segunda-feira, 16 de maio de 2011


SONHAR OU VIVER, QUAL É A QUESTÃO?
Marinho Pina
Pergunto, não há mundo melhor que isto?
Luto, para arrancar esse quisto,
Refuto, o marcado neste registro
De que bem só vivemos se formos mesquinhos.

Magro de sonho, abro os meus olhos,
sufoco, o mundo é louco e  tristonho,
E choro, eu choro e imploro: socorro,
é absurdo o mundo ser um poço de engonho,

Faço o quê aqui?, passo triste,
de aço em riste, golpeando-me todo,
Pois venço confrontos, e penso que os outros
é que tensos os pontos levam a rodos,

Mas pejo de pecado, eu vejo-me marcado,
e rejo com cuidado para livrar-me de engodos,
Arejo os mantos, protejo os cantos,
invejo os santos pela paz dos seus modos,

Eu quero a calma, que o erro da alma
em zero espalma, e lança-me ao lodo,
É onde enterro-me e esconde o mistério que
é a fonte de sinédoques deste mau jogo;

Minha amada história arrecada vitórias,
pancadas e memórias, e sinto-me afoito,
Mas acesas as velas, presas a elas,
vilezas e balelas vê-se que tenho acoito,

Pois em cada triunfo, medalhas e trunfos,
amealham-se arrufos e até mesmo ódio.
Se eu ganho alguém perde, e tacanho ou verve,
gadanho então ergue por ver-me no pódio,

E assim um imigo ruim vem comigo,
com o fim de em perigo, pôr todo o meu sonho,
Sou rico e sagaz, mas digo sem paz,
pois fico incapaz de nunca ter fogo,

E sempre em vigia, entre os dias,
quente ou fria na cota estou logo,
Guardas nunca baixo, bardas sempre encaixo,
e pardas assim eu acho as coisas, estou louco.


O Brasil abriga o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo que é a maior cidade do mundo que fala o português, somos mais de 240 milhões de pessoas falando português nos cincos continentes. A língua da mesma forma que nos une nos distingue, pois cada lugar usa as palavras à sua maneira, que mostra sua cultura, sua arte e seu modo vida. Adoro passear em blogs lusófonos e apesar do Acordo Ortográfico de 2009 confesso que muitas vezes não entendo totalmente o que leio, me falta a cultura local. Encontrei o Marinho em um desses passeios, um blogueiro de Guiné-Bissau que mantém um blog com seus escritos, nesse fim de semana ele me mandou o poema acima, onde o uso da língua e das palavras tomam todo outro sentido e rumo, ele até aconselha que se leia em voz alta, só não sei dizer com qual sotaque.
“A minha pátria é a língua portuguesa.” Fernando Pessoa
SOBRE O AUTOR
Marinho Pina – nascido em Guiné-Bissau e atualmente morando em Lisboa, arquiteto e escritor. Em 2006 publicou o livro de contos Fogo Fácil, distribuído em seu país pela KuSiMon Editora.

25 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Baby, este post veio a calhar...estava eu desejando comentar aqui, porque todo dia passo em silêncio e estava decidida que colocaria nem que fosse um oi!
Mas não foi preciso, porque tenho algo a dizer \o/
Visitar o Museu da Língua Portuguesa foi uma das minhas maiores alegrias, é encantador. Recomendo sempre. E eu também adoro conhecer essa língua tão nossa tão outra, leio sempre que posso textos em português não brasileiro...

M. disse...

É essa a vantagem de uma língua comum. Sem fronteiras, sem cores, sem preconceitos. Letras ordenadas e dispostas para a leitura...

O poema é muito bom...Além da forma tem conteúdo. O melhor de dois mundos:)

Inaie disse...

Parabens ao Marinho!!!

Juliana disse...

Eu " enlouqueci " no museu da língua. Me arrepiei naquela praça da língua.

Adoro os outros modos de falar o português.

Teresinha Ferreira disse...

Muito bom o seu poema!
Eu ainda não tive o prazer de visitar este museu.
Cada cantinho com seu jeito de expressar as vagabundas palavras, né? rsrs...
Tudo de bom...
Bjs mil

orvalho do ceu disse...

