segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Só sei que gosto.


Existem pessoas que a gente está destinada a encontrar, não me lembro de como encontrei a Luciana ou se foi ela que me encontrou. Só sei que logo de cara nos gostamos, eu escrevi dois posts de presente para ela e adorei fazer um exercício de escrita diferente do que faço por aqui. Aí, nos encontramos em São Paulo, nem na minha cidade nem na dela! Começamos a conversar e passamos 7 horas falando! Foi pouco, muito pouco, rs... Passeamos, andamos a esmo,  bebemos uma cerveja à muito combinada e parecia que nos conhecíamos desde sempre. Eu acho que nos conhecemos desde sempre. Ela tem borboletas nos olhos, se sente como a Graúna e tem um sorriso lindo.  Este é o presente dela para essa festa.
Essa semana eu estava conversando com uns amigos (e quem dera você estivesse entre eles, querida) e eu cheguei à conclusão que trabalho não é uma categoria que me define. Quando eu penso em me apresentar, o que faço como labor não é uma das dez primeiras coisas que digo. Ler, é. Eu leio. Sou uma pessoa assim: que lê. Nem sempre boas coisas, nunca tive muito critério neste aspecto: uma série de letrinhas enfileiradas cheirando a narrativa já me encantam. Por isso, no primeiro momento, achei que escrever sobre um livro pra esse blog que amo, que leio todos os dias, que generosamente nos oferece informações e sedução sobre livros - e, a mim, propiciou um além: uma amiga - achei, neste primeiro instante, que seria fácil.
Claro que foi uma impressão passageira, logo lembrei  da minha dificuldade de falar sobre os livros. Não tenho problema em discorrer sobre meu cotidiano, sobre filmes, sentimentos, gravuras, memórias. O problema não é de pudor nem, especificamente aqui e hoje, de escolha. O problema é de bom senso. Como, penso eu, conseguiria tratar melhor de um livro que me cativou e que, portanto, foi bem escrito aos meus olhos, melhor do que ele mesmo já se diz? Como apresentar senão em trechos e citações correndo o risco do tédio e chateação dos visitantes do seu blog, amiga? E, principalmente, como dizer algo de um jeito novo e estimulante, eu que sou tão clichê e escolhi o óbvio do óbvio? Escolhi
Orgulho e Preconceito, Jane Austen

