domingo, 8 de maio de 2011

Sutil é a mudança

O Leopardo,  Giuseppe Tomasi di Lampedusa



   Garibaldi, nosso velho conhecido que lutou na Revolução Farropilha e nos levou Anita, bate nas costas da Sicília, luta pela unificação da Itália e consegue. Estamos em 1860 e o mundo vai se modificando, com certeza nossa Imperatriz Teresa Cristina (princesa das Duas Sicílias) não devia estar feliz. O Rei Ferdinando de Bourbon está muito infeliz, perdia seu trono e sua importância.  Dom Fabrizio Corbera, Príncipe da Casa Salina, não está exatamente infeliz, nem preocupado, está melancólico e vê diante de seus olhos todo um mundo que ele conhece e sabe lidar  ir se esmaecendo e modificando .
   Dom Fabrizio Corbera é o leopardo, pois leopardo é o animal do brasão dos Salinas. Um leopardo mais velho, sem grande fúria e ao fim conformado que o seu modo de vida está terminando e isto é inexorável. Esta sensação de melancolia e  decadência permeia todo o livro, sob a ótica de Dom Fabrizio que procura viver esse fim de uma era da melhor maneira possível, meio que se despedindo. Vai a caça sabendo que serão os últimos tiros, recebe convidados para jantar, onde exige toda a tradição, percebendo que não haverá outras recepções iguais. Sua esposa, filhos e filhas, parceiros e amigos não parecem ver o que acontece  bem a vista, o único que não só vê como usufrui da nova ordem é seu sobrinho, príncipe Tancredi Falconeri. Tancredi apoia a unificação, mais pelo afã juvenil  que por convicção, apesar de ser nobre e bem criado, não tem fortuna e  seu lado pragmático faz com que deixe de lado qualquer ideologia ou fidelidade de classe.Tancredi, contrariando as expectativas familiares, se casa com a filha de um negociante rico. Angélica vem de família sem brasão e sem história, estudou em  um famoso colégio interno em Florença, é bela e a  seu pai rico muito interessa um genro nobre, com interesse e influência política. A Dom Fabrizio só resta concordar e abrir sua suntuosa casa a essa união e a nova ordem que se instaura. Um leopardo que continua com sua altivez mas cada vez mais com espinhos em sua pata, tudo flui suavemente para o fim.
  Lembrei de O Leopardo por que de uma certa maneira me peguei tendo sentimentos muito parecidos com o de Dom Fabrizio, uma inadequação a esse mundo, um desconforto ao ver que em tudo que acreditava como honrado e certo não é mais assim. Sou filha do Baby Boom, do pós guerra,  onde se acreditava que os Direitos Universais dos Homens seriam respeitados. Hoje com tristeza vejo uma nação comemorar um assassinato, vamos dar nomes aos bois, que por muito pouco não foi um show de mídia. Um ato de vingança tão insano quanto o ato do morto. Não sou ingenua, muitos outros assassinatos e eliminações foram cometidos durante a história da humanidade e com certeza muitos comemoraram, mas nunca num mundo interligado da forma que é hoje e que se pretende igual, fraterno e livre. Osama Bin Laden não foi santo, mas foi treinado pela CIA, alguém me responda por que ele não mereceu um julgamento por crimes contra a humanidade?
   O Leopardo merece ser lido e visto, é um romance extraordinário e uma obra-prima da literatura italiana. Luchino Visconti filmou essa história, com tal maestria que é considerada sua obra-prima, foi um dos grandes papéis de Burt Lancaster. O filme é fiel ao livro e nele também está presente essa inadequação ao mundo que se apresenta. É mais fácil achar o filme em DVD que o livro, não consegui localizar edições recentes no Brasil, a minha edição é a do Clássicos Modernos da Editora Abril (1974), facilmente achada em sebos. Giuseppe Tomasi era o Príncipe de Lampedusa e siciliano, conta que se inspirou em seu bisavó paterno para escrever o livro, por isso passa uma verdade de sentimentos, sentimentos que ele também deveria ter, pois viu a Segunda Guerra mudar a face da Europa e destruir o solar da família em Palermo. Mudanças são inevitáveis,  concordemos ou não com elas, é a vida...
“Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.” Príncipe de Falconeri

SOBRE O AUTOR
Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) – Duque de Parma e Príncipe de Lampedusa,  escritor italiano, seu único romance é O Leopardo publicado em 1958, um ano após a sua morte.

16 comentários:

M. disse...

Excelente reflexão. Gostei da ponte que fizeste na relação como o caso Bin Laden... De facto assusta mesmo...E assusta-me porque não consigo explicar e muito menos compreender.

Não li o livros, vi o filme, que é fabuloso. Um dia deste atiro-me ao livro:)

Lidia Ferreira disse...

Minha querida ,
vim agradecre a visita e agradecer suas palavras, adorei seu blog tambem e ja virei seguidora
Um grande beijo

Deusa disse...

Parece ótimo,o tipo de livro que gosto,posso te dizer os livros que li?,não...não são sobre decoração e nem culinário...juroooo..rsrsrs.
Beijinhos
Deusa
vasinhos coloridos

Borboletas nos Olhos disse...

Li e vi e sempre amei. Você tem o dom de me adivinhar nas suas escolhas e no jeito de tocar nas questões. Ah, querida, voc~e nem imagina que bom, bom, bom que é, às vezes, em dias de muito cinza, fechar os olhos e pensar: Jussara. Obrigada por estar. Por ser. Bjs

Lúcia Soares disse...

