domingo, 23 de outubro de 2011

À margem do rio, mas não da vida

As aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain

Eu já quis ser Tom Sawyer, mas nunca quis ser Huckleberry Finn! Hoje sei que quando li o livro pela primeira vez ele era somente a continuação de As aventuras de Tom Sawyer, quando na verdade ele é muito mais que um livro de aventuras e é muito mais profundo.  Mark Twain pegou personagens já conhecidos e fez das aventuras de Huckleberry um painel da sociedade americana interiorana do século XIX, com seus preconceitos, sua religiosidade tacanha, sua ingenuidade, seu analfabetismo e seu isolamento geográfico.
Huck é um garoto criado nas ruas e becos de uma vila a beira do Mississipi, dá a sorte de encontrar um tesouro e passar a ser de “bem” e é adotado por uma viúva bem intencionada; assim acaba As aventuras de Tom Sawyer e assim começa As aventuras de Huckleberry Finn. Huck se encontra mal adaptado às regras da viúva, literalmente de saco cheio daquela sociedade mesquinha, repressora e redutora, para completar tem um pai alcoólatra, maldoso, interesseiro e mau caráter. O pai praticamente o sequestra e o mantêm em cárcere privado em uma ilha no meio do rio. Huck começa então sua aventura, foge do pai em uma balsa para descer o rio e ficar o mais longe possível da cidade, do pai, do Juiz, da viúva e da escola. Ao começar sua fuga encontra Jim, um escravo negro, que ele já conhecia e chama de amigo. Começam a descer pelo rio, meio sem rumo, sem destino certo e têm como meta ir para o norte, onde não há escravos. Pelo caminho vão encontrando todo tipo de gente, que hora os explora como os dois escroques Rei e Lorde, hora gente ingênua que estão tão cheios de boas intenções que acabam mesmo pavimentando o caminho do inferno.  Algumas vezes Huck e Jim se separam, mas logo adiante se reencontram, como só navegam a noite – são dois fugitivos – conversam sobre o que observam e crescem como seres humanos após cada curva do rio. Vivem entrando em confusão na velha tentativa de sobreviverem, por isso mentem, se enrolam e roubam. Ao mesmo tempo procuram serem justos e proteger os injustiçados, Huck (por ser branco) é quem mais sofre os dilemas que se apresentam, ele os resolve da melhor maneira possível e arca com as consequências de seus atos. Huck se torna livre e conquista sua liberdade em cada remada pelo rio Mississipi. Não queria e não quero ser o Huck, mas tenho a maior admiração por ele.
As aventuras de Huckleberry Finn é considerado, por alguns, um livro racista, principalmente por que em inglês são usadas palavras com essa conotação, o livro não é racista. Racista era a sociedade retratada e Mark Twain não teve a menor cerimônia em mostrar isso, o livro foi publicado em 1885 e está na primeira página que a história se passou há mais de 40 anos, na época que precede Guerra Civil Americana. Além do que o autor usou o modo de falar da época inclusive a fala “errada” de escravos e matutos.  Huck em seu maior dilema opta em fazer o certo, para ele e não para sociedade. Jim está preso como negro fugitivo, Huck decidi roubá-lo para dar lhe a liberdade, por que ele é seu Amigo então filosoficamente ele diz a si mesmo:
“- Tudo bem, então, eu vou para o inferno!”
Como diz o próprio Mark Twain em seu aviso aos leitores: “As pessoas que tentarem encontrar uma razão para esta narrativa serão processadas; as pessoas que tentarem encontrar uma moral serão banidas; as pessoas que tentarem encontrar um enredo serão fuziladas.” Dá para deixar de ler um livro com tal aviso? Não, não dá.
A editora L&PM em sua coleção Pocket publicou este ano, com o texto na íntegra, uma nova tradução de Rosaura Eichenberg foi a que reli e recomendo vivamente. Antes eu que me esqueça, o preço é ótimo!
“Toda a moderna literatura americana procede de um livro de Mark Twain, Huckleberry Finn.” Ernest Hemingway
SOBRE O AUTOR
Mark Twain (1835-1910) - pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens, nasceu e foi criado às margens do Rio Mississipi e nele trabalhou como piloto de vapores, advindo daí seu apelido. As aventuras de Huckleberry Finn, foi publicado a primeira vez em 1885.

18 comentários:

Sandra Portugal disse...

Nossa eu t5b já quis ser Tom Sawyer!!!
Tenho uma ótima notícia!
ProjetandoPessoas, pela primeira vez no Prêmio TOP BLOG, na lista dos TOP 100 na categoria Variedades! Estou MEGA FELIZ e Emocionada!!!
Além do orgulho de ter a popularidade dessa votação(através do apoio dos amigos), a honra de obter a análise de um júri acadêmico!!!!
Ao segundo turno, rumo aos TOP 3!!! Agradeço a todos e especialmente a você que muito me inspira pelo trabalho no seu blog!!!
http://projetandopessoas.blogspot.com//

Luciana Nepomuceno disse...

Já estava com saudades...e que post ótimo. Livro que adoro, reflexões que dão vontade de reler, dicas..tudo de bom. O Milton Ribeiro também gostou da nova tradução e fez um belo post também:
http://miltonribeiro.opsblog.org/2011/09/27/as-aventuras-de-huckleberry-finn-de-mark-twain/

Celina Dutra disse...

