domingo, 16 de outubro de 2011

Mais do mesmo e sempre aprendendo!


Gosto de comemorar algumas datas aqui nessa casa e o Dia do Professor não podia passar em branco, afinal todos nós, alfabetizados, um dia passamos nas mãos desse profissional, todos temos alguma lembrança dos tempos de escola.  Todo mundo que prestou homenagem nesse dia falou da importância deles em sua vida, de uma professora inesquecível, como fiz o ano passado, ou das agruras da profissão.  Eu vou deixar um professor falar, não de sua atuação em sala de aula, mas com seu conhecimento. Gosto muito dele e me sinto muito envaidecida toda vez que ele comenta um post, afinal o Foureaux é um especialista na área, mora em Minas e possui um humor que muito me agrada.  O comentário foi feito sobre Inocência, minha postagem para o Desafio Literário do mês de agosto, o guardei para postá-lo nessa data. Obrigado querido professor!

Peguei carona na sua excelente postagem para o "desafio". Menina... que leveza de percepção e que agilidade de expressão. Ai que inveja, Pois então... Peguei carona e apus alguns comentários a seu texto. Se você autorizar gostaria de colocar o texto que aqui segue em meu blogue. O que está entre parênteses era para sair em vermelho, mas não sei se é possível fazê-lo e, se for, como fazê-lo. Parabéns! Veja aí... ;-)
Inocência, Visconde de Taunay

Eu podia estar lendo Machado, Aluízio de Azevedo, Alencar ou até mesmo Macedo! Mas escolhi ler o único romance de Taunay para Desafio Literário deste mês, que contempla os clássicos brasileiros. (As escolhas são sempre um sinal de “afinidades eletivas”. Quanto a estas, nada a questionar. A liberdade é o principal signo da literatura!) Inocência é daqueles livros que são incensados pelos acadêmicos de plantão e odiados pela turma que vai fazer vestibular. Tanto uns quanto outros têm razão. (Concordo com você, ainda que não me sinta muito à vontade para subscrever o “incenso”... No fundo, isso não passa de uma convenção falaciosa...) Esta é a terceira vez que leio o livro, da primeira leitura tenho poucas lembranças e provavelmente não gostei, na segunda vez que li, fiz isso por que estava na lista de livros do vestibular (jamais escolheria por livre e espontânea vontade) mas diria que apreciei um pouquinho mais, mas isso se deve a um excelente professor de literatura que destrinchou o livro para um bando de adolescente que só engoliu tudo aquilo para passar na prova do vestibular. (Você acertou na mosca: sinceridade e reconhecimento. Com o tempo, a gente vai escolhendo as leituras e perdendo o receio de se posicionar quanto a estas escolhas. Por outro lado, penso que o professor de literatura não tem outra função a não ser esta: ‘destrinchar’ o texto. Uso a expressão ‘instrumentalizar a leitura’ – de fato, é o que fazemos. Mais que isso é o acréscimo da experiência da própria leitura que vai fazendo amadurecer a acuidade crítica – que não se ‘ensina’. Também sou sincero...) Essa leitura de agora foi mais madura, mas... porque eu não escolhi um Machado? Um Lima Barreto? (Viu só... de certa forma eu tenho razão! O que não é vantagem alguma...)
Inocência conta a história de um prático-farmacêutico, Cirino, que nos cafundós do sertão de Mato Grosso é recebido numa fazenda para cuidar e medicar Inocência que sofre de maleita, lógico que ele se apaixona, lógico que o pai não gosta, lógico que ela está prometida para outro e lógico que acaba em tragédia ou não seria um livro do Romantismo. (A lógica do Romantismo é um tanto perversa pois, ao mesmo tempo em que sublima uma série de valores e aspectos culturais, deixa escapar, eu diria, inconscientemente, tantas outras da ordem do instintivo, do animal. Amor e desejo é a dicotomia, penso que, que reina” sobre o universo representacional desse período da História da cultura ocidental. Isto entre outras coisa, é claro!) O livro tem qualidades, por isso os acadêmicos gostam (Há acadêmicos e acadêmicos, segundo o adagiário...), ele não é puramente romântico nem puramente realista, está no meio termo. (Será mesmo? Sei não... Minha chatice não deixa de implicar com essa expressão “meio termo”.)  