domingo, 5 de junho de 2011

Saudades de nós!

Éramos Seis, Maria José Dupré
Quando respondi ao questionário literário fui espiar o que outras pessoas responderam, na pergunta “Qual livro cuja cena final jamais conseguiu esquecer?” a Luci do blog caso.me.esqueçam respondeu que tinha sido a cena final de Éramos Seis, me deu uma imensa vontade de reler. Já havia lido a não sei quantos anos atrás e segui a novela mal e porcamente, me lembrava vagamente da história e que eu havia gostado. Agora ao reler eu gostei imensamente talvez por que de certa forma me identifico com a narradora.
A história se passa na primeira metade do século XX, mais precisamente entre 1905 e 1942, D.Lola já idosa percorre a rua onde morou por anos, para visitar sua velha casa e começa a recordar sua vida. Uma vida simples com marido e quatro filhos pequenos, cheia de sacrifícios, pequenos sonhos e muita esperança. Em uma São Paulo que vai se transformando em uma cidade cosmopolita, industrializada e cheia de imigrantes. A casa era na Av. Angélica, ainda de terra, no bairro de Higienópolis, ainda muito longe do bairro elegante que se transformou. As recordações são em sua maioria ternas, mesmo quando fala da embriaguez do marido, da falta de dinheiro ou de suas preocupações com a mãe e as irmãs que moram no interior. Rigorosamente não tem grandes acontecimentos só a grande aventura de viver, os acontecimentos da cidade, a gripe espanhola, a Revolução de 1924 (belamente descrita do ponto de vista de um morador da cidade), a Revolução de 1932 em que o estado todo se mobiliza. A aventura de todo dia a escola das crianças, o filho que reprova, a carestia da feira, a vizinha e amiga amarga mas sempre pronta a ajudar, o marido ora nervoso ora carinhoso, as prestações que devem para quitar a casa, as poucas festas que frequentam, os sacrifícios que fazem, as pequenas viagens, o Natal, as visitas que recebem, as flores do jardim, a roupa nova...  é a vida que segue. O tempo vai levando um a um, primeiro a viuvez e a batalha para sobreviver, depois um filho que parte para trabalhar no Rio, outro que vai para o mundo como marinheiro, a filha que se casa com um desquitado e o mais velho que morre, éramos seis, agora cinco, quatro, três, dois e um. D. Lola fica só, não quer morar com os filhos já casados, escolhe viver numa pensão de freira, na solidão mas não triste ou amarga.
Eu me identifico e compreendo D. Lola, perdi meus pais e marido a não muito tempo, uma filha já é casada e mãe, a outra está partindo para outra cidade. É um momento de saudades do que fomos, apesar dos pesares, de saudades de nós mesmos. Como ela, eu fico me lembrando dos joelhos ralados, do primeiro dia da escola, do vestido bonito que uma delas usou, das festas que dei, da casa cheia dos amigos adolescentes, das pequenas brigas e grandes broncas, da alegria da formatura, um dia de sol na praia. Eu não vivo em solidão, mas muitas vezes me sinto só em um mundo que pouco a pouco deixo de compreender. O futuro imediato pertence as minhas filhas, o futuro longínquo a minha neta.  Como D. Lola “devo-me sentir feliz porque cada filho segue o caminho que escolheu” e eu fico com as lembranças, os álbuns de fotos e uma imensa saudade de nós!
“O que importa na vida não é o ponto de partida, mas a caminhada.” Cora Coralina

SOBRE O AUTOR
Maria José Dupré (1898-1984) – autora paulista, recebeu o Prêmio Raul Pompéia da Academia Brasileira de Letras por Éramos Seis, editado em 1943, atualmente é publicado pela Editora Ática.
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28 comentários:

Pentacúspide disse...

Nunca tinha ouvido falar deste.
Porém, livro com cena final que me dilaceraram de maneira diferente foram dois: O Planeta dos Macacos e Judas, O Obscuro.

Mônica disse...

Oi Ju, este livro eu li, é muito bom!
Ele é um livro infanto-juvenil, mas que aborda tema de adulto.É muito lindo e muito triste. chorei muito com dona Lola, emocionante!!!

Irene Moreira disse...

Muito boa a história e quando comentas o final que nos resta que é a partida dos filhos fico até mais leve em saber que tantos vivem esses momentos.
A felicidade estar em saber que estão bem colocados e aqui ficam as recordações, as tantas histórias que temos para contar. Ainda serás o elo de ligação de suas vidas.

Beijos e uma linda semana.

Celia na Italia disse...

Ju
Que bom ter lindas coisas para lembrar, que bom que vc está aqui para fazer diferença nas nossas vidas!

Lúcia Soares disse...

