domingo, 9 de outubro de 2011

As estrelas dormem de dia!

Ilustração Álvaro Cunhal

Hoje é dia de cozido português, substancioso, cheio de embutidos, legumes e carnes, tudo junto, mas cada qual guardando  seu sabor, assim também é o Rogério em suas conversas. Fala de tudo um pouco, política, netos, canções, atualidades, férias e livros. Um leitor apaixonado e tendo sua paixão maior respondendo com o nome de Saramago. Eu sou uma leitora fiel dele, gosto muito de sua prosa saborosa e espero com ansiedade seu livro. Sim, ele está a terminar um livro em que fala da guerra em Angola, Caminhos do meu navegar, isso se ele não se decidir por outro nome, espero que não! O Rogério é um leitor atento de meus textos e sempre tem um comentário poético e sincero, ele já me presenteou com um poema da Florbela Espanca e eu já publiquei aqui um dos seus poemas, Lenga-lenga. Seu presente para essa festa é uma delícia!

Dois livros marcantes
Há livros que não só nos marcam como passam a fazer parte da estrutura do nosso sentir (se é que o sentimento é coisa estruturada) e dos valores que lhe dão expressão. Livros que nos (re)iniciam na leitura. Refiro dois, lidos com pouco intervalo e quando era ainda entrara na adolescência: Esteiros de autor português Soeiro Pereira Gomes e  Capitães da Areia do brasileiro Jorge Amado. Apetecia-me escrever sobre os dois, o que têm de comum e o que os diferencia, como me marcaram e emoções que me despertaram, mas não o farei. Por falta de tempo, pelo espaço que ocuparia abusando da cortesia da Jussara e também porque a memória iria atraiçoar-me, pois é bem distante o tempo em que os li. Falarei do livro, para vos brasileiros certamente menos conhecido: Esteiros o livro que foi dedicado, pelo autor “aos filhos dos homens que nunca foram meninos”
A rua Morais Soares é uma rua singular de Lisboa por razões que um dia ainda hei-de escrever e porque grande parte do seu inicio é confinada por um muro alto que rodeia o cemitério do Alto de São João. Em frente ao portão, não usado para as cerimônias fúnebres, do outro lado da rua havia uma loja, também singular por ter dois balcões. Cada balcão dedicado a negócio diferente: de um lado, livros para uso dos vivos; do outro, flores para honrar a memória dos mortos. Eu frequentava a loja, na parte dedicada à gente viva. Comecei a fazê-lo ainda usava calções. Ia lá alugar livros, pois era esse o negócio do Sr. Cunha (sua mulher vendia flores e construía com elas palmas, cores e ramos belos). Durante anos a fio li tudo de que o Sr. Cunha dispunha: livros do Zé Fagulha, todos os da colecção de “Os cinco” e depois livros de “cobaiada” (aventuras de cowboys), policiais e até novelas de amor e dramas de “faca e alguidar”. Era literatura fraca, de enredo enredado e fácil de ler. Esgotei todos os títulos. Tudo eu li e o Sr. Cunha não renovava o estoque com a mesma velocidade com que eu lia. Sem novidades, desabituei-me de entrar na loja e os anos foram passando limitando o meu contacto com o Sr. Cunha e sua esposa e um cordial cumprimento até como recompensa por ter perdido um freguês tão assíduo. Tinha para aí dezesseis anos e a escola não tinha conseguido mais do que continuar a cultivar-me os hábitos de leitura, sem contudo a orientar. Um dia o Sr. Cunha disse-me ter livros novos e convidou-me a entrar. Tinha, tinha muitos. Temendo ele minha escusa antecipou-se a uma eventual desculpa para me negar e mostro-me um livro dizendo tratar-se de aventuras de meninos da minha idade, mas serem aventuras sérias, coisas da vida real e segredou-me: “Há coisas que precisas de conhecer”. A capa não era sugestiva, mas as ilustrações eram. Ele leu-me uma página descrevendo coisas que afinal eu conhecendo e até porque bem as conhecia acabou por me convencer a levar e a ler. Não era conhecimento era uma linguagem nova. Nova e bela e ainda não tinha até aí lido uma como ela:
“(…) Sagui quase que não pregou olho toda a noite. Pelo colmo do palheiro que fora do guarda das vinhas via ele as estrelas a tremer com sono ou frio. Sono, decerto, porque, segundo a sua teoria mal o sol anunciava o dia, elas fechavam os olhos.
- Gineto: descobri que as estrelas dormem de dia.
- És parvo.

