quinta-feira, 28 de julho de 2011

Somos todos especiais

O estranho caso do cachorro morto, Mark Haddon
Tanto se fala em inclusão de pessoas com necessidades especiais, mas quantos de nós realmente entende o que é ter uma necessidade especial? Poucos, muito poucos. Podemos entender a necessidade especial de locomoção de um cego ou um cadeirante, mas e quando essa necessidade não é aparente? Como é o caso de autistas, pois pouco compreendemos o mundo em que eles vivem, já que são seres que estão isolados em seu próprio mundo, simplesmente nós quase não existimos para eles. Existem outros tipos de inadequações ao mundo, a Síndrome de Asperger é um deles. Existem temas que parecem que viraram moda, todo mundo fala sobre o assunto, todo mundo conhece alguém que conhece alguém que tem contato com uma pessoa que sofre desse mal. Virou moda? Porque não existia quando eu era criança? Ou porque meus avós jamais souberam que existia a tal síndrome? Porque só recentemente foi diagnosticada, essa síndrome é conhecida (e estudada) desde 1944 e só foi reconhecida como critério de diagnóstico em 1994. Os portadores existem desde que o mundo é mundo, só ninguém reconhecia ou confundia com outras doenças.  Então, não é uma doença da “moda” mas são crianças e adultos agora verdadeiramente diagnosticados.  Esse é um blog que fala de livros ou de psiquiatria? Fala de livros mas antes precisava dessa introdução, já vou chegar ao livro. Os portadores da Síndrome de Asperge têm algumas características comuns, vamos a elas: a maioria são meninos, em geral eles são extremamente inteligentes, mas têm pouca capacidade de interagir com outras pessoas, com as convenções sociais e não compreendem comportamentos não verbais, entre outras.
Christopher tem 15 anos, sofre dessa síndrome e é o protagonista e o narrador de O estranho caso do cachorro morto, como ele gosta de Sherlock Holmes e encontra o cachorro da vizinha morto no jardim resolve fazer uma investigação e escrever um livro, aliás o resultado é o livro que estamos lendo. Vamos acompanhando seus processos mentais, suas dificuldades de entender o mundo, suas pequenas idiossincrasias, suas obsessões e seus medos. Ele não gosta que o toquem, tem especial implicância com a cor amarela e segue uma rotina rígida, quando qualquer coisa sai do lugar em seu mundo ele se refugia na matemática e faz complicadas contas mentais para se acalmar. Sua investigação o leva a descobertas sobre sua família e como consequência uma aventura pelo mundo lá fora. A gente ri e sofre com ele, a gente torce por ele e os mais sensíveis podem até derramar uma lágrima ou duas.
O estranho caso do cachorro morto é um livro diferente, Christopher gosta de matemática então os capítulos são numerados com os números primos, ele não percebe sentimentos alheios ao olhar seus rostos, por isso tem uma tabela com desenhos de diversas carinhas para que  possa consultar e ao descrever uma peça de seu quebra-cabeça opta por desenhar. Ao tentar achar uma estação de trem acha mais fácil colocar o mapa e assim vamos aprendendo como é seu mundo e a sua forma peculiar de ver o mundo que nos rodeia. O livro é delicioso de ler, pois é um romance e não tem qualquer compromisso científico, mas Mark Haddon teve um especial cuidado nesse aspecto para que Christopher fosse “real”, apesar dele não ser um especialista na área médica. A grandeza do livro está em nos fazer compreender as “diferenças” e nos pegar tendo sentimentos e condutas muito parecidas com as de Christopher, quem nunca ordenou livros ou CDs em ordem alfabética dentro de um mesmo assunto?  Ou nunca pensou o porquê de “boca de siri” já que é mais fácil pedir para deixar o assunto em segredo? Christopher simplesmente acha metáforas uma enorme perda de tempo, ele pode ter problemas por não ter empatia com as pessoas, mas ao terminarmos o livro temos vontade de abraçá-lo, não podemos pois ele, como seus iguais, não gosta que o toquem. Viva a diferença!
“Todas as crianças da minha escola são idiotas. Só que não devo chamá-las de idiotas, apesar de serem. O que devo dizer é que elas têm dificuldade de aprendizagem ou que possuem necessidades especiais. Mas isso é bobagem, porque todo mundo tem dificuldade de aprendizagem, porque aprender francês ou entender relatividade é difícil. Todo mundo tem necessidades especiais meu pai anda com tabletes de adoçante artificial e minha professora usa óculos, nenhuma dessas pessoas é Caso de Necessidades Especiais, mesmo que elas tenham necessidades especiais." Christopher Boone

SOBRE O AUTOR
Mark Haddon (1962-  ) – romancista, poeta e ilustrador inglês, escreveu livros para crianças antes de se aventurar num romance. O estranho caso do cachorro morto é  seu primeiro romance, publicado em 2003. Editado no Brasil pela Editora Record.

