sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Um capítulo por dia

As Pupilas do Senhor Reitor, Júlio Dinis
Tenho certeza que todo mundo conhece a história desse livro, até por que foram feitas duas novelas sobre ele, só no Brasil. Não me lembro de ter visto a segunda versão, mas a primeira me lembra minha avó materna. A novela era em branco e preto (1970/71)  e passava por volta das 18:30hs, ela não perdia um capítulo, o galã era Agnaldo Rayol (devo essa informação ao Pai Google, filho dos desmemoriados), quando estava na casa dela sempre assistia e ela, como boa professora que era, insistia que eu lesse o livro, boa neta que eu era e não desperdiçava livro, lógico que li! Assim como li outros livros desse mesmo autor. Engraçado que quando assistiamos a novela, tenho vagas lembranças de algumas cenas, nenhuma de nós supeitava que no futuro eu estaria envolvida na feitura de muitas delas.
As Pupilas do Senhor Reitor foi escrito como folhetim ou seja é uma novela! Nunca mais havia relido o livro, não me prendeu e não tinha qualquer memória dele. Relendo agora, muitos e muitos anos depois, vejo o quanto ele é próximo de uma novela moderna: duas órfãs, criadas pelo reitor (o paróco da vila), dois irmãos apaixonados, o médico do lugar, um espaço onde todos transitam (o armazém) e os fofoqueiros de plantão para criar a trama e a tensão. Contar histórias em capítulos deve fazer parte da nossa memória ancestral, acredito que quando o homem ficou em pé, em volta da fogueira já contava história em capítulos da caçada, até a próxima caçada. Todos os elementos de uma boa novela estão nesse livro: Margarida (Guida) e Clara são as meia-irmãs órfãs, Guida é séria, triste e compenetrada já Clara é alegre, impulsiva e risonha. Os protagonistas são Pedro, que ficou na terra para ajudar o pai e Daniel que se afasta da vila e se forma em Medicina  numa cidade maior e volta mais cosmopolita, ambos são filhos do homem mais bem posto da cidade.  Tanto as irmãs orfãs como os irmãos ricos são completamente o oposto um  do outro e há claramente uma diferença social entre os casais. O espaço onde todos transitam é a igreja e o armazém, que no caso do livro também centraliza as fofocas locais. Além do médico velho, que conhece todo mundo e anda pela vila toda e perderá seu lugar para o médico mais novo e atualizado que chega, tensão onde os  personagens secundários terão que tomar uma posição. Montado os personagens vem a trama, Daniel chega e se engraça com Clara, que é noiva de Pedro, Guida apaixonada por Daniel sofre em silêncio e as comadres malidicentes fazem a sua parte! Após os desencontros, os equívocos e os mal-entendidos de sempre tudo se ajeita e foram felizes para sempre... ou não! Vocês já assistiram isso? Lembram de alguma coisa parecida? Pois é... As Pupilas do Senhor Reitor tem outra característica própria de folhetim (seja impresso, de rádio ou TV) todo capítulo acaba em um suspense e o pequeno suspense termina no próximo capítulo e começa outro, enquanto se desenvolve a trama principal.
Júlio Dinis descreve muito bem uma aldeia típica de Portugal nos meados do século XIX, a gente do campo, seus hábitos, seus valores e o transcorrer simples e natural da vida com suas festas, sua religiosidade e suas colheitas. Suas tramas são simples, os problemas são ingênuos, ele escolhe sempre o lado moralista do comportamento social vigente na época e é sempre romântico. Devia agradar horrores as meninotas de então, pois seus romances são suaves e ternos, as paixões são simples e a prosa é fácil. Sua prosa não tem nada de rebuscada é muito fácil de ser lida e entendida até hoje, diria até que ele foi um precurso dos “romances de mulherzinha”, rs
As Pupilas dos Senhor Reitor deve ser lido? Sim, se ele aparecer pela sua vida, não o perca de vista, é gostosinho e muito próprio para ser lido em uma tarde preguiçosa, para quem viu as novelas vai gostar de recordar e para quem vê novela (quase todo mundo vê um capítulo ou outro) vai identificar os bons elementos que fazem uma boa novela até que a próxima comece.
“Com o amor dá-se o mesmo que com  vinho. Perdoem-me as leitoras o pouco delicado da confrontação: mas bem vêm que ambos embriagam.” Júlio Dinis

SOBRE O AUTOR
Júlio Dinis pseudônimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871) -  médico e escritor português, As Pupilas do Senhor Reitor foi seu primeiro folhetim publicado em 1863 e publicado como livro em 1867.
# Todas as ilustrações são de Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) aquarelista e ilustrador português.

