quinta-feira, 9 de junho de 2011

Clara, Blanca e Alba

A Casa dos Espíritos, Isabel  Allende
Sabe quando a gente gosta tanto de uma coisa que não sabe explicar? Pois é, sou eu nesse momento com A Casa dos Espíritos. Na primeira vez que eu li, fora as lágrimas inevitáveis, fiquei tão pasmada (existe essa palavra?) que como a última frase se liga a primeira, virei o livro e voltei a primeira página e o li todo outra vez! Só que dessa vez chorando.  Chorei por várias causas, a história é linda, o momento histórico descrito é trágico, toda boa casa latino-americana tem seus espíritos e seus “loucos” e por último a constatação que nunca, jamais eu escreveria com o talento de Isabel Allende, depois desse livro qualquer veleidade que eu tinha de chegar a escrever decentemente foi pro brejo. Eu só escrevo direitinho. Sou até sortuda, sei usar razoavelmente bem a língua pátria.
É  um livro escrito por uma mulher, falando de três gerações de mulheres e dedicado às mulheres da vida da autora: “A minha mãe, minha avó e às outras extraordinárias mulheres desta história”.  Mulheres que não são heroínas reconhecidas, que não são protagonistas da história maior, no caso a história do Chile durante parte do século XX, nem são feministas! Clara se casa sem amor, com o noivo da irmã que morreu, noivo machista, truculento e sem caráter, vive com ele até o fim.  Blanca se apaixona por alguém fora de sua classe, engravida, faz um casamento de conveniência com outro, abandona o marido e fica quase todo o tempo escondida em casa, sua filha Alba se apaixona, se envolve no combate a ditadura e é torturada.Todos os homens as traem,  não dão muito crédito a elas e muitas vezes sequer as levam em conta! Mas elas são as protagonistas de suas próprias vidas. Com seus recursos e suas teimosias, vão fazendo o  que têm que fazer: ensinam a ler os empregados da fazenda, abrigam os necessitados e escondem os fugitivos. Fazem por que precisa ser feito, simples assim, sem ideologia, filosofia ou generosidade cristã.
A Casa dos Espíritos conta a história do Chile do período, através dessas mulheres, seus amores e seus filhos. O patriarca é Esteban Trueba, que ao longo do livro vai ficando cada vez mais  rico, mais prepotente e mais cruel a quem lhe foi fiel, elas não ligam a mínima. Obedecem pela frente, ou melhor, nos momentos sociais e fazem o que  querem e como querem dentro de casa, ele é completamente impotente em sua própria casa. Clara sua mulher é vidente, vive num círculo imaginário na qual Esteban não tem qualquer acesso e nem entende. Blanca, ama em silêncio,  mexe com argila e faz estranhos animais para presépios, o pai desiste dela logo no começo. A felicidade de Blanca se resume a se encontrar com Pedro Terceiro de vez em quando, às escondidas. Alba é criada no meio dessas duas mulheres, de tios amalucados e estranhos, e dos amigos e protegidos da avó, dos alunos de escultura da mãe, mas cai nas graças do avô, talvez a única mulher que ele realmente se interessa em compreender. O casal  Esteban e Clara, têm dois filhos gêmeos, que foram criados em colégio interno, longe da magia e loucura da casa, um se perde pelo mundo, o outro se torna um médico altruísta, quieto e até mesmo ingênuo. Como o pai pouco se envolve com o acontece na casa. O golpe militar os pega de surpresa e muda a vida da casa, golpe que mudou a vida de muitas famílias, inclusive da autora. Blanca vai embora com seu amado (na verdade fugida com a ajuda do pai), o  médico é assassinado  e o senador Trueba descobre que os militares não vão devolver o poder, democracia é somente uma palavra no dicionário. Sua amada neta Alba é presa e torturada, por um sádico que é um neto bastardo de Esteban. E é Alba que  resgata a casa, a história da família e a esperança de Trueba.
Isabel Allende tem uma escrita límpida e fácil, mas nada é fácil nas suas mensagens e em suas  ideias. O livro de certa forma tem vários narradores, os diários de Clara, a voz de Alba, os pensamentos de Esteban Trueba e  a voz da autora. É  uma estrutura brilhante pois ainda nos deixa espaço para pensar e nos colocarmos no lugar dos personagens. Inveja branca pode? Diz que sim! Como ela escreve bem! Como ela nos arrebata com sua história! 
Existe um filme, de 1993, sobre esse livro, que eu odiei. Na minha fraca opinião de espectadora o diretor(um dinamarquês), os roteiristas (americanos) e até mesmo os atores (americanos, ingleses e um espanhol, Antonio Bandeiras) não compreenderam  absolutamente nada do livro, como uma cebola eles só tiraram a primeira casca e acharam que estavam contando a história, de certa forma dá até pena deles. Uma das minhas filhas diz que é a única coisa que ela não perdoa no Antônio Bandeiras é sua participação  nesse filme. Tenho dois amigos chilenos que são revoltados com o filme e um deles que estava no Chile na estreia, conta que simplesmente a plateia se levantou, na cara do diretor e de alguns atores, e abandonou o filme pela metade, além da mídia local incentivar um boicote ao filme. Alias dizem que nem a própria Isabel gostou, mas disso não tenho certeza. Por isso indico o livro vivamente mas desaconselho o filme, se você leu o livro não vai gostar do filme, se gostou do filme leia o livro e descobrirá outra história, aquela que vale a pena.
É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo (...)”  Pablo Neruda

