sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Nos cafundós do sertão

Inocência, Visconde de Taunay
Eu podia estar lendo Machado, Aluizio de Azevedo, Alencar ou até mesmo Macedo!  Mas escolhi ler o único romance de Taunay para Desafio Literário deste mês, que contempla os clássicos brasileiros. Inocência é daqueles livros que são incensados pelos acadêmicos de plantão e odiados pela turma que vai fazer vestibular. Tanto uns quanto outros têm razão. Esta é a terceira vez que leio o livro, da primeira leitura tenho poucas lembranças e provavelmente não gostei, na segunda vez que li, fiz isso por que estava na lista de livros do vestibular (jamais escolheria por livre e espontânea vontade) mas diria que apreciei um pouquinho mais, mas isso se deve a um excelente professor de literatura que destrinchou o livro para um bando de adolescente que só engoliu tudo aquilo para passar na prova do vestibular. Essa leitura de agora foi mais madura, mas... porque eu não escolhi um Machado? Um Lima Barreto?
Inocência conta a história de um prático-farmacêutico, Cirino, que nos cafundós do sertão de Mato Grosso é recebido numa fazenda para cuidar e medicar Inocência que sofre de maleita, lógico que ele se apaixona, lógico que o pai não gosta, lógico que ela está prometida para outro e lógico que acaba em tragédia ou não seria um livro do Romantismo. O livro tem qualidades, por isso os acadêmicos gostam, ele não é puramente romântico nem puramente realista, está no meio termo. Como Taunay (nosso único Visconde) era um engenheiro militar, inclusive tendo lutado na Guerra do Paraguai, descreve o sertão como ninguém – ele conhecia de perto do que estava falando e tinha alma de geógrafo – mas por que, meu Deus! descrever em páginas e mais páginas uma estrada! Nosso Visconde também foi um pioneiro em escrever os diálogos em linguagem coloquial e regional, o que empresta aos seus personagens uma verdade no tempo e no espaço, mas torna o livro, hoje, bem complicado de ser lido! Principalmente para os pobres vestibulandos, eu gostei da linguagem, vejam só que graça: “não há menina que hoje não deixe de ir à fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha com qualquer talufão... pois pelintras e beldroegas não falta...”  juro que não é ironia! Eu poderia dizer que meu personagem inesquecível desse livro é Cirino o moço romântico, ou Inocência e sua beleza meio doentia ou até mesmo seu pai, Pereira com suas ideias retrogradas e sua certezas gravadas em pedra, mas nenhum deles me marcou, desde a primeira leitura eu me indigno, fico com raiva e tenho vontade de dar uns tapas em Tico, o anão mudo e raquítico, que de guardião de Inocência passa a ser seu algoz. Ao se falar desse livro sempre me lembro desse tipinho!
Inocência é um clássico da literatura brasileira que merece ser lido, com paciência e tempo, para se poder apreciar o que ele tem de bom,  pois os tipos humanos são bem característicos da época e do sertão, temos até mesmo um naturalista alemão que só pensa em borboleta, vemos como o comportamento social é rígido e as regra familiares são imutáveis, palavra dada nunca é retirada mesmo que isso leve a uma tragédia. Em certo sentido é um romance regionalista, uma novidade na época, pois Taunay soube unir seu profundo conhecimento da natureza pura dos rincões do país e a sua aguda observação da vida social do sertão em um livro romântico.
Existe um filme sobre este livro de 1983, dirigido por Walter Lima Jr, tendo o Edson Celulari e a Fernanda Torres como protagonistas, eu vi na época e gostei, fica aqui a indicação.
“Onde há mulheres, aí se congregam todos os males há um tempo.” Menandro (teatrólogo grego citado por Taunay)

SOBRE O AUTOR

Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay – (1843-1899) – militar, político e escritor brasileiro, publicou Inocência em 1872.

18 comentários:

Adriana disse...

Li esse livro na adolescência e não lembro mais nada. Se não me engano ainda tenho essa antiguidade por aqui. Boa dica, vou reler.

abçs

Eu, Meu Contrário e Minha Alma disse...

Não interessa se depois de ler o que escreveu, eu leria esse livro. Se fosse o autor, lhe agradeceria (imenso) o louvor distanciado que me teria feito. E fez, com argumentos... Acho que seu papel é importante para a cultura. Não sei se os titulos são os que HOJE´o brasileiro precisa ler... Como vê tenho um sentido utilitário da cultura, costuma até dizer: mais importante que a arte, só o pão. Só que a arte tem de ser um instrumento e não únicamente um devaneio do pensamento...

Rogério Pereira disse...

Esses que aí acima apareceram, são só um: EU. Percebeu?

Lufe disse...

Jussara,

É um livro chato de se ler, mas se lido com os olhos de quem gosta de perceber os costumes de epoca, os valores, a educação familiar, ver que houve epoca que fio de bigode valia, é um excelente livro.
Cada época com seus costumes, o techo citado me lembrou uma cronica que li outro dia(não me lembro de quem) que dizia que as nossas adolescentes de hoje se vestem como prostitutas.....rsrsrs

Assisti ao filme tambem e pelo que me lembro gostei dele.Fiel ao livro.O Celulare como o Doutorzinho estava muito bom.

bjo

Julio disse...