25 comentários:

Lufe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edlena Franklin disse...

Jussara
Lembro da abertura da segunda versão, pelo SBT, que era em preto e branco(se não me engano)com uma primorosa cenografia e numa sequência contínua que me fascinava. Débora Bloch e Luciana Braga eram as pupilas, que surgiam e apresentavam o povoado ao público. A novela mesmo não assisti, nessa época larguei as letras e tentei me dedicar às ciências contábeis... Perda de tempo! Acabei voltando pro meu reduto e me enveredei por Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa e Miguel Torga(aguardo sua resenha sobre este último e seus Contos da Montanha). Meus professores de Literatura Portuguesa eram admiráveis, foi um período maravilhoso em minha vida!
Beijos

Beth/Lilás disse...

Xiiiiii, Jussara, você não vai acreditar, mas eu não lembro de ter lido este livro quando jovem e nem visto as novelas. E sabes, acho que se eu o lesse então agora, seria uma tremenda novidade, pois gostei muito da sua resenha.
bjs cariocas

Nana disse...

Não assisti a novela, sbt, mas li recentemente no meu pc, sim, consegui o livro via internet.Tem razão é uma novela gostosa de ler. Vale a pena!

Lufe disse...

Você me trouxe muitas lembranças.
Era mesmo um folhetim e eu me lembro de ter assistido muitos capítulos.
Curioso, fui também recorrer ao "Pai Google de Aruanda" e achei essa introdução da segunda versão, feita pelo SBT em 94 - http://www.youtube.com/watch?v=r11rx9xBx00&feature=fvwrel - que ate me surpreendeu pela qualidade, que não é prerrogativa deste canal.

bjo

Lúcia Soares disse...

Uma delícia de livro, e assisti a 2ª versão,que passou no SBT, com Débora Bloch e um elenco ótimo, em 1994/95.
A primeira versão passou na Record, em 1970/71 (desta não me lembro).
Comecei a relê-lo uns tempos antes da reforma, mas tive que parar. Deu-me vontade de rever a história, tão linda, escrita em um época de ouro da literatura.

Mônica disse...

KKKK, ju, eu assisti esta novela, mas eu não lembro bem como foi, lembro bem do Agnaldo Rayol e o Sr. Reitor, mas do resto... Mas tentando resgatar a memoria da história li o livro algum tempo atras, e adorei. É um romance muito bom, mesmo. Obrigada pelo prazer de lembrar deste livro e da novela, que realmente também a mim, lembra a minha avó.
Quanto a saber da minha viagem, vá ao blog, fiz um post sobre ela no dia em que cheguei.
Beijos

Aline M. Gomes disse...

Nunca li o livro todo e sim trechos tanto na escola quanto na faculdade. Também assisti alguns capítulos da segunda versão da novela.

Eu pensava que a linguagem era rebuscada, tá vendo? Obrigada por essa informação, com certeza esse vai entrar para minha longa lista de livros para ler.

Abraços!!!!

Adelaide Araçai disse...

Jussara, eu não assisti a novela, mas ao ler o título do livro invadiu-me uma sensação gostosa, que mesmo sem lembrar na íntegra, do enredo....mesmo assim sabia que o havia lido e gostado.

Sabe não assisti a maioria das novelas, pois meu pai dizia que a TV só funcionava no horário do Jornal Nacional e a gente nunca desrespeitou e tentou ligar a TV para ver o que estava passando...rsrs

A sua forma de descrevê-lo, me dexou com vontade de reler...rsrs

Muita Luz e Paz
Abraços

Celina Dutra disse...

Jussara,

Li o livro há muitos e muitos anos. Não vi as novelas. Não me lembro qual foi o meu sentimento em relação ao livro. Adorei sua resenha! Se eu topar com As Pupilas do Senhor Reitor vou reler e certamente não terá sabor de café requentado.

Girassóis nos seus dias.
Beijos
Beijos

Carlos Medeiros disse...

Confesso que nunca li esse livro, nem vi a novela. Mas deu vontade de lê-lo e é o que vou fazer, assim que possível.

Angela disse...

Olá Jussara,
Com certeza minha mae assistiu a esta novela. Era fascinada por tramas assim.
Vou pesquisar na internet vê se consigo o livro. Adoro leituras assim.
Obrigada pelo gentil comentário no meu blog. Vc é um amor.
Beijos e uma ótima semana.

palavrasdeumnovomundo disse...