SOBRE O AUTOR

Isabel Allende (1942 -    ) - escritora e jornalista chilena, escreveu A Casa dos Espíritos em 1982, a partir de uma carta que pretendia escrever para seu próprio avô,  publicado pela Editora Bertrand Brasil.

28 comentários:

Lufe disse...

Este livro é espetacular!
Você me instigou a rele-lo.

Li a pouco tempo o "Inés da minha alma" da mesma autora, tambem sobre a historia do Chile, mas na época da conquista, onde a personagem foi figura marcante. Vale a pena ler.

bjos

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Olha, faço do Lufe as minhas palavras, vontade de reler o livro, vc puxou esse sentimento bom.
é o livro

Jussara, o filme é horrível, não faz jus ao livro de jeito nenhum, concordo com vc.

bom dia!

Pandora disse...

Poxa Jussara, a maioria dos livros que viraram filmes eu li o livro e não vi o filme, isso é tão recorrente que eu as vezes até me sinto vergonha de dizer: "não vi o filme, li o livro"... Mas, ironicamente eu vi o filme "A casa do espiritos" achei legalzinho, talvez por isso nunca tenha lido o filme, mediunidade não é bem o centro do meu interesse literario. MAS... revolução, histórias de vida, história das mulheres e da Améria Latina é, ou seja, os produtores do filme mataram o livro isso é imperdoavel e eu vou correndo procurar esse livro porque é imperdoavel a uma professora de História não ter essa leitura no bojo.

P.S.: Engraçado, por esses dias vc já me "convenceu" a ler dois livros que eu nunca tive vontade de ler antes... Acho que tenho que agradecer \o/ Obrigada.

Luciana Nepomuceno disse...

Baby, esse livro é tão incrível que eu chorei agora lendo seu post e recordando o tanto que me marcou. É sempre insigante visitar este teu cantinho. Bjs

Roberta M. disse...

Taí um livro que ainda nao li, mas que voltou aos meus pensamentos agora, obrigada pela lembrança!! Beijocass

Celia na Italia disse...

Ju
Conhecia a história por alguém que leu o livro e que na época me deixou animada, mas por vários motivos me perdi e acabei não lendo. Agora com o teu relato, deixarei Eduarda na escola e encontrarei uma livraria para comprá_lo.
Adoro a autora e amo o Chile, acho que não deve existir melhores motivos :)
Um grande abraço

Ivan disse...

Poxa vida, se a sua sinopse já está espetacular, imagine o livro...
Abraço

Rosa Lopes disse...

Por causa do filme deu demorei muito pra chegar ao livro, comecei por Eva Luna e fui, fui a'te que só sobrou A Casa, melhor assim.
Hoje eu tenho um problema sério com Isabel, deixo qualquer outro pelos livros dela e brigo, brigo comigo (e com ela) por essa fraqueza, mas acabei virando leitora de 2 ou 3 autores. Estou louca pra ler o último, que se passa em República Dominicana.
Detalhe se encontrar em espanhol, não pisque, não duvide, nada como ler na língua em que o autor escreve, principalmente ela e Gabo.
Bj

Juliana disse...

eu vi o filme há um tempão e achei a coisa mais chata do mundo.

Pentacúspide disse...

Lembro-me de uma amiga me ter recomendado Isabel Allende e me emprestado um livro que não me lembro do título, "monte qualquer coisa, deuses ou algo", que tinha dois adolescentes apaixonados, era uma leitura fácil, mas o meu interesse literário na altura era outra, por isso deixei o livro ao meio, consequência, apesar de ouvir falar da autora como boa escritora, nunca mais peguei num livro dela. Preconceito? Sim, nada mais do que isso.

Cintia Branco disse...

Jussara,

Que resenha, morri de vontade de lê-lo, vou procurar na biblioteca para ver se o encontro. Sempre quando leio histórias de mulheres me vêem a cabeça a trilogia O Tempo e o Vento. Tem semelhanças?
Beijos

Elaine Tasquim Biason disse...

Oi querida...
Vim retribuir a visita ao meu blog e adorei oq encontrei aqui...
Isabel Allende é maravilhosa e escreve como poucas, com absurda sensibilidade...
Li e tenho o livro, também tenho o filme, que adoro...
Beijão e parabéns pelo blog, maravilhoso...

Pai do Coração disse...

Obrigado...sua visita foi importante...vou lembrar que também existem seus "cometários ocultos"...rs

ruma disse...