Ilustração Álvaro Cunhal

Se bem que escarnecido, Sagui manteve a afirmação. Tinha muita admiração pelo Gineto, que tudo resolvia; mas aquilo de estrelas, ele não percebia mesmo nada.
- Atão porque é que elas nâ se veem agora?
Ninguém explicou. O Coca, que tinha pena de não saber ler, ainda disse:
- Se eu andasse na escola, sabia.
Dias depois, Sagui fez a mesma pergunta a um aluno da 4ª classe, e, como o menino se calou também, ficou desde então convencido que as estrelas dormiam de dia. Gostava delas o Sagui. Chegava a entristecer-se quando alguma riscava o céu e desaparecia para sempre, num rasto de luz.”
Li todo o livro, mas retive-o até ter dinheiro para alugar outro. Na semana seguinte, o Sr. Cunha alugou-me o Capitães da Areia. Voltei a ser seu cliente e passei a ler os seus livros novos até lhe esgotar novamente o estoque.
Rogério
SOBRE O AUTOR
Joaquim Soeiro Pereira Gomes (1909 - 1949) -  escritor português neo-realista e militante  politico, publicou Esteiros em 1941, com ilustrações de Álvaro Cunhal. Não consegui  localizar nenhuma edição dessa obra no Brasil.

15 comentários:

Celina Dutra disse...

Jussara querida,

Que presente! É daqueles que você não tem capacidade para imaginar e quando ganha fica meio bestificada. Delicioso, Rogério! Já lhe disse ser sua fã, e como a Jussara, espero curiosa, e antecipando na imaginação, o prazer da leitura do seu livro.
No meu vocabulário, este texto é delicioso!Obrigada.

Girassóis nos dias da Jussara e do Rogério.
Beijos pra vocês.

Beth/Lilás disse...

Oi, Jussara!
E por falar em cozido, acabo de vir de um almoço onde foi cozido. Muito gostoso por sinal.
E que belo texto do Rogério, passa toda sua satisfação em ter lido este livro tão rico.
um beijo grande e carioca

Rogério Pereira disse...

Jussara, sua apresentação me deixou sem palavras. Revelam um reconhecimento à atenção que lhe tenho dado que me comove. Mas fique certa: seu trabalho é, efectivamente, digno de todo o apreço. Fomentar a leitura é muito importante, e a minha amiga sabe faze-lo tão bem...

Obrigado

Teresinha Ferreira disse...

Olá Jussara,
Você sempre, você arrasando nas apresentações, com isso, vamos dando asas à nossa imaginação.
Tenha uma excelente semana.
Bjs mil

Lídia Borges disse...

"Esteiro" de Soeiro Pereira Gomes é também um dos meus livros de referência. Li-o no início da adolescência e marcou-me definitivamente pela forma como me despertou para as questões relacionadas com a vida do povo e as dificuldades e injustiças por que têm de passar.

"Capitães de Areia" e Jorge Amado estão na mesma linha. A injustiça e exploração do povo não obedece a questões temporais ou espaciais.

Um beijo

Fê-blue bird disse...

Como estamos juntas no beiral do amigo Rogério :) tinha que vir aqui apreciar este seu cantinho que me encantou e por aqui fiquei.
As palavras e a leitura são algo sem as quais a vida seria muito mais cinzenta.
um beijinho

Fê Blue Bird

Bárbara Rezende disse...