Olá, querida Ju
Creio que viver sonhando talvez não nos leve a lugar algum... entretanto... sonhar vivendo intensamnete é de muito bom tamanho, creio piamente...
E como sonho!!!
O sotaque fica por conta da nossa imaginação...
Bjs de paz e ótima semana.

Guará Matos disse...

Marinho Pinho arrebentou nesse poema e você sempre feliz em publicar boas qualidades.

Bjs,

Lúcia Soares disse...

Jussara, adoro tudo que se refere a Portugal, depois de conhecer tantos blogueiros da melhor qualidade.
Bom conhecer mais um, que ama sua pátria apesar de todos os pezares.
Beijo!

Lufe disse...

Gostei muito do poema do Marinho.
E como você disse, algumas expressões e palavras nos chamam a atenção.
Algumas distinguimos por aproximação ou sentido, conforme se apresenta na frase.
Fui buscar as que me instigaram mais:

Engonho – engonhar = habilidade para fazer o tempo passar, ocupando-o, sem que se faça nada de proveitoso ; É o nosso enrolar, embromar, engazopar
Pejo – vergonha, pudor, acanhamento, a gente tem por aqui o “me pelo”- Me pelo de vergonha.
Rejo – de reger – no sentido de encaminhar, dirigir, dar rumo
Acoito – acolhida, guarita, abrigo, refugio – O acoitar a gente tem também por aqui.
Imigo – forma sincopada de inimigo.

E gosto muito da leitura em “outros” portugueses e me pego a lê-los com sotaque.Só não sei sotaque de onde....rs
Os “postugueses” (língua) complicam quando falados, pois os sotaques e os ritmos nos obrigam a uma maior atenção.
Mas isso também não ocorre no interior de Minas, em Beagá onde comemos as palavras, com o gaucho da fronteira, com o nordestino do sertão do Cariri?
Como diria o Riobaldo: - "Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só fazer outras maiores perguntas."

bjo

Beth/Lilás disse...

Jussara!
Eu também sou fãzoca dos blogs lusos e vou lhe dizer uma coisa, podes pensar que sou maluquete, mas adoro lê-los com sotaque português.
É isso. Eu leio-os imitando o sotaque deles que conheço muito bem, pois tenho amigos de infância portugueses e convivi muito intimamente com eles.
Não conhecia este poeta que nos apresenta e realmente sua escrita é bem diferente, precisamos ler em voz alta para interpretarmos melhor, aliás sempre digo a quem lê poesias que assim o faça, em voz alta para, aos poucos, ir assimilando melhor as palavras e seus significados.
Estive há duas semanas neste Museu fantástico da Língua Portuguesa lá em Sampa - adorei - li e fucei todas as salas com curiosidade infantil. Eu e maridex adoramos essas coisas. hehe
beijocas cariocas

Nilce disse...

Oi Jussara

Perfeito o poema.
Adoro a língua portuguesa pelos seus divervos sotaques e palavreados que nos estonteiam a procurar significados mesmo dentro do Brasil.
Mas o sotaque de Portugal me encanta muito.
O uso da língua se diversifica, por ter vida é mutável em fala e escrita, independente de Acordos Ortográficos.
Sinto não conhecer o Museu.

Bjs no coração!

Nilce

Angela disse...

Muito bonito o poema dele! Parabéns!!!

A. Marcos disse...

Fernando Pessoa é ótimo. E vc anda inspirada, não? rsrsrs

Pentacúspide disse...

Ainda bem que gostaram do poema, pessoal, vou informar ao autor. Porém, julgo que não importa o sotaque com que é lido, pois duvido que conheçam o sotaque guineense, a leitura em voz alta é simplesmente para marcar a musicalidade criada pelo ritmo, rimas e assonâncias.

A diversidade da língua na mesma língua é mesmo incrível, eu, quando licenciava em Língua Portuguesa, tinha por hábito passar horas ouvir os cds com discursos dos oito países do mundo que falam a língua portuguesa, para aprender a identificar os sotaques e os regionalismos (que são incrivelmente variáveis, mesmo entre as pessoas que pertencem ao mesmo país). A língua é a coisa mais incrível que a humanidade tem, estabelece relações em todos os sentidos: para comunicar, para beijar, para degustar, para... aquilo. Viva a língua.

Fatima Valéria disse...