inicialmente, por motivos fracamente defensáveis, mas definidores de mim. Escolhi porque é um dos livros que me fazem ser quem eu sou. Percebi, escrevendo sobre ele, que eu tenho dificuldade de dizer por que o aprecio. Só sei que gosto.  Que estar com ele me faz mais feliz, me faz até mais bonita. Que ele me faz companhia, que me consola, que me comove, que me reorganiza. Notei isso um tantinho observando que é ele quem, quase sempre, está aqui, na cama, no topo da pilha, a não ser quando está na mala. Não viajo sem ele.
Então, mãos á obra: o certo é que os livros de Jane Austen me encantam. Narrativas aparentemente leves e todos os dramas humanos numa sucessão de tirar o fôlego. Em Orgulho e Preconceito é bem assim: uma visão superficial parece indicar tramas românticas e crítica de costumes, mas Austen nunca pode ser definida por “só isso”. Tal como uma cebola, camadas e camadas em seu texto, e logo se destaca a reflexão que os personagens fazem de seus próprios atos e desejos, não de uma forma moralista, mas com uma sutil ironia. Eu gosto. Gosto muito. Jane Austen usa a ironia pra direcionar o olhar do leitor, ilumina algum ponto, algum aspecto da história que revele falhas da sociedade, sem que isso surja como discurso doutrinário, sem perder ritmo, sabor, leveza.
E os personagens? Consistentes, palpáveis, humanos. No lugar de uma construção maniqueísta o que se vê é um desvelar de complexidade, não só nos ricos protagonistas como também nos aparentemente estereotipados personagens de apoio como a mãe, a melhor amiga, a tia malvada. Não é o óbvio que os impele, o texto apresenta sempre uma variável insólita e tão humanamente pungente.
Na sequencia das virtudes de Orgulho e Preconceito, devo ressaltar a fluência e leveza natural - aliadas à já mencionada ironia – na construção das sentenças, nas descrições, nos diálogos. Um momento de reverência para os diálogos. Farpas sutis, polidez debochada, alfinetadas afiadas e aquela fleuma que me acostumei a vincular aos ingleses fazem desses momentos experiências saborosas e memoráveis. Nesse quesito, destaque para os diálogos em que Mr. Bennet está presente.  
Gosto de Mr. Darcy. Não, isto é inexato e incompleto. Na verdade, eu tenho é vontade de pular no colo dele e tirar, num susto, a arrogância daquele rosto perfeitamente belo (eu que acho que ele é perfeitamente belo, claro). É uma maravilha acompanhar como o personagem que vaidosamente se comporta com superioridade moral e intelectual, vai se tornando mais vulnerável, questionador, generoso, afável. Ah, quem, não quer dar cafuné em Mr. Darcy?
E aí vem Lizzie. Elizabeth Bennet. Protagonista, não exatamente heroína. Porque ela se afasta do modelo geral: nada de melodramas pra ela ou exacerbados gestos românticos. Ah, não. Moça pé no chão, analítica a respeito do seu mundo e de si mesma, atenta aos fatos, aos comportamentos sempre buscando compreender as pessoas ao seu redor, suas motivações e limitações. E, claro, aquele sutil véu que nos acompanha quando se trata de lidar com nosso próprio desejo. É assim que Lizzie se apaixona mas não se ilude, não fecha os olhos para o adverso.
Não dá pra deixar de mencionar o jeito mordaz como certas prendas femininas são apresentadas: "Acho incrível", diz Bingley, "como todas as jovens têm tanta paciência para cultivar todos esses talentos". (…) "Todas pintam, forram biombos e fazem bolsas. Não conheci uma que não saiba fazer tudo isso, e estou seguro de que jamais me falaram de uma jovem pela primeira vez sem referir-se a quão talentosa ela era". E o livro é mesmo cheio de mulheres. Mulheres ferinamente dissecadas, talentos soberbamente minimizados e, ao mesmo tempo, são as mulheres os personagens centrais e decisivos. Elas têm tão pouco poder na sociedade retratada e, mesmo assim, são elas que conduzem a história.
Bom, aí depois de tudo isso dito, momento confissão e spoiler: eu curto o final feliz. Gosto mesmo. Gosto de pensar que o amor pode ser tolerante e forte. Chamado inicialmente (e adequadamente) de Primeiras Impressões, Jane Austen escreveu este livro antes de completar 21 anos. Isso, penso, talvez contribua para o frescor do texto e, talvez, determine o tal final feliz.
Orgulho e Preconceito tem uma das mais encantadoras e hilárias frases que já li: “é uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro que possui uma grande fortuna deve estar à procura de uma esposa...” Ao lado desta, rivalizando constantemente temos as tiradas de Mr. Bennet como: “Está enganada, minha cara. Tenho muito respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Venho escutando você falar a respeito deles com grande consideração, pelo menos durante esses últimos vinte anos”. Não se pode negar que ler Jane Austen é fazer contrato de bem-estar. Orgulho e Preconceito: um livro que revela uma autora lúcida, personagens bem trabalhados e uma história com reviravoltas suficientes pra prender a atenção. Como eu dizia na minha pré-adolescência: Mr. Darcy é o meu.
Luciana
SOBRE O AUTOR
Jane Austen (1775 –1817) - famosa escritora inglesa, suas obras são clássicos da literatura. O uso da ironia em sua obra é objeto de estudos até a atualidade. Publicou Orgulho e Preconceito em 1813. A Editora Martim Claret a publica no Brasil.

16 comentários:

Lufe disse...

Oi Jussara,

É amiga,só você mesmo para nos apresentar este gracioso especime da ordem lepdoptera.
Nesse aniversário, você nos da os presentes.
Que sorriso gostoso tem essa moça e que sensibilidade para descrever o texto de Austin.
Se ela diz que tem dificuldade para falar dos livros, imagina então no dia que não tiver.....
Me deu curiosidade de conhecer essa Grauna e conferir se ela tem as qualidades da Grauna do Henfil....rsrs

Um bjo pras duas

Celina Dutra disse...

Oi Jussara, obrigada por nos trazer a Luciana, um grande presente seu texto sobre Jane Austen. "ler Jane Austen é fazer contrato de bem-estar", amei esta frase, Luciana! Imagino se não tivesse receio em falar sobre livro...rsrs Resenha que torna obrigatória a leitura de Orgulho e Preconceito.

Girassóis nos seus dias Jussara e nos dias da Luciana
Beijos

M. disse...

1ª Coisa mais preciosa que um amigo, não há:) E de facto tem um sorriso fabuloso.

Em relação à Jane Austen e ao livro, está na prateleira para ser lido...lol

A tua capacidade de "comentar/analisar" é espantosa. Gosto de pessoas que sabem ler:)

Luciana Nepomuceno disse...

Lufe, é justamente a Graúna do Henfil que me inspira. Obrigada pelo comentário tão simpático e generoso. A Jussara tem os melhores leitores.

Celina, nem sei do que gostei mais, se do comentário tão elogioso aqui ou se da visita tão bem vinda lá. Um beijo.

