terça-feira, 14 de junho de 2011

Futilidade, vaidade e aparência

O Retrato de Dorian Gray,  Oscar Wilde

Não sei como se define obra-prima tecnicamente em literatura, deixo isso para os críticos e estudiosos. Para mim obra-prima é um livro que é sempre atual, pertinente e nos leva a reflexão, seja escrito hoje, a 100 ou a 500 anos. O Retrato de Dorian Gray está nessa categoria, mesmo escrito há mais de cem anos, parece que foi escrito para ser lido nos dias de hoje.
Dorian Gray é um adolescente belíssimo, sua beleza é descrita várias vezes no livro, que posa para Basil, um pintor que produz um retrato de corpo inteiro. Basil diz ter posto sua alma na pintura, além de obviamente estar apaixonado. O melhor amigo do pintor é o Lorde Henry, um cínico aristocrata, que ao conhecer Dorian passa a influenciá-lo e a disputá-lo com Basil.  Henry diz a Dorian que só a beleza e a juventude têm valor em sociedade, que a aparência é que traz felicidade e desejos satisfeitos e que com o passar do tempo isso acaba, pois a velhice não é bela, rugas e pele macilenta devem ser escondidas. Dorian ao ver o quadro pronto deseja que o tempo só passe para o quadro e que o mantenha jovem para que possa desfrutar de todos os prazeres. O tempo passa, não tem jeito, e Dorian se torna egoísta, devasso e cruel, mas continua com os traços angelicais dos seus 18 anos. O retrato envelhece de maneira horrível, mostrando todos seus pecados, sua crueldade e sua vaidade egoísta. Dorian esconde o quadro num quarto onde só ele tem acesso e a cada atitude perniciosa corre para ver o quadro e a mudança operada.
O que Oscar Wilde discute é o valor da beleza numa  sociedade egoísta,  a vaidade e a busca da juventude eterna, em detrimento de um crescimento interior, da ética e do altruísmo, você já ouviu isso antes! Quando o autor discutia isso no século XIX, ele se referia a aristocracia inglesa, sua futilidade, sua vaidade e sua arrogância. Os pobres mortais que trabalhavam para que os aristocratas vivesse sem trabalhar sequer são mencionados no livro. Aliás, as mulheres quando são mencionadas é sempre pela ótica da frivolidade e com certo menosprezo, para os homens não passam de um mal necessário e um adorno. Todo esse clima hedonista é reforçado no livro com as descrições minuciosas de roupas, de objetos de toucador, de espelhos e do “ver e ser visto” em óperas, clubes e salões. A discussão permanece, mais do que nunca, atual. O século XXI nestes seus primeiros anos, exalta a beleza e  a procura  da eterna juventude e haja plásticas, comésticos, malhação em academias o que nos faz perguntar, onde está o retrato? Já que algumas pessoas com o passar dos anos ficam totalmente irreconhecíveis. Wilde já descreve os metrossexuais antes disso virar moda. As pessoas estão cada vez mais frívolas frente aos valores morais, aqui entra a fama a qualquer preço, pois estes valores não se pode “ver”, só o EU interessa e com isso reforçam preconceitos e perdem qualquer carater.  O culto à aparência  é o lema de qualquer propaganda.
Dorian descobre que a aparência resiste em sua eterna juventude mas a alma envelhece e a consciência cobra seus excessos. O autor nunca revela como o desejo de Dorian foi satisfeito e isso é brilhante pois tudo pode não passar de  loucura do personagem ou de uma metáfora para quem negocia sua consciência com o Diabo. O Retrato de Dorian Gray  tem uma carga homoafetiva, inclusive passagens do livro foram usadas contra Oscar Wilde, no processo que respondeu e foi condenado por sua ligação com um jovem aristocrata,  usa uma linguagem rebuscada  bem século XIX e retrata alguns costumes bem estranhos aos olhos modernos,  mas é uma leitura fascinante e é uma obra-prima.
Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos.” Oscar Wilde
SOBRE O AUTOR
Oscar Wilde (1854-1900) – escritor, poeta e dramaturgo irlandês publicou O Retrato de Dorian Gray em 1891.