Oi Jussara!
Adorei o poema, se entendi,
posso até considerar que me identifico com alguns trechos.Lá vai uma letra de Caetano p pensar na Língua. Bjs


Língua (1984)
Caetano Veloso

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E um profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
o que pode
Esta língua

Vamos atentar para a sintaxe paulista
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Cadê? Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Hollanda nos resgate
E Xeque-mate, explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisa como rã e ímã...
Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé, Maria da Fé
Arrigo Barnabé

Incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o recôncavo, e o recôncavo, e o recôncavo
Meu medo!

A língua é minha Pátria
eu não tenho Pátria: tenho mátria
Eu quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
Será que ele está no Pão de Açúcar
Tá craude brô, você e tu lhe amo
Qué que'u faço, nego?
Bote ligeiro
arigatô,arigatô
Nós canto falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem,que falem.

http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/lingua.html#ixzz1MeqgJqam

Glória Maria Vieira disse...

Um dia, quem sabe, passearei por esse Museu, Juh. Assim espero! #oremos AUHSUHSHAHSHH *-* Vontade? Não me falta e ainda mais com sua indicação reforçando, né?!

P.S.: Meu professor hoje passou um filme que falava sobre escravidão e tal. Só lembrei de você, do poste de ontem! hihi Sua linda!:*

Paula Li disse...

Oi Ju, vim agradecer a visita e A FORÇA que sempre me dá.
Muito obrigada mesmo!!!
Estava meio sem graça de mostrar as fotos, sei que ainda tenho muito a aprender e desenvolver.
Bjs

Flávia - Compartilhando Idéias... disse...

Querida, obrigada pela tua visita e carinho lá no blog viu?? Por aqui a net continua super hiper mega lenta, mas aos poucos estou conseguindo deixar um alô!!!
Bjs

Mônica disse...

Ju, a poesia brota da alma de seu poeta, assim um poema é a tradução de uma cultura e edeologia, muitas vezes velada, de quem escreve. Devemos conhecer um pouco mais o poeta e seu mundo para ter um olhar intimo em seu poema.
Muito linda sua postagem.
Beijos

Fatima Valéria disse...

Novo post no meu blog. Tem algo p vc apesar da virtualidade de nosso contato. Abraços

Cantinho She disse...

Olá Jussara!
Fiquei de vir aqui com calma depois do lançamento da Glorinha, só passei rapidinho e não voltei... Que post interessante, que Blog interessante o seu, ah gostei muito.
Quanto ao seu comentário lá em meu Cantinho obrigada pelas dicas, viu?!
Mas quanto as revendas continuo achando errado, todo mundo sabe que usar um livro com fins comerciais é preciso ter autorização do autor ou da Editora, enfim...
Valeu pela atenção em querer ajudar! E parabéns pelo Blog ele é muito bom!
Beijo, beijo!
She

Catia Bosso disse...

Que lindo o poema do MArinho, muito profundo e sabio!

bj.

Rogério Pereira disse...

Com tantos (e sinceros) amigos
fica-me mais dificil ser pontual
nas visitas obrigatórias
e comentar (lendo tb os comentários)

Une-nos a lingua
que se cumpra o destino
(levo daqui versos do Marinho e de Caetano
esperando por um futuro, qualquer ano...)

Irene Moreira disse...

Concordo quando dizes que a Língua Portuguesa do mesmo tempo que nos une ela nos distingue.

Quando surgiu o Novo Acordo Ortográfico estava participando de um Concurso Público e o artigo tema da Prova de Português ressaltava o fato de se ter o Português de Portugal e o do Brasil. A polêmica que se criava quando se pensava em tornar a Língua Portuguesa única. Dificuldades quanto a vários dialetos e mais ainda ao conservadorismo dos portugueses à Camões. E por tudo que ali foi narrado acredito que sempre haverá o Português Brasil e o de Portugal.

Bem aqui está este poema que li em voz alta e que muitas palavras são entendidas no seu conjunto, mas tive que consultar os universitários para entender por completo.

Sempre bom estar aqui.

Beijos

Aline M. Gomes disse...

Apesar de morar fora do Brasil e estudar línguas diferentes, português sempre foi meu xodozinho!!!

A língua é indomável, por mais cabrestos que se criem é impossível criar uma única fôrma.
Somos humanos e estamos em constante mudança, nossa língua tb!

Um Abraço!