Olá Jussara vim agradecer a visita!!!

Nossa como vc escreve bem... Adorei o post!!!

bjks

M. disse...

O A. Cunhal poderia ter sido uma enorme artista plástico:)

Li esse livro do Soeiro...É agradável...Mas muito datado no estilo e no tema...Quase que diria panfletário...

Cissa Branco disse...

Ju,

Adorei as obras apresentadas pelo Rogério, até me deu vontade de ler Jorge Amado, sei que é uma falha, mas tenho problemas com ele.
Esteiros fiquei louca para ler.
Grandes beijos e parabéns ao Rogério pelo belo post.

Lufe disse...

E a festa continua em grande etilo.

Rogerio nos trouxe uma historia muito interessante da loja onde alugava livros. Locadoras nos temos, mas aluguel de livros confesso que nunca vi. E o interessante é que Lisboa sempre teve excelentes bibliotecas.

Não conhecia este livro de Soeiro e tendo oportunidade gostaria de lê-lo.
Goato muito de toda a obra de Jorge Amado e o "Capitães" esta entre os meus preferidos.

Parabens novamente a você ela festa e parabens ao Rogerio pela postagem

Deusa disse...

Oi Jussara....eu vou e volto e vou...so Deus pra me quietar...rsrsrsrs.Olha...pra mim este Blog e uma viagem,começo a ler o texto e não consigo mais sair dele...acabo de chegar de Portugal,cheguei a visualizar o cemiterio e a livraria/floricultura,o Sr.Cunha e sua esposa...o menino e depois rapaz...muito bem escrito este texto,claro ao ponto de fazer imaginar...como uma novela lida.
Desde que entrei neste blog que melhorei muiiito meu lado cultural tão singelo...a gente vai lendo e lendo e parece que vão abrindo janelinhas na mente,neurônios novos...rsrsrsrs,vão se formando....uma delicia...
Deusa
vasinhos coloridos

Luma Rosa disse...

Cozido, primeiro prato que comi quando cheguei ao Rio de Janeiro em uma casa típica. Saudades!
Lembrei de você hoje, Jussara! Logo cedinho no intervalo do jornal da manhã. E não é que colorizaram o Carlos Drummond de Andrade? (rs*)
Não conhecia o seu amigo Rogério. Fui fazer-lhe uma visita e apreciei muito o seu blogue. Lá aprendi a rebolar e aqui sobre o escritor Soeiro Gomes, até então desconhecido por mim.
Boa semana! Beijus,

Regina Rozenbaum disse...

Êita que prá essa festa tive dia e hora de chegar, mas prá ir embora tenho nauuumm! A cada dia autores que desconhecia e convidados fazem minha gula literária só aumentar...inda morro disso rsrs. Parabéns ao Rogério e a vc Ju, anfitriã inigualável.
Beijuuss n.a.

Angela disse...

Olá Jussara, que ótimo vc vir para cá em novembro. Se precisar de mais dicas de museus, pode pedir.
Beijos e um ótimo dia.

Ana disse...

Em 1976, o livro "Esteiros" foi aconselhado no programa escolar do ano que eu frequentava. Eu tinha 12anos e, lembro-me de numa tarde de domingo irmos a Alhandra. Há nossa espera um "velho" operário que nos mostrou o rio e os esteiros que ao rio se ligavam. Respondia às nossas perguntas para que soubéssemos que os "Esteiros" não eram um livro de aventuras mas passagens reais de gente que como ele tinha vivido na privação da comida, do teto, do saber... mas não da dignidade que faz despertar a consciência para a luta de uma vida mais justa. Este "velho" operário viveu o tempo suficiente para assistir à Revolução de Abril já o mesmo não aconteceu com o autor dos "Esteiros", Soeiro Pereira Gomes, que morreu na clandestinidade por ser militante comunista. Por vezes pego nos "Esteiros" e abro numa das páginas e (re)leio. É uma obra magnífica que muito me orgulha.