quinta-feira, 23 de junho de 2011

Humor e crítica no século XVII

Escola de Mulheres, Molière
Peças de teatros são escritas para serem encenadas em um palco, no meio da praça ou no picadeiro do circo e não para serem lidas.  Quem dá substância e sutileza aos personagens são os atores, sendo assim o texto escrito só tem os diálogos e as marcas de entrada e saída, o resto fica por conta do diretor e dos atores. O Desafio Literário* desse mês são peças  teatrais,  havia colocado uma outra peça na lista, mas já faz seis meses e...  decidi trocar e escolhi uma peça de Molière, um dos mais famosos dramaturgos franceses numa tradução  do não menos renomado Millôr Fernandes. As peças dele volta  meia estão sendo encenadas, O Tartufo, O Doente Imaginário e outras, você já pode ter visto alguma delas, no próprio teatro ou no cinema.
A Escola de Mulheres é uma peça bem simples, e de certa forma bem curta,  e conta com nove personagens. Arnolfo um homem quarentão   tem pavor de ser corno, por isso adota uma menina e a cria na maior ignorância possível e ausente do mundo, para que ela só lhe obedeça. Obvio que isso não podia dar certo! E não deu, Inês, a garota, conhece Horácio (filho de um amigo de Arnolfo) e se apaixona, após uma série de quiprocós e peripécias, até com direito a pai que chega do estrangeiro, o casalzinho chega a um final feliz! Comédias não têm final trágico. Os diálogos são bem engraçados e encenados deve ser melhor ainda, rs... A peça é uma crítica aos problemas morais e sociais de seu tempo, nesse caso a educação das mulheres e sua função no casamento.

Uma encenação de época em Versalhes
As mulheres já não eram muito valorizadas no século XVII,  e o autor se aproveita de Arnolfo, um ignorantão, para criticar como a maiorira pensava, e que por isso seriam traídos.  Vejam essa passagem: “(...) a moça com quem me caso possui tal inocência que minha testa jamais sofrera o agravo de um desenho novo. (...) Caso com uma tola para não bancar o tolo (...) Uma mulher esperta é mau presságio; eu sei o quanto custou a alguns casarem com mulheres cheias de talentos; me caso com uma intelectual, (...) e fico apenas sendo marido de madame.(...) Mulher que escreve sabe mais do que é preciso. Pretendo que a minha seja bastante opaca para não saber nem o que é uma rima. (...) Em suma, desejo uma mulher de extrema ignorância. Que já seja demais ela saber rezar, me amar, cozer, bordar!” Ao que o amigo replica : “Você quer uma mulher estúpida!”
Molière viveu para o teatro, de teatro, foi preso por causa dele, fez dívidas, brigou com o clero e com alguns poderosos por causa de teatro e poucas horas antes de sua morte estava no palco. Ele foi ator, diretor e escrevia suas próprias peças, era um homem culto e conhecia outras dramaturgias e encenações, principalmente do teatro italiano. Ele tinha formação acadêmica, estudou até os 18 anos, um recorde para época! Daí partiu para o teatro como comediante, entrou em uma companhia e mambembou pelo interior da França por 13 ou 14 anos, até chegar a Paris com sua própria companhia teatral. Em Paris tinha como mecenas príncipes e outros nobres, até que chegou ao ápice: ter como mecenas o próprio Rei Luis XIV e se apresentar frequentemente em Versalhes. Nem por isso deixou de ser satírico e irônico, de arrumar problemas com o clero, com a classe médica e com a burguesia ascendente, nunca deixou de retratar as virtudes e os defeitos da alma humana. Molière pegou as formas tradicionais da comédia e revitalizou-as, dando estilo e reflexão, em suas peças os contrários se confrontam, a verdade se opõe a falsidade e a Inteligência ao pedantismo. Com isso criou uma obra eterna e universal e tornando-se ele próprio um gênio do teatro francês.
“Prefiro um vício tolerante do que uma virtude obstinada.” Molière
SOBRE O AUTOR
Molière (1622-1673) – pseudônimo de Jean-Baptiste Poquelin, dramaturgo, ator e diretor teatral francês, escreveu e encenou A Escola de Mulheres em 1662. A tradução de Millôr Fernandes é publicada pela Editora Paz e Terra.


*Essa postagem faz parte do Desafio Literário do mês de junho.

16 comentários:

Luís Coelho disse...

O amor não tem que ver com a fidelidade e tanto elas quanto eles podem sofrer derrapagens na caminhada, mas se o amor é verdadeiro tudo desculpa e perdoa.

A nossa sociedade inventou pecados onde Deus semeou amor.

M. disse...

A primeira vez que fui ao teatro foi para ver uma peça de Molière...Nunca mais fui a mesma pessoa...