M., amigos são dádivas e a Jussara é daqueles presentes inesquecíveis mesmo.

Jussara, um enorme e comovido obrigada não só por me acolher no seu blog mas pela apresentação tão carinhosa. Um grande e saudoso abraço.

Edlena Franklin disse...

Jussara
Tão bom ler palavras honestas, de apreciadores do belo, e que trazem um gostoso sorriso de brinde!
Luciana
Também gosto porque gosto de Jane Austen, me transporto e me acalmo com o texto, com direito a algumas risadas pelas excentricidades de Mr. Collins...
Beijos para as duas!

Rogério Pereira disse...

Para quem afirma antes, não saber falar de livros, que aconteceria se o soubesse? O texto é óptimo. Ter ou não lido ou ter ou não gostado é assunto que, dada a qualidade do texto, não merece ser comentado...

Luciana Nepomuceno disse...

Edlena, claro, Mr. Collins! E, pra ser sincera, sempre me comovo quando Charlotte explica os motivos pelos quais vai casar-se com Collins. Obrigada e beijo pra você também.

Rogério, os leitores da Jussara realmente sabem fazer-nos sentir em casa. ;-)

Luma Rosa disse...

Senti vontade de reler o livro. Existem impressões que nos despertam e essa foi uma delas. Pois não é que vira e mexe, Jane Austen me cutuca?
Luciana, parabéns pela doce e dedicada resenha. Jussara, obrigada por apresentar a Luciana. Vou lá conhecer seu blogue!
Beijus,

A. Marcos disse...

Jussara....não gosto de Jane Austin. Muito melodramática.

Luciana Nepomuceno disse...

Luma,obrigada pela visita, foi muito bom receber teu comentário lá. Um beijo

A. Marco, engraçado, hoje eu estava lendo um artigo que dizia o contrário. Antes de Austen (e contemporâneos dela) as histórias eram complexas e melodramáticas com personagens simples e com Austen vieram as histórias mais simples e personagens complexos. Mas, claro, gosto é gosto. Obrigada por ler.

Mônica disse...

Ju, foi ao Borboletas nos olhos e à Eu sou uma graúna, ai me convenço de que eu sou muito feliz de fazer parte das Palavras vagabundas, pois todos os seus amigos são especiais, e se estou aqui, me sinto um deles. Mas você sabe mesmo apresentar um amigo, quanto carinho! Adorei seu post e mais ainda a resenha a resenha da Luciana, pois é muita responsabilidade resenha uma obra de Jane Austen e ela o fez com leveza e meiguice. Adorei, e com certeza, Elizabeth Bennet também ficaria orgulhosa.
Beijos

Misturação - Ana Karla disse...

Jussara, encontramos pessoas do nada que podem completar nosso pensamento. Assim como você disse: do nada.
Passo para desejar-lhe um ótimo final de semana.
Xeros

Cinderela Descaída disse...

Tempos atrás vi em uma matéria na internet (uma dessas bobagens divertidas) uma pesquisa sobre com qual personagem o leitor (a) iria para a cama. Minha escolha: Mr. Darcy, claro!
Ele é um apaixonado, conflituado, mas, na verdade, um homem honrado.
Eu aodrei ler Jane Austen. Muitos fazem críticas á ela, mas é importante ressaltar que ela era uma mulher em uma época que isso era difícil até na Inglaterra. E o humor dela é afiadíssimo.

Clara disse...

Jussara, eu não conhecia a Autora e nem o livro. Mas vou guardar a dica.

Vim te agradecer pela visita ao meu blog e retribuir o carinho.
Obrigada, viu!!

Beijossss

Mayara disse...

Oi Jussara e Lucina! Eu sou apaixonada pela Jane Austen, e confesso que sempre quis clocar Mr. Darcy no colo rsrsrs Ao contrário de todas as moças do mundo (aparentemente) eu não sou nada prendade: tudo o que eu sei fazer é ler. Ler e ler mais depois...

Pandora disse...

Ai que delicia de resenha!!! Darcy é meu amor de adolescencia, meu amor de juventude, meu amor de sempre!!! E quem ler esse livro e não se apaixona! Embora Orgulho e Preconceito não seja O livro da minha vida, já li ele mais vezes do que posso contar e tenho em Jane Austen um porto seguro.... Quando a vida táh chata vou lá e mergulho nas histórias dela, na forma como ela narra, tiro mais uma casca da cebola! E sim, essa resenha me lembrou uma série que vi essa semana e que táh enchendo minha imaginação: "Lost in Jane Austen" já pensou se nós, apaixonadas convictas por Darcy pudessemos entrar no mundo dele e viver esse amor?!?! Que sonho!!!!

Amei a Luciana, me inspirei!!!