Olá.
Suas obras reconfortante fascina meu coração.

Por favor, olhe bonito garotas japonesas.

Comemoração das meninas KIMONO linda

A oração de toda a paz ...
Por favor, Tenha um bom fim de semana.
Saudações.and ABRAÇO FORTE!

A partir de Saga, no Japão.
ruma

Teresinha Ferreira disse...

Nossa, depois da sua resenha fiquei interessadíssima em ler.
Bom final de semana.
Bjs mil

Cinderela Descaída disse...

Jussara:
estou em dívida contigo. Ando amalucada, mas este é meu estado habitual na verdade.
Não li o livro e vi o filme. Mas acho que esse é um problema comum em transformar literatura em cinema. Sempre falta! Eu terminei de ler um livro recentemente (se quiseres, te mando o título) de um prêmio Nobel. Achei excelente e fui conferir a versão cinematográfica. Não aguentei. Achei péssima.
Mas o Banderas fez outro filme tendo como pano de fundo a ditadura chilena que achei muito bom. Não me lembro do título, mas é com aquela atriz oscarizada, a Jennifer Connelly. Talvez ele se redima perante a sua filha!
Bom final de semana!

Cinderela Descaída disse...

E tem mais outra coisa: estavam querendo fazer uma exumação no cadáver do Allende para verificar a veracidade do suicídio. Que coisa, hein?

Nina Tavares disse...

Oi Jussara!

Eu tenho um caso de amor incondicional por Isabel Allende e tudo o que ela represene na história do Chile. A considero magnífica!!!
Mas, cheguei a ela por causa do filme. Na época, eu era uma adolescente bem cabeça oca, que assistiu ao filme só para ver o Antônio Bandeiras. Entãon entrei para a Universidade, fui cursar História, e conheci o verdadeiro drama chileno. Foi quando li A Casa dos Espíritos. Desde então, não parei mais. Foram cinco releituras, uma mais apaixonada do que a outra.
Recentemente, Isabel Allende lançou um livro sobre a história do Haiti, "A Ilha sob o Mar", que estou com muita vontade de ler.

B-jussssssssssss! ♥

Sandra Portugal disse...

Já havia folheado esse livro na livraria! Depois do seu relato, já está na minha lista a adquirir!
bjs Sandra
http://projetandopessoas.blogspot.com//

ruma disse...

Olá.
Obrigado pela sua visita.

O coração lindo vai convidar toda a paz.
sua cor paixão...
Profundamente colorido espaço deixa no Extremo Oriente

forte abraço, do Japão.
ruma

Fernanda disse...

Eu li há tanto tempo, que agora deu vontade de reler! Também detestei o filme, aliás, nunca assisti a um filme sequer que faça jus ao livro.

Bom domingo!

José Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Na vagabundagem das letras rerorno à origem de sua visita pela qual agradeço. Bom demais o seu blogue! Tanti que vou tornar-me seguidor...
Obrigado por sua visita e volte sempre!
Abraço
Foureaux
;-)

Beth/Lilás disse...

Oi, Jussara!
Este livro é fantástico, inesquecível mesmo!
Tenho até vontade de o reler, pois sei que verei outras coisas que não percebi na época.
Eu vi o filme e concordo contigo, não foi satisfatório e o Banderas estava um horror mesmo. hehe
Os chilenos são extremamente politizados e cultos, estive por lá na semana passada e fiquei impressionada com o número de universidades que tem em Santiago, incrível!
E pra terminar, deixei também um poema de Neruda neste dia que comemoramos o amor e os namorados.
Estamos em plena conexão, amiga. hehe
beijos cariocas

Fatima Valeria disse...

Que tal ler Paula, tb da Isabel, no começo parece piegas, mas depois toma outras formas. Abraços

Celina Dutra disse...

Jussara,

Estou aqui chorando! Não vi o filme, ainda bem. Mas o livro é para ser lido, relido, trilido... Vim ver seu meme. Ainda não achei. Parei na Casa dos Espíritos antes. Mas vou ficar aqui no seu blog é uma mina de ouro, diamante, água pura, ar e energia!
Obrigada pela visita!
Beijo

Aline M. Gomes disse...

Minha reação a esse livro se resume no seguinte: chorei, chorei, chorei, chorei.

Ótima resenha!!!

Pandora disse...

Jussara o meu livro acabou de chegar e desde então o que mais faço é: chorar, chorar, chorar, chorar...

Obrigada por ter tirado esse livro do reino dos que nunca seriam lido e coloca ele na minha estante!!!

Claudia Halley disse...

terminei de ler esse livro esses dias! Fiquei completamente apaixonada! adorei seus a forma como vc falou dele. agora comecei a ver o filme, e tb estou odiando. n foi so simplesmente pq n entenderam a historia mas tb porque fizeram modificações muito importantes....é uma pena....mas vou terminar de ver para ter uma opinião mais bem formada. fiz algusn comentários sobre o livro tb: http://jardimlivros.blogspot.com.br/