24 comentários:

Lufe disse...

Este livro, uma obra prima a meu ver, nos leva a refletir sobre a efemeridade da aparencia, da super valorização das frivolidades.
Como você bem disse, é um livro bem atual, neste mundo de metrossexuais, silicones e botox.
Fica dificil encontrar o Eu, se as pessoas não se reconhecem ao espelho.Perde-se a identidade.


bjos

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Gozado que esse livro é antigo...mas é tão atual, né Jussara. Como é atual...e excelente.

eu gostei da sua definição para um bom livro, um clássico> atemporal.

um bom dia pra vc! bjs

Luís Coelho disse...

Já tinha ouvido falar deste livro e deste quadro que se repete nas nossas vidas.
Quantos quadros e quantas histórias semelhantes.
Somos o quadro e o pintor...

Luana disse...

Eu li esse livro em inglês. Adorei! muito mesmo!

Pentacúspide disse...

Sempre actual! Uma das leituras obrigatórias. Sobre este fizeram um filme que é uma merda, só consegui ver uns poucos minutos, porque não tinha o espírito da obra, mas foi transvestido para agradar a adolescentes.
E este livro é prenhe de frases engraçadas e paradoxos cómicos. Vou chutar dois das que tenho mais a mão: "gostava de saber quem definiu o homem como racional" e "o homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que não a ame".

Pandora disse...

Eu li esse livro bem recentemente, peguei um ônibus por engano (coisa mais ou menos normal na minha vida)fui parar numa cidade visinha a Recife e terminei lendo esse livro na viagem de ida e volta, é increvel como é de leitura fácil, fluida.... Me surpreendeu muito a homoafetividade presente em cada linha e atualidade do texto falando de beleza e narcisismo uma busca tão comum no nosso século, meu queixo caia e voltava para o lugar o tempo todo...

Se bem que quanto mais eu leio sobre o século XIX mais eu percebo que muito do que vivemos no XXI é uma continuidade das experiencias sociais e culturais que se desenvolveram nessa época, Wilde talvez nunca tenha sido tão atual quanto hoje.

#medo

Cinderela Descaída disse...

Esse livro é ótimo e Wilde um dos meus frasistas preferidos. Seria um ótimo tuiteiro.
Recomendo um conto escrito por ele que se chama: O Rouxinol e a Rosa. Belíssimo.
Bjs,

Luciana Nepomuceno disse...

este está no meu top 10 de todos, todos os tempos. Ele é maravilhoso em conteúdo e forma, cada frase é de uma precisão e beleza assombrosas. Que bom encontrá-lo aqui, sob teus olhos. Bjs

Pentacúspide disse...

fora do tema: acabei de conhecer um grupo de personagens brasileiras curiosas: lampião e maria bonita e a filha deles, alguém me sabe dizer se algum escritor escreveu sobre eles?

orvalho do ceu disse...

Olá,
Venho convidar-lhe para o meu post do dia 15 onde participamos um número considerável na BCFV em que debateremos a JUVENTUDE...
Participe vc também!!!
Seja sempre muito bem vindo(a)!!!
Bjs de paz
http://espiritual-idade.blogspot.com/

Rosa Lopes disse...

E eu não o li. Olha só, assumindo publicamente. Não importa, lerei.
Bj

BsVox disse...

Comecei a ler, mas achei a linguagem rebuscada e o livro meio q travava ... talvez pela minha frivolidade do momento q comcei a ler. ... mas fiquei com curiosidade de ler novamente ..

Apenas um lugar para ser ✿Lis disse...

Jussara! Q surpresa chegar aq e ler a resenha deste livro. Meu pai tem esse livro numa edição antiga, capa dura, eu tentei lê-lo durante minha adolescência, mas sentia dificuldade para entendê-lo, chegou um momento em q me perdi na história e desisti... Mas sempre tive vontade de terminar, pois lembro que achei mto interessante. Parece q vai ter o filme, não é? Quero mto assistir. Qto a sua resenha, vc escreve mto bem! Adorei!

