quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Entre o rio e o mar


Festa boa, daquelas inesquecíveis, é assim, a gente vai empurrando até o sol nascer, não querendo que acabe. Minha festa está tão boa, recebi presentes preciosos, os amigos trouxeram outros amigos, então não dá prá acabar! Como o dia não amanheceu e a lua continua no céu a gente vai levando a festa, até os primeiros raios de sol. Vou ali fazer um café, pro povo poder beber mais ou se recuperar do que bebeu, rs...  Meu café é o seguinte, hoje penúltimo dia do mês eu preciso cumprir o prometido e postar o meu livro do Desafio Literário. Ainda tenho alguns preciosos textos para postar por isso iremos por outubro adentro e os convidados atrasados podem chegar! Eu gosto de receber presentes, mesmo fora de época, rs...

Marajó, Dalcídio Jurandir

O desafio desse mês é Autores Regionais, escolhi Marajó e o reli, já tinha gostado antes e continuei gostando, mais até. Todo livro meu tem história, esse também! Toda vez que vou a uma Bienal do Livro, mesmo tendo algumas críticas a tal evento, sempre procuro as editoras pequenas e regionais que, em geral, só publicam em seus estados, já comprei coisa boa e coisa ruim, há uns dez anos atrás, num estande com obras paraense comprei esse livro, gostei do nome e não conhecia nenhum autor da região.  Tempos depois descobri que Dalcídio Jurandir é um autor muito bem conceituado mas pouco conhecido, alias é praticamente desconhecido.
Tendo o autor nascido, se criado e depois de adulto morado na Ilha de Marajó, seu livro descreve o marajoara com o maior conhecimento de causa, o pobre e o rico, o mar e os rios, rios que cortam a ilha, seus habitantes tão característico em uma linguagem peculiar, a linguagem amazonense que tão pouco conhecemos.  O livro é escrito em bom, ou melhor, em ótimo português, mas é de difícil compreensão para os que vivem longe das águas e da floresta, essa dificuldade vai se dissipando quando entramos nesse universo desconhecido, acho esse trecho primoroso, como exemplo de linguagem, ao descrever a viagem do personagem Alaíde dentro da ilha: “Bateu chocolate em Muaná para um casamento, dormiu várias noites na montaria amarrada na aninga, ajudando os remeiros a arrastarem a embarcação na lama, viajou por uns furos, trabalhou em tapagens com timbó (...). Comeu cigana, comeu puraqué, comeu coruá. (...) remou um dia e uma noite para chegar ao Itupanema. Dali para Marajoaçu, em canoa a vela, era só uma maré.”
Marajó centra sua história em uma fazenda, um latifúndio como tantos espalhados pelo Brasil, no início do Século XX, onde reina um Coronel e aonde seu filho – vindo de Belém após estudar – vagueia sem vontade de assumir qualquer compromisso com sua herança, até a morte do pai. Daí prá frente, passa a ser Doutor e repetir as mesmas atitudes que um dia havia criticado no pai. O romance é todo focado no vaguear do filho, suas lembranças, suas percepções e sua realidade.  E assim vamos conhecendo, os vaqueiros, as comadres, as amas, os barqueiros, os donos dos pequenos comércios espalhados pelas vilas, os pescadores, suas crenças, sua cultura e seu modo de vida essencialmente marajoara.
Dalcídio Jurandir precisa ser descoberto pelos leitores brasileiros, fala-se tanto em falta de novos autores quando nem mesmo conhecemos os que já temos, Marajó foi escrito em 1939 e publicado em 1947, não é novo mas é novidade! O mesmo autor escreveu outros romances e foi um jornalista atuante não só na região amazônica como no Rio de Janeiro (então capital do país). Vale ler, por sua escrita poética impregnada dessa região tão nossa e tão desconhecida – a região amazônica. Não conheço publicações recentes de sua obra, mas sei que muitos paraenses batalham por sua divulgação e republicação.
“É a ilha toda composta de um confuso e intrincado labirinto de rios e bosques espessos; aqueles com infinitas entradas e saídas, estes sem entrada nem saída alguma...” Padre Antônio Vieira

SOBRE O AUTOR
Dalcídio Jurandir Ramos Pereira (1909—1979) - jornalista e romancista paraense e marajoara. A Academia Brasileira de Letras concede ao autor o Prêmio Machado de Assis, em 1972, entregue por Jorge Amado, pelo conjunto de sua obra. Publicou Marajó em 1947. Minha edição é das Edições CEJUP (Centro de Estudos Jurídicos do Pará).
Para conhecer mais: site do autor e o site da ilha.