Um livro lindo, fácil de ler, pois é a vida de muitos de nós. Adorei a novela, no SBT, onde Irene Ravache fêz lindamente o papel da matriarca.
E o romance da irmã dela, (Jussara Freire) com um lindo rapaz (Paulo Figueiredo) foi um contraponto para a dureza da vida de Lola e dos filhos.
Lindo lembrar!
Beijo e boa semana!

M. disse...

Desconheço o livro e a autora.

Senti muito a tua parte pessoal do texto. Lamento-a nas partes negativas. Mas quem ama e tem está sujeito a perder. Por isso digo: felizes os que choram porque têm motivos.

Tu tens muito por caminhar. E se me ajudas a caminhar imagino aos que te são próximos:)

Abraço:)

M. disse...

Para o teu problema do blogger, tenta isso (tem funcionado com alguns)

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Roberta M. disse...

Jú, adorei esse livro, já tem muitoooos anos que li, mas lembro muito da D. Lola....essa semana Pandinha faz 10anos e me veio essa imensa saudade do começo da infancia dele....uma bobagem né?? beijocasss

Glória Maria Vieira disse...

Isso de partir dói, né?! Eu, por ex, quando vim embora para estudar aqui em MCZ, deixei meus pais e irmãos. Pra mim, foi mais fácil, de certa forma, porque minha rotina mudou e coisas novas foram me ocupando. Então, não deu tempo de sentir da forma que mainha sentiu, porque pra ela, ficou "um vazio", né?!:~ Enquanto que pra mim, entre aspas, não esvaziou... /Ai, não tô sabendo dizer, Juh. AUHSUAHSUHAUHSUAHS Mas você compreende até onde quero chegar, né?!:p

Pandora disse...

Eu já peguei muitas vezes nesse livro, nunca senti vontade de ler, é fogo, pela primeira vez fiquei afim de ler esse livro...

Que resenha emocionante Jussara...

Luana disse...

Ju, quando eu li esse livro -bem antes da tal novela - fiquei com taaaanta pena da D. Lola. Eu devia ter uns 12 anos. A vida para mim ainda parecia imutável. Mas hoje, lendo o que voce escreveu, devo concordar.
Eu que sai de casa, deixei minha mãe para seguir carreira acadêmica com o meu marido. Mas ela, como voce, nao esta so. Meu pai faleceu ha pouco tempo e tudo ainda eh muito estranho e dolorido, mas eh o fluir da vida e esse livro eh muito bonito em mostrar tudo isso.

Edlena Franklin disse...

Este é um que já li e reli inúmeras vezes... Adoro o estilo de escrita da Sra. Leandro Dupré, que acompanhei desde a infância com As Aventuras do Cachorrinho Samba, da Coleção Vagalume,em especial A MINA DE OURO, A MONTANHA ENCANTADA e A ILHA PERDIDA. ÉRAMOS SEIS eu equiparo a OLHAI OS LÍRIOS NO CAMPO de Érico Veríssimo: ambas as obras são de uma simplicidade tocante. Enquanto numa a personagem narradora descreve em minúcias os percalços de sua vida em família, na outra o personagem passa por um doloroso processo de desconstrução no qual seus princípios são modificados à medida em que ele se conscientiza daquilo que realmente importa em sua vida. Nas duas histórias há muita dor e admito que fico em frangalhos ao final da leitura, mas não deixam de ser lindas narrativas humanas, e conseguimos nos ver fazendo parte delas.

Anônimo disse...

Uau!!!
Que saudades me deu... Já li esse e outros como A ilha da fantasia, Escaravelho do diabo...
Vou até procurar para comprar. Eu adoro!!!
Boa semana.
Bjs mil
Teresinha
www.democratizacaodamoda.blogspot.com
Só consegui comentar como anônimo.

Apenas um lugar para ser ✿Lis disse...

Oi Jussara, que texto tão sincero e bonito. Eu lembro da novela, era mto pequena, lembro q gostava tb, mas não lembro da história...

Eu penso mto nessa fase da minha vida que ainda não chegou. Típico de mim, sempre com a cabeça no futuro... Mas sempre penso assim: "O que acharei desta decisão ou deste momento no futuro, qdo for um idosa?" Tento fazer o melhor, para que na minha velhice, eu sinta que vivi a vida da melhor forma possível. Às vezes penso que não adianta nada eu pensar assim, mas é natural de mim. Um beijo!

Christine disse...

Affff... escrevi, escrevi e escrevi e perdi tudo...hahaha
tem dias que tenho vontade de socar esse computador! :)
Mentira.... não vivo sem ele! Estou que nem os repórteres do seu post. Menina eu sumi, mas já voltei. Li tudo e amei a Mafalda, que foi muito bem colocada depois de seu momento rebelde quando não quis indicar pessoas para responder. A frase dela que mais amo é: "porque justo a mim coube ser EU." hahaha
Beijo e prometo não sumir de novo!

Luciana Nepomuceno disse...