20 comentários:

Lufe disse...

Eita, jussara.

Você como sempre apresentando um novo tema para nos instigar à leitura mais diversificada.
Me pego pensando em como você acha estes livros.
Lá vamos nós atras do intrigante O estranho caso do cachorro morto!Fiquei curioso em conhecer o Christopher....

bjo

mEU mundiNho LOUcO disse...

Boa noite, Querida:

Fico pasma, com sua facilidade e habilidade de síntese.

Beijocas!

Glória Maria Vieira disse...

Engraçado, né Juh?! Até um dia desses se alguém era apelidado, se era importunado, era implicância. Agora qualquer coisa é "Bullying" (exemplificando). /falo assim pra chamar a atenção, porque as pessoas costumam generalizar ao máximo e sair dando nomes iguais a bois diferentes.

Anyway... Muito boa sua observação, amor. Juro que pensei sobre isso hoje...

Celina Dutra disse...

Jussara,

Onde vou arranjar dinheiro para tanto livro excepcional? Esse preciso (tenho que) ler. É o tipo de leitura que adoro!

Fantástica sua resenha (como sempre)! Ah! com certeza vou chorar!
Obrigada!

Girassóis nos seus dias!
Beijos

Aline M. Gomes disse...

Nossa q vontade de ler!!! Não conhecia o autor, mas durante sua resenha lembrei do filme "Adam" q se não estou enganada o personagem de mesmo nome tem o mesmo diagnostico do Christopher.

Ótima resenha dica, Ju!!!!!

Edlena Franklin disse...

É, Jussara... Todos temos nossas necessidades específicas, o negócio é quais rotularíamos de "especiais". Posso achar que tenho necessidades meio bizarras, deficiências de caráter, de julgamento acerca de situações... A ciência, apesar de tantas conquistas, ainda não decifrou muita coisa do nosso cérebro.Sempre haverá elementos ocultos, algo sobre o que minha mãe ingeriu na gravidez que possa ter me tornado apreciadora de palitos de fósforo queimados ou adorar a solidão, o silêncio... Quem sabe? Quem quer saber? Quem já quis ser cobaia de experimentos científicos, ser decifrado? Enfim... vou em busca do Christopher atrás de diferentes visões do ser humano, graças à você!
Beijos

José Sousa disse...

Olá queria amiga!
Adorei este seu post! Muito mesmo Viu?
A partir de agora, já que te descobri, vou ser teu seguidor.
Fico te esprando lá nos meus blog's! Me segue lá no "Transpondo Barreiras".

Um beijo bem grande e bom fim de semana

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

ahahah a minha lista de livros aqui tá ficando gigante, nem sei de quem é a culpa né rs. mas te agradeço, de verdade, por estas dicas ótimas.

esse eu quero ler sim. me lembrou um livro que aqui no Japão é muito famoso, o Diário de Aya Kitou.

bom dia Jussara!

Macá disse...

Oi Ju
Ah! esse eu preciso ler! Já estou ficando igual a todos os seus seguidores: com lista de livros pra comprar (pensar que antes eu gostava tanto de comprar roupas rsrsrsrsrs)
um beijo

Folhetim Cultural disse...

Olá sou Magno Oliveira responsável pelo Blog Folhetim Cultural, convido lhe hoje a conhecer o nosso blog, que tem além de notícias, tem também atrações culturais. Como poesia, contos, crônicas e muito mais...
Conto com sua visita no nosso espaço.

Blog: informativofolhetimcultural.blogpost.com
E-mail: folhetimcultural@hotmail.com
Twitter: @folhetimcultura e @oliveirasmagno

Fatima Valeria disse...

Muito bom, muito bom mesmo! Sem chavões, discursos prontos, somente respeito ao próximo! Abraços, ótima escolha.