Como Taunay (nosso único Visconde) era um engenheiro militar, inclusive tendo lutado na Guerra do Paraguai, descreve o sertão como ninguém – ele conhecia de perto do que estava falando e tinha alma de geógrafo – mas por que, meu Deus! descrever em páginas e mais páginas uma estrada! (Claro que você se lembra de Os sertões. Lá também eu vejo motivo para fazer a mesma pergunta. Toda a primeira parte do “romance” é recheada de descrições geográfico-geológicas. Praticamente uma chatice. Mas quando chega na cena em que o narrador compara o azul do céu com o dos olhos do soldado morto, eu chego quase às lágrimas com tanta beleza e lirismo... Vai entender!) Nosso Visconde também foi um pioneiro em escrever os diálogos em linguagem coloquial e regional, o que empresta aos seus personagens uma verdade no tempo e no espaço, mas torna o livro, hoje, bem complicado de ser lido! (Eu diria que a “complicação” se deve muito à falta de “treinamento” em leitura do que do texto em si. Se nossa cultura de leitura – hum... que eco horroroso! – não nos forma como “leitores”, a dificuldade é certa. O texto é matéria viva que corresponde a uma série bem intrincada de fatores. Mas a leitura é mestra que vence obstáculos, desde que bem consolidada, antes de mais nada... A pensar!) Principalmente para os pobres vestibulandos (Pobres??? Agora eu me arrepiei, mas como já disse, sou um chato!), eu gostei da linguagem, vejam só que graça: “não há menina que hoje não deixe de ir à fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha com qualquer talufão... pois pelintras e beldroegas não falta...” juro que não é ironia! (O vocabulário é mesmo alambicado. Mas tente uma brincadeira: substitua os termos “antigos” pela gíria da ‘jeneusse dorée’ de hoje. Você verá que transparece algo de absolutamente fresco, atual, mais que conhecido ‘nowadays’!) Eu poderia dizer que meu personagem inesquecível desse livro é Cirino o moço romântico, ou Inocência e sua beleza meio doentia ou até mesmo seu pai, Pereira com suas ideias retrogradas e sua certezas gravadas em pedra, mas nenhum deles me marcou, desde a primeira leitura eu me indigno, fico com raiva e tenho vontade de dar uns tapas em Tico, o anão mudo e raquítico, que de guardião de Inocência passa a ser seu algoz. Ao se falar desse livro sempre me lembro desse tipinho! (A Sociologia do romance agradece, envaidecida, a sua observação mais que arguta!)
Inocência é um clássico da literatura brasileira que merece ser lido (Harold Bloom, Ítalo Calvino, George Steiner e Cristóvão Tezza fazem coro aqui!), com paciência e tempo, para se poder apreciar o que ele tem de bom, pois os tipos humanos são bem característicos da época e do sertão, temos até mesmo um naturalista alemão que só pensa em borboleta, vemos como o comportamento social é rígido e as regra familiares são imutáveis, palavra dada nunca é retirada mesmo que isso leve a uma tragédia. (Estes não são alguns dos fundamentos do Romantismo/Realismo?) Em certo sentido é um romance regionalista, uma novidade na época, pois Taunay soube unir seu profundo conhecimento da natureza pura dos rincões do país e a sua aguda observação da vida social do sertão em um livro romântico. (Depois de algum tempo lendo e estudando Literatura Brasileira eu ousaria afirmar que o substrato dela é a noção de regionalismo – em amplo espectro. Concorda? A situação colonial, penso eu, é a responsável pela elaboração do processo de constituição e manutenção de um espírito “nativista” que, ao fim e ao cabo, não deixa de ser uma das metáforas do próprio regionalismo ou Regionalismo, ‘either way’) Existe um filme sobre este livro de 1983, dirigido por Walter Lima Jr, tendo o Edson Celulari e a Fernanda Torres como protagonistas, eu vi na época e gostei, fica aqui a indicação.
Foureaux

