segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Paixão e crueldade

Longa e Fatal Caçada Amorosa, Louisa May Alcott


Mais um para a lista “o que esse livro está fazendo aqui?” Porque é um livro que tem uma história por detrás dele, aliás história melhor que a do livro. Muita gente conhece o livro Mulherzinhas (1868) dessa mesma autora, um livro que foi e é sucesso até hoje, já foi filmado algumas vezes e adaptado outras tantas. Um livro da tradição literatura cor-de-rosa do século XIX, uma família que está sem o pai e luta para sobreviver, uma pitada de romance, muito reforço moral e amor à pátria, interessante, engraçadinho, próprio para época e um tanto quanto autobiográfico. Louisa May Alcott sustentava praticamente a família toda com sua literatura, por causa de sua independência se tornou uma militante feminista de primeira hora e foi sufragista atuante até a sua morte. Já era uma bem estabelecida autora quando resolve ir para Europa, como não tem dinheiro suficiente se submete ir como dama de companhia de uma senhora rica. Na volta seus problemas financeiros tinham se agravado e ela precisava produzir rapidamente alguma coisa. Seu editor pede um folhetim que possa ser impresso em capítulos e ela escreve Longa e Fatal Caçada Amorosa (1877). Ela quase matou o editor do coração, não sem razão, o livro começa assim: “Não suporto mais! Cometerei um desatino, se minha vida não mudar e logo. Está cada vez pior e começo a achar que seria capaz de dar minha alma ao diabo em troca de um ano de liberdade.” Ele devolveu os originais e pediu outra coisa, Louisa tentou reescrever o livro e submetê-lo com um pseudônimo masculino, nada feito! Ela engavetou os originais produziu outros romances, organizou sua vida financeira e nada mais aconteceu. Em 1995, um colecionador de manuscritos raros encontrou Longa e Fatal Caçada Amorosa, fez um acordo com a família Alcott e o publicou.
A publicação de Longa e Fatal Caçada Amorosa foi uma revolução, pois se descobriu que Louisa era uma autora ousada que tinha produzido um romance gótico, pessimista e com pouco conteúdo moralista, o que mudou o que os estudiosos pensavam dela. O que nos faz pensar: se ela não tivesse tantos problemas financeiros, provavelmente teria abandonado os romances cor-de-rosa. Não é o melhor livro que eu li, nem é o pior, aos olhos de hoje nem sequer é ousado, mas aos olhos da era vitoriana era. Se pensarmos com a cabeça de seu editor ele tinha razão, ela poderia ter enterrado a carreira com esse livro.
A mocinha que quer vender a alma ao diabo tem 18 anos, se chama Rosamond, vive sozinha com um avô mesquinho e doente em uma ilha perdida da costa da Grã-Bretanha, quando no meio de uma tempestade chega um homem vivido, charmoso, com o dobro de sua idade e sem caráter, Phillip. Conquista a mocinha, faz o avô perder uma fortuna no jogo e troca a dívida por ela, gente muito boa ele!  Ele a leva para a Riviera francesa e tem total domínio sobre ela, inclusive sexual como é claro nas entrelinhas. Após um ano ele já não é tão generoso, comete crueldades e praticamente a ameaça o tempo todo. Ela acaba por descobrir que ele já era casado, que seu casamento foi uma farsa e que ele está cansado dela. Ela foge da casa, com as joias que havia ganhado dele, vai para Paris e começa a trabalhar como uma humilde costureira, primeiro problema: pela moral da época ela deveria ter se jogado dos rochedos e ele, arrependido, sofreria até o fim de seus dias, pois sim... Phillip começa a caçada, perseguindo-a por dois anos, toda vez que Rosamond  pensa estar livre ele aparece e acaba com a alegria dela, mas a deixa escapar novamente, somente pelo esporte de a perseguir: de Paris vai para um convento no interior francês, de lá para Alemanha, volta para a Inglaterra e pede proteção a primeira esposa do marido obsessivo e cruel, ops! Esposa e amante ficando amiguinhas, assim não dá Louisa! O final é surpreendente, não é feliz e nem moralizante. Em plena era vitoriana homens eram provedores e protetores, não perseguidores e mocinhas inocentes não tomavam as rédeas de sua própria vida, no entanto foi isso que impediu sua publicação na época mas que tornou Louisa May Alcott surpreendente moderna ao ser publicada em 1995.
Esse livro veio parar nas minhas mãos meio sem querer, estava num sebo e para completar uma conta redonda sai à cata de alguma coisa, gostei da orelha do livro e me surpreendi com as três primeiras linhas. Não é um livro divertido, é angustiante e aos olhos de hoje você tem vontade de dar umas sacudidas em Rosamond, mas não deixa de cumprir sua função que é nos incomodar e nos fazer pensar em quantas mulheres não são prisioneiras de seus companheiros obsessivos e manipuladores até hoje.
“Desejo uma vida alegre, mesmo que curta e estou disposta a pagar um preço alto por isso, se for necessário”. Rosamund (quando ainda inocente)

SOBRE O AUTOR

Louisa May Alcott (1832-1888) – escritora americana que se dedicou a literatura juvenil para mocinhas, escreveu Longa e Fatal Caçada Amorosa em 1877 mas só foi publicado pela primeira vez em 1995, no Brasil pela Editora Best Seller.

19 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Gostei tanto que a vontade foi de sair correndo e comprar o livro. "Não é o melhor livro que eu li, nem é o pior, aos olhos de hoje nem sequer é ousado, mas aos olhos da era vitoriana era." é por isso que adoro vir aqui e ler-te.

