaum disse...

Lembrei de imediato de um livro: A Psicanálise dos Contos de Fadas - Bruno Bettelheim, já leu? Mas, mais rápido ainda foi a curiosidade em saber qual será esse trabalho que requer tanto esmero na produção! Aguardemos, né?
Beijuuss n.a.

reginaiara disse...

OI MINHA FLOR,, EU GOSTARIA DE LER MAIS , TER LIDO MAIS , MAS SEMPRE HA TEMPO!!!!!!
VOCE E DE BAGE , OU POR LO MENOS PEDISTE CHUVA PARA LA, ADORO BAGE E SEI O CUANTO SOFREM COM A FALTA DE CHUVA .
ADOREI SEU BLOG VOLTO SEMPRE!!!!!
VENHA VISITARME,
BEIJOS DE FRESIAS E LVANDAS*******
REGINA IARA

Lufe disse...

Jussara,

Esse seu trabalho é uma delicia!
E o olhar se desenvolve e fica afiadinho para os detalhes, como deve ser.

Roca do sec XVIII ter parafuso, não dá.

A fiandeira que Ghandi usava era bem diferente, tinha uma roda parecendo de bicicleta, não é?

Divita-se por ai que a gente fica por aqui se divertindo com os seus relatos.

bjos procê

palavrasdeumnovomundo disse...

Olá Jussara que saudades!
Há tempos que eu não te visitava e por isso me perdoe, mas tive e estou tendo uma fase difícil de perdas e superações, superações e novas perdas.
Querida, hoje estou aqui para te pedir ajuda para localizar a nossas queridas amigas CF (Célia) e M., pois não estou conseguindo entrar no blog delas.]Por favor se você tiver contato de uma delas me avise pelo email: rzamp@superig.com.br ou mesmo pelo blog (emmbora a minha última postagem seja antiga).
Querida Jussara, voltarei aqui com mais calma para ler a todas as suas indicações literárias que tanto me fazem falta. Por enquanto lhe agradeço de coração. Beijo. Rosa Zamp

Adelaide Araçai disse...

Que bom que descobri você neste mundo virtual...assim a propósito do teu trabalho você pesquisa e nos deixa um pouco mais sábios a cerca da nossa cultura, do nosso desenvolvimento (lerdo...rsrs em ralação a Europa) mas mágico. Confesso que nem imagino o trabalho que deve dar fiar com aos próprias mãos...

Obrigada por partilhar. Sou fã dos irmãos Grimm e já estou na maior curiosidade a cerca deste seu trabalho, quando poderemos vê-lo???

Muita Luz e Paz!
Abraços

O Guri disse...

Eu não conhecia esse ditado, gostei dele.

Bah, A Bela Adormecida é realmente uma história que mexe com a gente. É romantica, é sexual, tudo na medida certa. E é fantástica!

Saudades suas... "*

mirtes disse...

Ah, tô adorando! Vai contando mais do seu trabalho assim, falando sobre os itens da produção! :D

Tenho uma roca em casa, mas não é assim... essas parecem ser menores do que a "minha" (na verdade era da minha tia, e "herdamos").

Beijos

Macá disse...

JU
Estou de volta e fui correndo ler TODOS os seus posts que eu pudesse ter perdido, mas vi, que como eu, você também está super atarefada, pois só foram 2 desde o último que eu tinha visto.
Adorei conhecer tudo sobre a Roca e já ia dizer pra você ter cuidado pra não furar os dedos, quando vi que hoje, embora semelhantes, já não são mais afiadas assim.
Escreve contando as novidades tá?
beijos/saudades

Kinha disse...

Minha filha adora essa história.

Fernanda disse...

Obrigada pelas informações. A roca faz parte de todo mundo que ama histórias lidas ou contadas, mas eu mesma desconhecia esses detalhes sobre esse objeto tão temido nas minhas cismas de criança.

Bjs

A. Marcos disse...

Minha linda, perdoe-me a fal;ta de educação. Feliz 2012 e obrigado por continuar visitando o blog. Eu tenho estado ausente das postagens e sem tempo para escrever. Mas tenho lido as suas postagens e fiquei feliz por seu novo projeto profissional. Não vejo TV mas me sentirei a vontade para ver o resultado de seu trabalho.
Gde bj e sucesso em 2012.

Ivan Monma disse...

Desculpa o sumiço!
Maior barato a história da roca, esse seu trabalho é sensacional!!! Fico aqui esperando mais novidades sobre o filme!
Abraço

Fatima Valeria disse...

Que prazer ver a maneira q vc trabalha, deliciosas descobertas de mundos!
É maravilhoso, o início a aranha clara! rsrs, depois a roca. Minha avó foi tecelã já em uma fase de industrialização na Moóca. Americana interior de São Paulo é um polo têxtil, veja que engraçado, esta cidade é considerada a "Princesa tecelã". Tecer é uma das profissões mais antigas, no Museu Paulista (Ipiranga), ligado a USP, se não me falha a memória, existe uma disciplina ligada ao restauro e conservação de tecidos quem sabe seja útil para sua pesquisa. Então, inspirada nesse momento continuaremos tecendo nossos destinos...Abraços

Cacá disse...

Parece lugar comum,mas a verdade,é que parece que te conheço faz um tempão...Também adoro ler,leio tudo
que me cai nas mão.
Também estou triste,detesto perder
as pessoas que gosto ou admiro, Chico e Millor...e a mãe de uma amiga, a Aluísia,tive o maior prazer em conhecê-la...
Visite meu blog de posias:http:recantodaspalavrasedossonhos.blogspot.com
Bjos.

Anônimo disse...

Oi, só uma informação: Roca e fuso que vc está referindo, é bem mais moderna que a que furou o dedo da menina. Procure o fuso longo com ponta, porque estas rodas já não tem a ponta para ferir o dedo da menina. Esses fusos são ainda usados, porém já sem aponta de metal tão afiada como exagera e estória. Abs.

Cris Medeiros disse...

Texto escrito com detalhes que faz a gente se transportar para dentro dele. Muito bom!!

Beijocas