sexta-feira, 13 de maio de 2011

Pérolas negra

O Negro na Fotografia Brasileira do século XIX, George Ermakoff
Hoje se comemora a assinatura da Lei Áurea que libertou os escravos. Uma mancha histórica, sem dúvida, mas não estamos sozinhos nessa. A raça negra e suas inúmeras etnias influenciaram o Brasil em tal ordem que estão em toda parte e em pelo menos, segundo o IBGE, em 50% dos brasileiros. Os números aumentam bastante quando se toma por base os estudos genéticos, mais de 70% de brasileiros têm algum grau de ascendência africana, os genes variam nesses brasileiros de 10 a 100%. Isso torna o Brasil o país com a maior população de origem africana fora da África.
Muitos têm gotas ou litros de sangue negro, mas nós todos temos influência da raça negra que chegou aqui logo depois dos portugueses.  Dançamos samba, menos eu que sou cintura dura, nossos filhos jogam capoeira e conheci descendentes de japoneses, italianos ou libaneses que praticam essa luta. Comemos feijoada, acarajé e vatapá, isso só para falar das mais conhecidas. Sou filha de Yemanjá, confirmado em vários terreiros que tive o prazer de conhecer e você em algum momento deve ter querido saber e talvez até saiba de quem é filho! Quando no dia 31 de dezembro nós vamos jogar flores no mar estamos jogando para Yemanjá e pedindo sua benção, você nem se lembra disso lá areia em meio aos fogos. Você estará de branco, errei? Pois é... somos assim, somos brasileiros!
O livro O Negro na Fotografia Brasileira do Século XIX, traz fotos que contemplam um período de 50 anos após a chegada da fotografia no Brasil e os fotografados são negros com suas diferenças de faces, de posição social e de funções dentro da sociedade brasileira do século XIX, estão ora simplesmente posando ora com os instrumentos de seu ofício, ao final do livro tem até fotos de condenados presos.  George Ermakoff é um colecionador de fotos do século XIX e ao compor esse livro usou fotografias de sua coleção particular e de outras coleções que conheceu e pesquisou na Alemanha, França e EUA. Aqui, depois dos fotografados, os fotógrafos são também as estrelas, tem fotos de Marc Ferrez, Militão Augusto de Azevedo, Juan Gutierrez e outros. O que confere uma qualidade inigualável as fotos, bom gosto e estética. Muitas dessas fotos eram vendidas como cartões postais “exóticos” aos europeus que aqui aportavam, pois os europeus, em geral, viam muito poucos negros em seus países, se é que já tinham visto.  As fotos do livro estão divididas, na primeira parte faz-se um painel contando sobre o tráfico e a escravidão com textos primorosos, na segunda parte a divisão é feita pelos fotógrafos que se dedicaram a nos fotografar no século XIX, com uma pequena biografia deles, todas as fotos têm uma legenda explicativa o que confere mais informação e para mim mais deleite ao folheá-lo.
Para quem se interessa por nossa história ou sua própria história vale a pena ter esse livro, ao olharmos as fotos vemos as diferenças, a dignidade e o orgulho dos fotografados. E antes que alguém me corrija as pérolas são as fotos desse livro e negra é a raça dos retratados.
“Todos os homens do mundo na medida em que se unem entre si em sociedade, trabalham e lutam melhoram a si mesmos.” Antonio Gramsci
SOBRE O AUTOR

George Ermakoff - economista, colecionador de fotografias e editor brasileiro, publicou O Negro na Fotografia Brasileira do Século XIX em 2004 pela G.Ermakoff Casa Editorial.
*as fotos coloridas foram tiradas da internet.





22 comentários:

M. disse...

Em rigor somos todos africanos...Uma mais pálidos que os outros...lol

Justa e bela homenagem. Sem paternalismos:)

Guará Matos disse...

Belíssima exposição querida. Só não concordo com "raça negra", "raça branca", "raça amarela", raça vermelha"... Somo todos da raça humana.

Bjs.

Fatima Valéria disse...

Bem meu lado artístico e histórico,fala mais alto, fico encantadísssssiiiiiimmmaaaaaaa com as fotos! E acho muito legal vc lembrar que hj é um dia importantíssimo para a história de nosso povo, um dos útimos a libertar os seus escravos! Fica uma sugestão "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil" , Jean Batist Debret. São várias ilustrações e para cada uma delas um texto "explicativo". Creio que irá gostar de ver o olhar de um artista estrangeiro do século XIX, sobre o nosso modo de vida.
Amei este post! Bjs

O Guri disse...

Será que tem pra baixar na internet?

Acredito que seja um trabalho muito interessante de ver, fiquei curioso ;)

http://umgurientregurias.blogspot.com/

Mônica disse...

Toda nação é erguida com o sangue de seu povo, aqui devemos este sangue aos índios e aos negros. Eles construiram nossa identidade.
E viva o povo brasileiro!!!
Lindo texto, beijos

Deusa disse...