Vontade de ler rapidinho. Amei a resenha (como sempre)! Ás vezes é preciso e faz bem não ser politicamente correto como vc nos diz do Huck.
Girassóis nos seus dias. Beijos

Lufe disse...

Oi Jussara,
Resenha deliciosa.
Gostei da sua postura ao dizer que um romance que retrata a sociedade de uma epoca, ao nos trezer a tona o seu modo de vida, seus valores e os seus preconceitos não pode ser tachado como um livro racista ou que mesmo faça apologia a ele. Somente o fundamentalismo do politicamente correto poderia pensar asim.
Godstei da dica do pocket, pois não tenho mais nenhuma edição dele e gostaria de relê-lo.

bjo procê

Luis Eustáquio Soares disse...

sempre resenhando impossíveis.
sempre resvalando impossíveis
sempre vivendo impossíveis
em críveis, porque incríveis,
leituras, como essa de mark twain.
b
delamancha

M. disse...

Que bem que me soube ler-te...Tanta memória...Tanto tempo que passou e ainda perdura...

Deveria ser obrigatório ler Mark Twain:)

Pandora disse...

Deu vontade de ler!!! Fiquei curiosa com os detalhes historicos da obra!!!
Muita embora não tenha lá muita simpatia pelo Mark Twain, não me pergunte porque, li apenas um livro dele e fiquei com essa peitica... rsrs

Regina Rozenbaum disse...

Esse me fez remexer no baú das memórias literárias...vou incluí-lo na lista de releituras... que só cresce.
Beijuuss n.a.

Cinderela Descaída disse...

Comprei uma versão em inglês para treinar, mas acabou sendo uma ideia má.
E a patrulha do politicamente correto queria proibir esta obra nos EUA...como pensaram os politicamente corretos (e tolos) aqui com Monteiro Lobato.
Ah, esqueci de te contar. Li o John Fante (em inglês). Gostei bastante.
Boa semana!

Juliana disse...

quero ler agora!

Inaie disse...

Vai vir pras minhas festas? Nao senhora. vem que eu faco uma festa SO pra voce...

Jussara, voce faz os seus leitores viajarem nos livros que ainda nem leram. Esse e um talento e tanto!

E quer saber? Eu fico me perguntando se vc escreve tao bem sobre os livros alheios, o que aconteceria se vc comecasse a escrever o seu?

Hem? hem?

Enquanto vc pensa nisso, vai la e entra no concurso de scrap booking digital do meu blog, pelo emnos vc pode fazer um album da hora pro netinho!

Lufe disse...

Olha eu aqui outra vez.

Voltei porque me lembrei de um comentario de um cara sobre os escritores e suas obras e complementa o comentario anterior:

“Escrever é gravar reações psíquicas. O escritor funciona qual antena e disso vem o valor da literatura. Por meio dela, fixam-se os aspectos da alma de um povo, ou, pelo menos, instantes da vida desse povo.”

Quem disse isso foi o filho da Dona Olímpia, o Zé Bento, que ficou mais conhecido pela alcunha de “Monteiro Lobato”

bjos procê

Marly Bastos disse...

Resenha que me fez recordar a leitura desse livro. Parabéns pelo texto maravilhoso.
Beijokas doces e uma semana de paz

Cissa Branco disse...

Ju,

Adorei a resenha, e embora não seja meu estilo preferido já está na listinha do Felipe, para quando ele tiver maior. Achei fundamental algo que vc colocou no texto, a ideia da obra ser racista. Fico muito preocupada com isso, porque na nossa sociedade do politicamente correto estamos banindo da história tudo o que já ocorreu e isso leva ao esquecimento, e o esquecimento faz com que se repita. Isso é um fenômeno mundial, a ideia do não se falar, esquecer, e isso me preocupa demais, pois sob a bandeira do "faça a coisa certa" estamos negando nossa história.
Me revoltei agora, viu?! Rs, vez ou outra isso acontece, rs, minha monografia foi sobre o tema "Amnésia Oficial" sobre a ditadura militar no Brasil de 64 e como as pessoas não querem discutir o ocorrido, como se isso fizesse com que ele deixasse de existir.
Viu, estou viajando, isso que dá visitar as amigas no meio do expediente, kkk.
Grandes beijos

Celia na Italia disse...

Mais um para uma futura leitura.
Ai, ai, ai o problema é tanta "provocação" e tão pouco tempo >(

José Sousa disse...

Olá minha querida amiga Fernanda!

Por motivos de doença depreciva,tal como sabes, não tenho podido comentar em meus seguidores e nem postar em meus blogues.
Mas hoje já me encontro bem melhor, então vim te ler e me deparei com este belo texto bem enrriquecedor para meu conhecimento! É sempre bom te ler!

Beijo grande em tua alma.

Mônica disse...

Ju, eu já li este livro. Mas você foi remexer no meu bau, foi?
Adorei relembrar esta aventura maravilhosa.
bju

Daniel Brazil disse...

Beleza de livro! Até hoje me influencia. Lembro de certas passagens, 40 anos depois de ler.