24 comentários:

Inaie disse...

Ah minha amiga querida, fico imaginando o que vai ser de mim, da minha vida, dos meus dias quando esses passarinhos decidirem bater asas.

Acabei de ler Amazonia 20 andar. Vc ja leu?

Bj imenso e Feliz dia do Professor, vc que tanto ensina e compartilha...

Amor

M. disse...

Os professores merecem muita mais:) Mundo ingrato...

Do restante: sempre interessante. Contigo aprende-se, o que já é muito:)

Adelaide Araçai disse...

Realmente, esse seu comentárista vleu por uma homenagem e tando.
Eu vi o filme e também gostei, vou buscar o livro para ler, já foi para a lista.

Muita Luz e Paz
Abraços

Fatima Valeria disse...

Ai! suspiro aliviada, e preenchida, que bom, que bom...Abraços

Ivan disse...

Ser professor é ser herói, no Brasil é ser mais ainda. Ah, tenha orgulho do teu blog!
Abraço

Deusa disse...

Amiga...eu li letra por letra,claro tive alguma dificuldade de entender,então li e reli,afinal trata-se de um professor a escrever sobre esta obra,não li este livro.Você fez uma bela homenagem.Nada como ler a opinião de um homem(a)culto.
Deusa

Deusa disse...

Sobre o Gibi...a amiga,agora me sinto melhor...kkkk...Maitê ja le,tudo o que ve,eu ando sempre comprando livros e mais livros para ela,são de historias de princesas e várias outras,me da um prazer tão grande vendo minha pequenininha lendo,eu sempre fui ótima em redação,então eu a ajudo a escrever uma histórinha,ela ja tem varios livros viu? Todos com o nome do autor,acho a maior graça.
Então que na banca de Jornal la de Jundiai,minha menininha quando tinha quatro anos se apaixonou pelas historinhas da Mônica,como não sabia ler,eu tinha que ouvir horas e horas de historinhas inventadas...ficava numa duvida se deveria comprar mesmo os gibis,mas ela adorava,tenho uns 20,mas agora esta lendo...cada gibi...estava deixando meio a contragosto,mas agora,vindo de você esta opinião...vou deixa-la comprar a vontade.
Bjs
Deusa
vasinhos coloridos

Bia Jubiart disse...

Oi Ju!

Já li o livro faz um bom tempo... O filme também. Lendo aqui, lembrei-me de um artigo da revista VEJA, "falando" da parca abordagem da literatura brasileira nas prova do ENEM... Uma estatística lamentável!

Um bom início de semana p/ vc!

Beijoooooooooo

Celina Dutra disse...

Jussara querida,

Bela maneira de homenagear os professores, trazendo-nos um Mestre para nos dar uma grande aula! Parabéns e obrigada a você pela iniciativa e generosidade. Parabéns e obrigada ao Mestre Foureaux, pelo dia dos professores e pela aula!
Girassóis nos dias de ambos. Beijos

Pandora disse...

Amei acompanhar essa conversa entre dois leitores experientes, deu até vontade de ler Inocência, esse livro não estava na minha lista do vestibular rsrsrs... Infelizmente rsrs...

Bem, o século XIX é o meu século xodô, meu primeiro recorte de estudo sério como Historiadora, sou apaixonada pelo romance dessa época, a forma como os literatos ajudam a construir um país chamado Brasil e um povo chamado brasileiro a partir de suas linhas, talvez por isso a necessidade de descrever detalhadamente certas coisas, de enaltecer outras, afinal se hoje, séculos depois, nós ainda sofremos de desconhecimento crônico a cerca de vários lugares e povos do Brasil, imagine no século XIX?

Amei \o/, como sempre aliás!

Mônica disse...

Este livro é muito bom, pena que seja tão pouco lido nas escolas. Mas é uma exemplo de um bom Romance do Romantismo.
Bela homenagem aos professores!
Bju

Cissa Branco disse...

Ju,

Que delícia de post, para ler e reler, e a cada leitura acrescentar opiniões. Adorei os pitacos do professor, especiais e essenciais).
Grandes beijos e parabéns a todos os professores.

Glória Maria Vieira disse...

Que delícia de comentários, de poste!

Regina Rozenbaum disse...

Zelu é especial e vc soube bem, muito bem mesmo, escolhê-lo para fazer essa homenagem! Eu hoje faço a minha (todos os dias são, né?)por meio daquela Escola que chamo de nossa.
Beijuuss, amada, n.a.

Regina Rozenbaum disse...

Ah, a despeito desse moço ter PHD no currículo, ele o é na vida e no humor(refinadíssimo).
Bjus

Misturação - Ana Karla disse...

Nossa, não sei nem o que dizer.
O nível é alto e fico a entender e refletir.
Um xero grande.

Lufe disse...

Oi Jussara,

Parabés a você, minha atual professora de literatura.

Você foi muito feliz ao publicar esta "conversa" com o Foureaux.
É muito gostoso quando alguem comenta com essa intensidade os nossos textos, não é mesmo?
Quanta lucidez, o que só faz enriquecer mais ainda a sua excelente critica sobre Inocencia.

bjos

Celia na Italia disse...

Texto perfeito e linda homenagem!
A vc em especial um abraço e muito obrigado por dividir com a gente um pouco deste mundo de fantasias e realidades que, com maestria, vc consegue colocar no papel!

A. Marcos disse...

Gostei de saber que alguém aqui lê HQ....rs

Jacqueline Braga disse...

oie, obrigada pela visitinha lá no blog.
Já te linkei lá.
bjos

Fê-blue bird disse...

Um comentário com esta dimensão humana só pode encher o seu peito de orgulho.
Embora atrasada desejo felicidades a todos os professores, profissão que tanto admiro.

beijinhos

Larissa, Lara, Lalá, .... disse...

Lembrei muito da minha mae lendo seu texto. Lembrei da luta dia'ria dela com seus alunos anos apo's ano ate' hoje.

Luma Rosa disse...

Ui!! Isso não é um comentário, é um super tratado!! Maravilha... Quem dera os leitores fossem tão dedicados na análise dos livros.
Parabéns ao professor! Parabéns Jussura pela apresentação! Quanto ao livro, só decidi ler após conhecer o local onde o Visconde conheceu Jacinta, dedicado Memorial por Inocência, réplica do sobrado “Melo Taques” no município de Paranaíba.
Beijus,

Misturação - Ana Karla disse...

Viva sempre os professores!
Bom final de semana
Xeros