Mto obg pelas suas visitas e palavras de incentivo. De vez em qdo em lembro do seu "relaxa" :) Tô tentando... Rs.. Obg pelos elogios, q bom q gostou da minha decoração! Beijos e um ótimo dia!

Ana Wants Revenge disse...

um dos meus livros preferidos!
portanto, ja me identifiquei com o blog.
vou fucar mais! :)

beeeijo
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Mônica disse...

Ju, no inicio do post você definiu um livro clássico. É isto que faz a diferença entre os livros. Livro bom, autor bom é aquele que fala ao além, a antes e a depois de si.Realmente, Oscar Wilde, escreveu para leitores, e estes são atemporais. Faz algum tempo que li este livro, mas lembro que ele é fascinante.
Bju

Adelaide Araçai disse...

Jussara, esse seu relato me aguçou a vontadce de le-lo. Adoro leituras atemporais. Por vezes converso com minha filha sobre alguns´filmes ou livros que continuam atuais e que na época seus "criadores" foram tidos como loucos ou sofreram algum tipo de perseguição....apenas por ser liberal em seu trabalho deixando fluir a forma como viam ou viviam o contexto.
Já anotei
Muita luz e paz

palavrasdeumnovomundo disse...

Jussara, mais uma vez me desperta o desejo por ler uma obra prima que não conheço.
Acabei de ler "1984" de George Orwell seguindo sua dica e até agora estou boquiaberta com a escrita tão atual, quase profética...
Vejo pela sua resenha que é o caso da obra acima, portanto está na minha lista de leituras.

Jú, não sei por que não consegue comentar no meu blog já que todos os demais (Brasil e Portugal e outros países) estão comentando normalmente.
Confesso que sou leiga e não sei te orientar, mas há colegas que tem uns segredos para resolver esse problema.
Tomara que consiga, pois, sinto falta de suas palavras por lá.
Grande beijo e forte abraço:)
Rosa

Renata C., UMA ESPOSA EXPATRIADA disse...

Nao... nao li o livro. De Oscar Wilde (ate' ja' publiquei um monte delas la' no BLOG) amooooooo as frases (como a que vc citou)! Ele sabia mesmo "escrever"!
Mil bjs, com saudades (desculpe o desaparecimento - momentaneo).
;-)

Mayara disse...

Mais uma vez você mandou muito bem! Eu amei ler o Dorian Grey, além de gostar demais do Wilde. Com certeza é uma obra-prima, seja lá como isso é escolhido rss Um abraço!

Anônimo disse...

vou ao Brasil em julho e levo comigo o seu blog - pra me ajudar a comprar livros novos. O problema e que eu nao gosto de ler traducoes. Voce pode me dar yumas dicas de bons livros de autores brasileiros?
Nao falo dos classicos, que esses que conheco,mas de autores novos, interessantes, gostosos,,,opa, to me animando aqui!

bj

inaie

Celina Dutra disse...

Não li - ainda - o Retrato de Dorian Gray. Não quis ler seu resumo, antes de ler o livro. Depois volto e comento.

Beijo

Elisabete Lira disse...

Seu blog é muito interessante...
Estou te seguindo.... Tenha um Lindo Dia!
Siga meus Blogs: http://cartasdeumcoracao.blogspot.com/
E http://deusemminhaalma.blogspot.com/

Glória Maria Vieira disse...

Um dia ainda leio esse livro, Juh. UAHSUAHSUHAUSHAUHS No colégio, li apenas um resumo e tal, mas sinopse não tem graça, né?! E os detalhes? E o meu olhar particular?

Beijo

marcospolo disse...

Realmente o retrato de dorin Gray é uma leitura deliciosa, envolvente do início ao fim, nos faz ver e rever conceitos que transitam pelo tempo com suas cargas conceituosas e preconceituosas. Oscar Wilde genial sempre a frente no seu tempo...