Bia Jubiart disse...

Gostei do enredo...

Jussara fique a vontade na Jubiart! Por "falar" em livro já li também o da Glorinha, excelente!

Uma semana iluminada p/ vc!

Como o Ale falou - Mais um p/ lista de leitura...

Beijoooooooo

Teresinha Ferreira disse...

Olá Jussara, como vai?
Seria interessante se seus seguidores pudessem trocar livros, né?
Gosto muito das suas sínteses.
Tenha uma excelente semana.
Bjs mil

palavrasdeumnovomundo disse...

Jussara
Com certeza somos todos especiais, embora o caso de inclusão seja muito mais amplo e complexo.
Como educadora vejo e trabalho com inúmeros casos de crianças com necessidades especiais das mais diversas. Já ouvi e li algo sobre a síndrome de Asperger, mas ainda preciso aprender muito sobre.
Acho que começarei pelo livro indicado, aliás vou lhe fazer a mesma pergunta que alguém acima lhe fez: como faço para arrumar dinheiro e tempo para tantos livros? Sem contar os que já tenho de ler...aff
Parabéns querida mais uma ótima indicação com bela síntese.
Beijos e ótima semana.
Rosa

Pentacúspide disse...

nunca tinha ouvido falar, mas o tema chamou-me a atenção. aliás, desde que vi o filme mary e max que estou fascinado pelo mundo dos apies. mais uma vez, obrigado pela referência.

Lúcia Soares disse...

Jussara, jamais compraria um livro com esse título, de um autor desconhecido para mim. Como é importante ter pessoas "comuns", leigas, não os sabichões dos críticos literários, para mostrar-nos maravilhas como essa.
Vou já comprar o livro! (mesmo sem muito tempo pra ler. Estou com 5 "engatilhados", não dou conta de achar um tempinho pra ler. Só tenho folga à noite e aí já "desmoronei" de cansaço e não vou render, a mente está poluída de problemas, não tenho espaço para encaixar mais nada...rsrrs).
Adorei o jeito de você contar, a maneira de apresentar o livro.
Beijo!

Ju Ramalho disse...

Oie tudo bem???? tinha me perdido é? rssssssssss me ache sempre!!!! obrigada por passar um tempinho lá no meu Blog.

gostei da lista de livros! Maravilhosas dicas! Eu amo ler... sou suspeita e o simbolo de meu Blog seria eu lendo e tomando chá lá no layout hahaha.

Anotei uns clássicos que eu ainda não tinha lido.

Boa tarde e um bjo

Ju Ramalho

Adriana disse...

Boa noite Jussara,

Concordo com o comentário da sua seguidora Lucia Soares, também não compraria o livro por causa do título mas com a sua apresentação fiquei super curiosa. Vou atrás desse livro.

grata pela dica

Beth Blue disse...

Não só li este livro como tenho um filho com Síndrome de Asperger aqui em casa. Uma criança muito especial com interesses bastante específicos digamos assim (ele é obcecado por bichos, mas nào dá muita bola pra pessoas não...

Ou melhor até dá, desde que as pessoas tenham paciência pra ouvir as estórias de bicho dele, rsrsrs. Enfim, tudo é uma questão de interesses, e eles mudam de tempos em tempos.

Costumo dizer que meu filho é uma enciclopédia ambulante, e é mesmo. Um Asperger típico, diga-se de passagem.

Comentei sobre o livro no meu blog há tempos:
http://bethblue.blogspot.com/2008/07/asperger-dicas-de-livro-e-filme.html

Beth Blue disse...

Os portadores da Síndrome de Asperge têm algumas características comuns, vamos a elas: a maioria são meninos, em geral eles são extremamente inteligentes, mas têm pouca capacidade de interagir com outras pessoas, com as convenções sociais e não compreendem comportamentos não verbais, entre outras.

Eu, como mãe de um Asperger, só teria uma correção a fazer aqui? eles têm pouca necessidade de interagir (e não pouca capacidade). Bem verdade que isso varia de caso para caso, mas meu filho é super social e tagarela. Mesmo assim, ele sempre preferiu os bichos aos seres humanos.

E vai ver ele está mesmo certo: sabe aquela estória, quanto mais conheço os homens, mais gosto dos bichos? Pois é.