Luana disse...

Ai que delciia de texto.. acho que sua descrição eh provavelmente melhor que o livro, mas lerei-o para ter certeza... =)

Mônica disse...

ju, eu não conhecia este livro, confesso, nem a autora. Mas você fez um texto sobre ele que fiquei com vontade de ler agora. Adoro livros que falam de mulheres principalmente as de outros tempos.
Valeu, bju

Celina Dutra disse...

Jussara,

incluí na minha lista. já tenho a dica: ler com os olhos da época e refletir com olhos de hoje.

Girassóis nos seus dias.
Beijo

Lufe disse...

Gosto destes romances que embora não sejam historicos funcionam como se o fossem, pois através da saga da protagonista retratam bem uma mostra social da época.
Belo texto.

bjo

Orvalho do Céu disse...

Querida,
Que mensagem bonita para nós!!!
Sou tão feliz que não dá espaço pra manipulação ou obsessão... O amor liberta...
Bjs de paz

Rogério Pereira disse...

Muito boa (e honesta)promoção desta leitura. Sublinho todo o texto mas em especial, duas partes : "se ela não tivesse tantos problemas financeiros, provavelmente teria abandonado os romances cor-de-rosa" e "cumprir sua função que é nos incomodar e nos fazer pensar"...

Cada vez mais esta missão da arte da escrita está dependente um fácil agrado do "mercado"

Parabéns pelo texto

Glorinha L de Lion disse...

Gostei da capa e do título, mas nada nada da sinopse...já tem tanto livro-clichê sobre esse assunto...não me deu a menor vontade de ler, apesar de eu adorar os romances cor de rosa...inclusive tenho o dvd e li, recentemente O Sr March, espécie de continuação que a australiana Geraldine Brooks fez do Mulherzinhas, dessa vez, contado pelos olhos do pai, que não morreu não! Ele termina vivo lutando na Guerra de Secessão no primeiro livro! Eu adoro esse tipo de literatura tipo Jane Austen e que tais que mostram como era duro ser mulher naqueles tempos...nada muito diferente do que ainda é hj em alguns lugares do planeta, beijos, uff, escrevi demais!

✿Lis disse...

Nossa, deve ser forte msm esse livro, esse tipo de prisão emocional impede q se veja outros horizontes, assim como faz uma prisão física.

Beijos!

Regina Rozenbaum disse...

Ju, amada!
Vir aqui e ler seus textos sobre os livros é sempre uma grande surpresa. Gosto de romances de época...viajo através da escrita e me coloco lá com tudo tenho direito.
Beijuuss n.a.

Beth/Lilás disse...

Nossa, Jussara, que capa mais linda!
A sua sinopse pareceu-me bastante interessante, gosto de romances de época também.
bjs cariocas

Tathiana disse...

Essas curiosidades que encontro aqui me encantam... A história por trás da história...
Bjs.

Aline M. Gomes disse...

Dica inédita, Ju!!!

Enquanto eu lia eu ia pensando no que vc acabou dizendo no final. Mudaram a época, o século, as tradições, mas até hoje muitas mulheres ainda são perseguidas, maltratadas, torturadas entre outras coisas...

Bjos

PS: Adoro suas "descobertas" nos sebos hahahaha

Fatima Valeria disse...

Dificil! Como ela, tantos outros artistas sufocam sua liberdade criativa para poder sobreviver!Fico imaginando o que ela poderia ter produzido se tivesse condições.
Bjs

Cissa Branco disse...

Ju,

Adorei a resenha, fiquei louca para ler até pela rebeldia da autora. Eu e o Felipe queremos agradecer de coração todo o carinho, ele ficou super feliz e para nós isso não tem preço.
Obrigada!
Beijos

Drixz disse...

Ai, eu odeio ler seu blog! E amo o mesmo tanto. Dicas preciosas, agora com um gostinho de "quando eu voltar"... Mas acho que posso achar Louise Alcott em inglês aqui. hehehehe

A história me lembra um pouco Os Miseráveis com uma pitada de O Morro dos Ventos Uivantes, dois dos meus favoritos. Já ouvi falar das Mulherzinhas, esse eu definitvamente tenho que ler, mas o segundo é bem mais a minha cara.

Pandora disse...

O primeiro contato que tive com May Alcott foi através do filme inspirado no livro, eu chorei horrores vendo o filme e não desgostei do livro é uma visão sobre sua época e eu sempre gosto, ajuda a montar o quadro do que eu entendo por História! Mas esse capitulo da história dela eu não conhecia, fiquei curiosa, qualquer dia desses encaro essa caçada!!!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

eu lembro do Mulherzinhas... minha mãe tinha, gostava muito. um dia, de bobeira, comecei a folhear...e me vi pego pela história. gostei mto do livro.

a história deste livro é mto interessante. um livro póstumo, de história bem original. se mesmo hj em dia a história é moderna, imagino pra época. não é a toa que ficou engavetada, faltaram os culhões (odeio essa palavra rs) pros editores.

vou procurar esse livro pra ler!
bjs e bom dia

Naiara Pinto disse...

Oie!!! Nossa terminei o livro hoje e confesso que o final me deixou meio abalado, bem trágico! Esse é um lado da Louisa que não conhecia. Mas apesar disso gostei muito do seu lado ousado, achei-o intrigante e até me fez vê-la de outra forma. Bom, parabéns por colocar aqui uma resenha, seu blog está muito, muito bom ;)