Jussara, você, dentro do meu rol de blogs, foi a única a falar sobre a barbaridade cometida com Bin Laden, merecesse ele ou não. Feriram com ferro...Falei disso no blog EmQuantos e poucos comentaram.
Sobre o livro, parece bem interessante. Nunca ssisti ao filme, embora muito famoso, e gostasse de Burt e da Cardinalli. Adoro história, nem sei porque não li ainda.
Beijo e boa semana!

Guará Matos disse...

Menina você tem razão mesmo em afirmar que as mudanças são inevitáveis. Todo continuismo é espúrio.

Bjs.

A. Marcos disse...

vc é impressionante.

Pentacúspide disse...

Devia ter uns doze anos quando tentei ler isto; tinha visto o filme (não gostara, mas ficara impressionado com a cena dos leopardos), e foi o que me levou para o livro, mas a minha praia na altura não era leituras muito estruturadas e que não tivessem muita aventura, gostava mais de ficção científica e de terror e outras literaturas da minha idade. Depois já com uns dezassete, voltei a tentar ler o livro, mas a impressão de ser uma seca que me causara na primeira tentativa (anos antes) ainda continuava viva, por isso abandonei-o. És já a quarta pessoa que (me) recomenda o livro, e creio que merece um esforço, mas estou tão preguiçoso.

Fatima Valeria disse...

Li esse livro há muito tempo, quando soube seu titulo original "Gatopardo" hehe. Ficou em mim a decadência e a inadequação, do personagem com seu tempo, mas principalmente quando ele descreve a região em que vivia, se bem me lembro algo ensolarado, seco e desolador. Sabe o livro fazia parte daquelas coleções q vc encontra no sebo, aquelas que faltam alguns volumes, mas os que escaparam e chegaram a mim, foram sensacionais, este por sinal foi um deles. Bjs

Lufe disse...

Com as mudanças que ocorrem no mundo globalizado a America perde o seu encanto(?) cada vez mais vendo outros protagonistas ascenderem. Considero esta “vingança” um descarado golpe de mídia buscando novamente as manchetes como a pais justiceiro, supremacia do mundo, os defensores dos homens livres, os guardiões da liberdade e da democracia. Tentam elevar a moral do povo americano para salvar a economia do pais ainda em crise. Tentam saída honrosa(?) para os dois novos Vietnam que criaram.
O que me espanta é o Sr Obama, que eu acreditava ser agente de grandes mudanças sociais, se prestar a este papel de paladino da justiça.
Os nazistas que cometeram atrocidades maiores que as de Bin Laden mereceram seu Nuremberg. Osama virou jogada de marketing de Osama!
Que bom que eu achei um cantinho politicamente incorreto onde eu pudesse dizer isso....rs

bjos

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

o filme eu assisti. e a remasterização ficou ótima, é um filme belíssimo.

faço das palavras do Lufe as minhas. tá ai, a América de novo querendo fazer o papel de amiguinha dos bons, o negão só decepcionando...

Mônica disse...

Ju, a cada texto seu mais eu me identifico com você. Impressionante, como seu pensamento é igual ao meu ao se referir a toda esta subserviência que a mídia comete, e nos impõem como se fossemos um bando de alienados. Tudo isso que aconteceu é uma vergonha para a humanidade, e vamos nós dá por conformados se ele estiver mesmo morto, pois, conhecendo bem seu algoz, de outros carnavais, imaginamos o que deve ter acontecido.
Já marquei “O Leopardo” como livro para leitura obrigatória para mim, vou a sua caça.
Obrigada pela dica de leitura, pelo texto e por você.
Beijos

Celia na Italia disse...

Quantos interesses numa só trama!
Quanta realidade trazida para os dias atuais.
Belíssimo texto!

Cintia Branco disse...

Ju,

Gostei da trama, envolvente e com tudo o que gosto, vou ver se encontro por aí. Quanto ao assassinato comemorado, tive que explicar para o Felipe como uma "amigo" que era amigo e se transformou em "inimigo" acaba sendo morto pelo "ex-amigo", confusão mesmo, cheguei logo depois que Mestre Branco já tinha começado o assunto e me sobrou explicar a situação que se formou na cabeça dele. Eu da minha parte não acredito nesse assassinato, muita coisa não fecha, sem falar que o mundo se calou e aplaudiu, fiquei revoltada e não quis mais ver nada, rs. Obrigada pela força lá no blog, precisava falar, aquilo engasgado estava me fazendo mal.
beijos!!!

orvalho do ceu disse...

Olá, querida Jussara
Estive viajando por 20 dias e estou com as visitas em "dívida"... mas vou, aos poucos, recuperando o contato e apreciando o seu Blog que tanto gosto de fazer...
Espero que tudo esteja na perfeita paz!!!
O meu apreço fraterno
Deus seja a sua Força!!!
Fraternalmente,
Roselia (Orvalho do Céu)

Carla Farinazzi disse...

Oi Jussara,

Tenho sentido esse descompasso com o mundo (e com as pessoas em geral), na maioria dos meus dias. Sinto uma incoerência imensa, uma falta de lógica, e são sensações muito desagradáveis. Tenho preferido manter pouco ou nenhum contato mais profundo com as pessoas; sei que é difícil, mas tem sido bom pra mim. Contato mesmo, só aqui no blog.
Gostei muito de como você construiu esse post. Partiu de um clássico da literatura, escritor italiano, e nos conduziu até os dias atuais. Quando vi aquela multidão de gente comemorando nas ruas dos EUA, me perguntei: "Teria a Humanidade se imbecilizado?"

Beijos

Carla