13 comentários:

Lufe disse...

Oi Jussara,

Este nosso pais é muito extenso e com caracteristicas regionais bem definidas, não é mesmo?
É como se vivessemos num continente de variadas nações.
Sou encantado com os regionalismo e suas preciosidades. Seus costumes, suas crenças, o seu falar, o cotidiano de sua gente.
Pelo visto vou adorar este livro, pois pela sua sinopse ele vai fundo na cultura marajoara.
Sua festa esta de primeirissima e vamos continuar comemorando com todas estas pessoas que aparecem trazendo novidades.
Estamos todos de parabens por sermos convidados a comemorar juntos esta festa.

bjo procê

Mônica disse...

Oi Ju, mas que festa!!!
Ju, estou abando agora a minha postagem par ao DL, este mês quase que perco, kkk Mas este Desafio é mesmo muito bom, pois me obriga a ler livros que não leria no momento.
A sua escolha foi perfeita, a cultura marajoara é muito pouco conhecida Brasil a fora,e ao divulgar um livro assim você esta mostrando pra todo mundo o valor do povo paraense.
Tudo lindo, bju

Vivi disse...

Tomara que o DL tenha oportunizado a cada participar conhecer um porção mínima de sua literatura regional. Fico feliz de ver resenhas como a sua. Beijos

Celina Dutra disse...

Jussara,

Parece que esse é dos livros que me encantam. A prosa poética escrita com talento e sensibilidade é das coisas que me faz vibrar. Ler suas resenhas também. Vamos à listinha.

Girassóis e beijos!

Mary disse...

Jussara, obrigada pela tua visita em emu blogue. Sem querer rasgar sedas, mas o teu blogue também é muito interessante e serei frequentadora das suas caminhadas também. Bjs

Bia Jubiart disse...

Oi Jussara! Que achado!

Esse autor não conhecia, vou anotar o nome, mês que vem irei em Belém, vou procurar em Sebos, acho que em livraria não vou encontrar!

O Pará é um mundão, tem muitas coisas que desconheço!

Um ótimo fim de semana p/ vc!

Beijooooooooooo

Palavras Vagabundas disse...

Bia,
procure mesmo! O autor vale a pena.
bjs

Ivan disse...

Precisamos valorizar mesmo nossos artistas, ainda mais quem faz trabalhos com influências regionais, exaltando a cultura popular... Vou ali na cozinha e fazer uma caipirinha de cupuaçu em homenagem ao nosso Dalcídio..

Marly Bastos disse...

Jussara,
Eu adoro a linguagem regionalista e os fatos e realidades contadas em cada obra. Eu nunca tinha ouvido falar nesse escritor, ou se ouvi nao prestei atenção, pois nao me foi apresentado tão lindamente assim como você fez.
A ilha de Marajó é meu sonho de rota, pois sempre vou a Belém do Pará e fico quase um mês numa cidadezinha litorânea chamada Salinópolis. E nunca deu pra fazer esse passeio e conhecer a ilha, que meu pai amava. Vou tentar achar o livro e lerei sim.
Dei uma olhada nos outros posts e tudo interessante.
Parabéns e obrigada pela visita.
Beijokas doces e uma semana abençoada.

Adelaide Araçai disse...

Realmete temos carencia de conhecer nossos "tesouros". É como se os autores nossos regionais estivessem escondidos da massa, afinal a mídia vende mais os "gringos".
Adorei, já anotei vou procurar por aqui.

Muita Luz e paz
Abraços

Aline M. Gomes disse...

A literatura regional é uma das melhores oportunidades de desenterrarmos tesouros.
Não me vem à memória nenhum autor do Norte que eu já tenha lido nesse momento.

Obrigada pela dica!!!

Abraço Ju!!!!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

que bacana!!! eu conheço esse livro!
pq aqui no Japão tem mto brasileiro do Pará e uma amiga tem esse livro.

Olha só, na minha inguinoranssa eu achei que ia ser um livro chato.
julguei pela capa, fui infeliz.

mas é um texto muito bonito, poético, eu gostei.

boa semana, Jussara! bjs

Daniel Brazil disse...

Deu vontade de ler...