Oi querida Jussara
Os bons ventos me trazem aqui de volta, afinal é preciso superar as tempestades.
Amiga, me lembro vagamente da 1ª versão da novela, muito mais pelos comentários de minha mãe e suas vizinhas que não perdiam um capítulo.
Eu tinha na época uns 4 anos, porém foi marcante porque a TV estava chegando às casas e nem todos ainda tinham. Minha mãe assistia na vizinha já que não tínhamos televisão e me levava junto, mas como criança é claro que preferia ficar brincando a assistir novela. Só que vagas e embaçadas lembranças me voltam sempre que se fala dessa obra prima.
Não li o livro, mas assim que o encontrar vou através dele tentar recordar essas valiosas lembranças.
Um forte abraço amiga.
Rosa

Larissa, Lara, Lalá, .... disse...

Jussara
Eu nao vi a novela, mas sempre quis ler este livro!!!! Sua resenha me animou muito. Beijos

Christine disse...

Oi Ju, estou no Rio. Fico só até quinta. Me manda email para ver se conseguimos nos encontrar. Bj

Ju Ramalho disse...

Eu li as Pupilas quando era muito menininha, livro de minha mãe depois vi o remake da novela original no SBT!

Gostei da resenha e me fez lembrar da leitura!

Bjo

Macá disse...

Ju
Não consigo me lembrar se li ou não, mas provavelmente não, acho que me lembraria agora de alguma coisa. As novelas eu não vi mesmo.
beijos

Teresinha Ferreira disse...

Olá Jussara,
Pena que não tive oportunidade de ver o documentário sobre a estamparia. Eu gosto muito.
Bacana demais As Pupilas do Senhor Reitor. Vale a pena ver de novo. Seria muito bom.
Bjs mil

Misturação - Ana Karla disse...

Jussara, lembro de ter visto a novela sim, mas o livro não li.
Uma história boa e que a gente não consegue desgrudar até o fim.
Muito bom relembrar.
Boa semana
Xeros

Cissa Branco disse...

Ju,

Não vi as novelas e nem li o livro, mas a história me agradou, bem do tipo que gosto de ler, principalmente se tiver final feliz, Esse final de semana lembrei de Helena e Senhora e me deu uma vontade de reler, adoro um romance onde a mocinha sofre mas no final acaba tudo bem.
Estou fazendo minha resenha, nem sei se é bem isso, mas estou me divertindo muito, até o final de semana te envio.
Grandes beijos

Glorinha L de Lion disse...

Eu me lembro que teve essa novela, mas acho que eu não vi...não sei nada da estória, ou pelo menos, não lembro de nada...a memória já começa a falhar pra essas coisas muito longínquas...e acho que tb não li o livro, beijos,

Márcia disse...

Olá Jussara,
Obrigada pelo post. Então estou visitando seu blog, gostei muito. Aparecerei aqui mais vezes. Assim como vc sou leitora compulsiva. Como minha filha diz, já cheguei a vender livro nos sebos para comprar outros... A que ponto chega um vício! Quanto As Pupilas..., ainda não li e tb não assisti as novelas. Valeu a dica.

Tathiana disse...

Não vi a novela (nenhuma das versões), mas interessou-me o livro.
BJs.
Tathiana (lacodoinfinito.blogspot.com)

Pandora disse...

Jussara nem me fale de folhetim, atualmente tou pesquisando no Jornal do século XIX, tou em 1880 e tá sendo publicado um folhetim horrivelll... Não é meu foco na pesquisa, mas eu cometi o erro de ver a droga do primeiro capitulo e agora vez ou outro não resisto e dou uma acompanhada, mas pense em um negocio cheio de segunda intensões, moralista (táh é século XIX, tinha que ser) enfim... a gente não tem noção de quantas pessoas escreviam folhetim, deviam ser muitas, nem todos viraram livros, nem todos se imortalizaram e os que conseguiram esse feito merecem toda nossa admiração e devem ser lidos, sempre... Meu respeito aos autores de folhetim que venceram a poeira do tempo, deixaram os jornais e ganharam espaço até mesmo nos modernos blogs!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

sabe que eu li esse livro na escola? acho que foi no colegial. Li tb "Fidalgos da Casa Mourisca" e gostei mto. a novela não vi, mas me lembro até hj da música da Dulce Pontes, tão linda, que era da abertura. Minha mãe falava mto dessa versão que fizeram na Record. Em casa tem o disco da trilha sonora, que é lindo, cheio de belíssimas melodias portuguesas em viola.

excelente, Jussara!