Gosto muito deste livro. Gosto do sentimento que o acompanha. Gosto mais ainda ao vê-lo por seus olhos. Ando sentindo falta de você. Beijos

Leandro Luz disse...

Encontrei teu blog ao ler um comentário teu no blog "A menina por trás da Dama", pois achei teu comentário muito pertinente.

Adorei encontrar este teu "cantinho". Gostei muito dos teus textos e das tuas ideias!!

Voltarei mais vezes !

BsVoxx disse...

Jussara,

Eu nunca li o livro, mas acompanhei a novela capitulo a capitulo, ao ler seu texto me lembro de quase todos ... Me recordo que a novela foi produzida pelo SBT, sinto falta de que outros grandes clássicos da literatura nacional sejam mostrados na TV ...

Não tive filhos ainda, perdi meu pai e minha mãe vai se perdendo. Cansado de tantas lutas, há momentos q sou tomado por uma nostalgia enorme ... mas tento olhar o futuro com esperança ...

Bjs

Lufe disse...

Jussara

Estes momentos "flashback" nos deixam com nostalgia dos tempos felizes. Os tempos mudam, uns se vão, outros crescem, o mundo da as suas voltas.A gente segue em nossa caminhada, trilha novos caminhos, se delicia com novas alegrias, com as crias da nossas crias já criadas e tambem novos afazeres.Vivemos e ainda temos muito pra viver nessa vida.E isso é muito bom.
Como é bom perceber que fomos e somos felizes.

bjos

Mayara disse...

Eu amei Éramos seis, quando li livro, chorei de soluçar em várias passagens! É, eu choro lendo hehe Acho que é o hábito de se sentir no lugar do personagem. Um ótima semana!

Carla Farinazzi disse...

Oi Jussara!!!

Nooossa, me deu uma saudade agora, tão grande! Da Lola, dos filhos dela, o Carlos, o Alfredo, o Julinho, a Isabel, e todo aquele cotidiano dela de gente simples, comum. Quanto carinho eu tive por essa mulher tão linda! É um dos personagens da literatura de que sinto tanta saudade, como se a tivesse conhecido.
Você me deu uma ótima ideia: reler esse livro!! Tenho esse mesmo, da Coleção Vagalume.

Beijos

Carla

Fernanda disse...

Li este livro várias vezes no final da infância e na adolescência. Uma linda história que me deixava um tanto angustiada...Na minha família érmos seis também: casal, 3 filhos e uma filha (eu). Tentava imaginar como seria o futuro, dava uma pontinha de tristeza.

Então o tempo passou e continuamos sendo seis, acrescidos dos que foram chegando. Cada um no seu caminho, mas com a linha invisível do amor a nos unir.

Adelaide disse...

Jussara, que dlicia ver sob sua ótica esta história, eu a li a algumas décadas e depois assisti a novela, agora minha filha está lendo para o Colégio e eu estou acompanhando. Que saudades....
Muita luz e paz
Abraços

Anônimo disse...

fiquei pensando em voce, na imensa alegria de ver os filhos crescendo e criando asas, e na imensa tristeza de ve-los usa-las.

bj

Inaie

palavrasdeumnovomundo disse...

Jussara que a luz esteja em seu caminho!
Querida, não li o livro e não assisti a versão em telenovela, mas me despertou o interesse pela leitura...como sempre você faz.
É tocante a analogia que faz com sua vida atual e é certo que mexe conosco por que sabemos que esse é nosso mais provável destino.
"Filhos criamos para o mundo", sempre ouvi essa frase e disse para meus pais quando me interessou. Hoje, na situação de mãe, é claro que apesar de verdadeira ela me assusta, mas temos de encarar como uma condição quase que natural da vida, embora jamais saberemos o que nos reserva o futuro.
Acho que não deve ser fácil, porém, acredito que deve aproveitar esse momento que é só teu.

Querida, estou muito feliz que tenha conseguido voltar a comentar no blog, senti muito a falta da sua presença que já é imprescindível.
Estarei por aqui e te espero por lá.
Forte abraço querida amiga.
Rosa

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Jussara, esse livro eu li, pela primeira vez, obrigado (era na escola). pensei que ia achar mto chato, mas eu gostei (não contei para meus amigos pq iam tirar sarro da minha cara, na época). e depois reli...e reli de novo.

teu sentimento é igual da dona Lola, que tem saudades dos que amam, que muito amou em vida, se dedicou pelos seus. sua história de vida deve ser muito bonita, Jussara, daria um livro ótimo. E vc é um livro ótimo, de conteúdo e das grandes palavras.

bom dia

Atitude do pensar disse...

No meu Meme literário, coloquei-o como as primeiras leituras, lembra-me de tempos especiais, de um eu diferente. Não menor, nem maior, apenas diferente.

Monica™ disse...

A coleção vagalume fez parte do meu tempo de colégio. Qdo vejo qqr capa, de qqr título já me bate uma saudade, uma nostalgia ...