Oi Ju. Li esse livro na adolescência e não gostei. Só fui até o fim porque largar livro ou filme no meio, eu simplesmente não consigo. Voltando ao Inocência: não gostei tanto que quando descobri que ele era pedido no vestibular resolvi arriscar e não relê-lo. Agora, ler tres vezes já é masoquismo da sua parte....hahaha

Flávia Shiroma disse...

É interessante como existem alguns livros que só conseguimos gostar ou entendê-los melhor quando alguém detalha as páginas pra gente. Nossa, ler livros por obrigação realmente é um saco.
Eu não curto livros que falam da vida sertaneja. Sou fã dos de auto-ajuda, mas é sempre bom a gente diversificar.
Bjs querida

david era uma vez... disse...

Ola Jussara!!

(olha estou em casa... em casa a palavra vagabunda não é bloqueada, feito onde eu trabalho!)

Sabe que se vc fosse minha professora de literatura eu teria lido tudo!! Tive um grande professor que nos incitava a ler coisas difíceis. Deveria ter sido meu professor do pré ao 3º colegial..
Mas voltando ao livro, lembro de ter assistido o filme num passado longínquo.
Um dia vou ler! agora não sou recomendado to atolado de coisas para ler.. tudo tão ambiental, tão verde.. que inocência não se encaixaria nisso!
Abraços

*Quanto sua observação no meu blog... sabe que eu ja pensei nisso... Se tem uma coisa que minha vida não foi é monotona!

Juliana disse...

tenho preguiça desse livro. confesso que tenho preguiça da prosa do século XIX brasileiro.

Celina Dutra disse...

Não sei se teria paciência com Inocência (como em épocas remotas já não tive), mas ler você dissecando o livro foi uma delícia. Fiquei com vontade de conhecer o Tico.

Girassóis nos seus dias!
Beijos

Luma Rosa disse...

Difícil encontrar em uma obra clássica brasileira, realidade e romântismo casando tão bem! Pela lógica romântica, Incência é imortalizada na figura da borboleta, descoberta pelo cientista alemão. Isso foi sublime!! Alguns livros precisam de calma.
Boa semana! Beijus,

Regina Rozenbaum disse...

Não me lembro de ter lido...então, bem provável,que não! Muitos desses clássicos são sugeridos, indicados ou cobrados, em épocas que não estamos maduros o suficiente para a compreensão dos mesmos. Percebo isso com meus filhos em tempos de ensino fundamental e médio. Jussara,claro que gostaria de ler seu texto. Se puder, envie para meu email (tem lá no blog)e já posso imaginar como degustarei!
Beijuuss n.a.

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Jussara.
acho que é o livro que a gente precisa de vivência, de tempo e maturidade para ler e apreciar. Eu lembro que li esse livro pra escola, não lembro um "a" dele rs. sério, acho que li de muita má vontade.

igual o Alienista. Li xingando, recentemente reli. E ...adorei! é fantástico!

e agora quero reler o livro rs.

bom dia!

Fatima Valeria disse...

Jussara! obrigada por ler meus blog.Sinto o frescor da liberdade de pensamento, quando as questões são compreendidas, repensadas ou questionadas!
"Inocência" era a minha quando li o livro, hoje talvez entenderia melhor o contexto. Filme, assisti, é bom! Seus comentários muitas vezes superam a obra, ops, sem demagogia! è que dá um saborzinho novo, diferente, estiga mesmo a curiosidade. Dá vontade de abrir o livro e perguntar: Olha só, ela estava falando sobre isso!! Bjs

Macá disse...

Ju
Eu li mas faz um bom tempo. Como eu já lhe disse, quando você fala sobre um livro, dá muita vontade de ler ou reler, pra encontrar esses pontos que você cita. Mas acho que tenho outros anotados aqui mais interessantes que Inocência. Vou passar rsrsrs.
beijos

Ana disse...

Gostei da tua resenha, Jussara. Tai um autor que eu nunca li (e talvez tivesse ouvido falar ha muuuuuuuuito tempo, mas nem lembrava). Da ate vontade de estudar literatura brasileira de novo, so pra ver essas semelhancas de estilo das epocas.

Aline M. Gomes disse...

Outro que li no tempo da faculdade. Meus sentimentos eram parecidos com os seus. Dá uma raiva tão grande. Senti o mesmo lendo 'Amor de perdição' do Camilo Castelo Branco.

Eu não lembro desse negócio dele descrever a estrada por várias páginas, mas me lembro que tinha umas coisas tão chatas e enfadonhas... aff Acho que ele só perde pro Eça de Queiroz no quesito descrição.

Abraços, Ju!!!!

Vivi disse...

Alguns livros dessa seara clássica requerem mesmo uma leitura paciente, um desprendimento do tempo para que nos entreguemos a dinâmica do texto e às suas demais peculiaridades.

Beijocas

danbrazil disse...

Esse é um raríssimo caso, talvez único no Brasil, do filme ser melhor que o livro. Mas não é obra prima, claro...