Um dos génios da humanidade. Incrível como muito do que eles escrevia se mantém actual, nomeadamente sobre a mente humana e suas pequenas perversões:)

Pentacúspide disse...

Teatro é algo que sempre tive dificuldade em ler devido à sua construção. Tirando Gil Vicente, Camus, A Comédia dos Erros de Shakeaspeare, e os gregos, não me lembro de ter lido mais teatros.
Jussara, eu não li nem metade do teu acervo literátio, sinto-me esmagado.

Celina Dutra disse...

Jussara,

Com você nunca tenho uma troca justa. Estou sempre absorvendo. É prazer ler cada trabalho seu.

Molière, você disse, "criou uma obra eterna e universal". Ainda nos tempos atuais perambulam por aí milhares de gentes que pensam como Arnolfo só não têm coragem de dizer com tantas letras como Molière fez Arnolfo falar.

Beijo

Fernand's disse...

é claro que não podia dar certo! rsrs



bjs, querida.

Lufe disse...

Imagino o quanto voce ficaria feliz em participar da montagem de uma peça de Moliere.
Naquela época, com aqueles costumes, aqueles figurinos, mulheres de cintura fina e corpetes, homens de calças justas de seda e seus babados e bengalas.
Para alguem critico como Moliere, era uma epoca de ouro.

bjo

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Jussara, não conheço qse nada de Molière, só sei do lado "teórico", de que era uma pessoa de alma-teatro.

já vou dar uma caça nesse livro, quero ler!
aproveite muito o feriado, viu? bjs e bom fim de semana

Talyzie Yanne Passos disse...

Oi Jussara,

Menina tou tão afastada de tudo, nunca soube o que era pegar um livro pra ler, comecei uns tr~es e parei com todos, espero que agora nas férias eu consiga dá um jeito nisto. Me sinto uma alienada só assistindo novela, viciei em Insensato Coração, tá uma coisa, não quero perder um capítulo.
Pra ser bem sincera todas as referências que tenho sobre Moliére são de teatro, nunca li nada dele. Também, o que dizer de uma pessoa que perde boa parte da noite dando audiência para a dramaturgia do Gilberto Braga. Eu sei é o fim.

Beijos e um ótimo fim de semana.

Valdeir Almeida disse...

Obrigado por ter feito esta resenha. Pouco sei sobre Molière.

Abraços e ótimo final de semana.

Flávia - Compartilhando Idéias... disse...

Oi Jussara,

Me parece mesmo que nem nas melhores histórias e peças de teatro os homens podem ser domados ou condicionados a viver como queremos. Tanto o homem quanto a mulher, por mais que seja criado para ser de um jeito, acaba sofrendo as influências do meio e nada daquilo que foi planejado acontece.
Gosto muito de histórias assim, reais. Por isso fiquei muito interessada em toda a trama.
Obrigada pela dica e pelas informações que sempre nos enriquecem.
Também queria deixar o meu abraço à você e agradecer pelas suas visitas ao meu blog sempre tão queridas e simpáticas!

Um ótimo fim de semana pra vc!
Bjs :)

Guará Matos disse...

Oi, tudo bem com você?
Como eu havia dito antes, estou afastado do Blogosfera por vários motivos, inclusive por conta do site “ABORDAGENS & IMPRESSÕES”/ http://abordagenseimpressoes.com/ que eu acabo de criar e publicar na Internet.
Gostaria de contar também com você por lá, acompanhe-o e também interaja comigo por lá.
Como todos nós sabemos, site tem uma dinâmica diferente do blog, é mais consultivo e informativo. É de maior abrangência, já que se pode explorar muito mais. O blog é mais direto e normalmente de temática única.
Me visite por lá e me siga. Vou gostar e ficar extremamente feliz e agradecido por mais esse voto de confiança.

Beijos.

Ivan disse...

Esse blog traz muita cultura de forma bastante agradável. Obrigado

Tathiana disse...

Sempre informativo e divertido.
Gostei de saber que o tal com medo de ser corno não logrou êxito! rs.
Beijos.

Paula Li disse...

Oi Ju, você sempre nos deixando com água na boca!!! Narrado por você, ler uma peça teatral parece moleza rsrsrs.
Não pude deixar de imaginar que os homens de hoje continuam com os mesmos medos, ainda mais em tempos que chifre trocado não dói!!!
Obrigada pela visita carinhosa,
Bjs

palavrasdeumnovomundo disse...

Te visitando e aprendendo cada vez mais.
Obrigada por proporcionar tantos conhecimentos para uma reles mortal como eu...rsrsrs

Querida tem um presentinho pra você lá no blog.

Beijos e ótima semana.

Rosa

Vivi disse...

Vir aqui é um aprendizado constante. Estou inclinada a ler Moliére.

Beijocas