Concordo em numero e grau com o Guara,somos todos humanos.Mas ando realmente acreditando que existem espiritos que são totalmente atrasados,só assim se explica que alguém possa diminuir e escravizar seu proximo desta forma.
Deusa
vasinhos coloridos

Luana disse...

Jussara, vou na mesma linha dita acima, cientificamente nao existem racas humanas - desculpa, lado nerd sempre fala mais alto.

Achei as fotos que voce colocou lindas! Inacreditavel pensar que ha nao muito tempo pessoas escravizavam pessoas, oficialmente - porq isso ocorre ate hoje, em outros niveis.

Sera que ¨evoluimos¨?

Lufe disse...

Jussara,

Sem nenhuma intenção de criar polemica, ainda mais aqui em seu espaço, gostaria de exprimir também minha opinião.
Acredito, como o Guará, que a caracterização de “raça”, perdeu a razão de ser, até mesmo se olhando pelo lado genético.
Mas, “raça” se tornou hoje em dia um termo pejorativo, embora a legislação brasileira ainda fale em "Preconceito de Raça", como a lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010 que instituiu, no Brasil, o “Estatuto da Igualdade Racial”.
Talvez tenha sido um conceito usado alternativamente tendo se pensado nele como sinônimo de "etnia", que é num no sentido mais amplo, uma comunidade humana definida por afinidades linguísticas e culturais e semelhanças genéticas. Estas comunidades geralmente reivindicam para si uma estrutura social, política e até mesmo um território. A palavra etnia pode ser um eufemismo para raça, ou como um sinônimo para grupo minoritário.
Talvez seja por isso que nos Estados Unidos eles ainda classificam a sua população em “raças”, alegadamente para proteger os direitos das minorias.
Conhecendo-te como já conheço, tenho a certeza absoluta que em nenhum momento passou em sua cabeça utilizar-se deste termo de forma pejorativa.
O próprio texto é uma declaração de exaltação aos “negros” que compuseram, juntamente com os “brancos”, os “índios” e os “amarelos” a nossa população miscigenada.
Este termo, ainda utilizado das mais variadas formas, deve ser condenado quando utilizado de forma depreciativa e não da forma como foi utilizado, senão, correremos o risco, em nome do politicamente correto, de cada dia mais perdermos a nossa liberdade de expressão.

Ah, a negra da primeira foto, vestida de branco, é extremamente semelhante à minha babá, que permaneceu em nossa casa até quando eu fiz dezenove anos.
Fui praticamente criado por ela, pois minha mãe sempre trabalhou fora desde antes se casar.
Alice, o nome dela, de saudosa lembrança, saiu lá de casa, quando já formada em química (de nível superior) passou em um concurso publico federal.

Desculpe o tamanho deste “texto”.

Um beijo

Fernanda disse...

Excelente dica, acho que vou amar! Será que tem pra baixar?

Cinderela Descaída disse...

Muito bom!
E, como tantos já disseram, já não há mais raça. O mapeamento do genoma mostrou que as diferenças entre negros, brancos, asiáticos é praticamente inexistente. A cor da pele é um detalhe.
Eu sinto muita falta de comida baiana! Comia muito em Brasília, mas aqui no sul não faz sucesso. Gaúcho gosta é de churrasco.
E, não dá para falar em escravatura sem falar no continente dos escravos: A África. Então me lembrei de pronto de um ótimo livro que retrata as desgraças da África: No Coração Das Trevas, do Conrad. Por que o continente africano é o mais pobre, mais dilapidado, mais sofrido e a culpa desse estado lastimável também pesa, ou deveria pesar nos países que "colonizaram-na".
Bom final de semana.

Palavras Vagabundas disse...

Aos que perguntaram e aos curiosos, esse é um livro de arte, no caso arte da fotografia, acho muito difícil poder ser "baixado"! Como um livro de arte, vale as fotos em si, a diagramação das páginas, as cores das páginas e outros elementos ou seja, impossível apreciar pela tela de um computador. As grandes livrarias, em geral, têm um volume disponível para ser folheado, para quem quiser conhecer e não comprar, fica aí a dica.
bjs
Jussara

Ivan disse...

Fiquei curioso para ver o livro, essa coletânea de fotos deve ser sensacional... O Brasil sem samba seria brasil...
Abraço

Luciano A.Santos disse...

Jussara,

Muito interessante o livro. É bem como você disse no post: quem neste país não tem algo de ascendência africana? Não entendo como muitos desavisados ainda tem preconceitos quanto a isso. Somo um país miscigenado, não há espaço para preconceitos em situação nenhuma, muito menos aqui.

Grande abraço.

Fernand's disse...

não consegui desviar o olhar da mulher de turbante dourado.

muito linda!


bjsmeus

Edlena Franklin disse...

Belíssimas fotografias, belíssimos modelos. Padeceram bastante e ainda padecem, ao menos deixaram de ser "exóticos" e hoje batalham junto a demais grupos marginalizados pela vida por seu lugar, por respeito. Certamente tenho litros desse sangue, apesar de não possuir a ginga e a perseverança...

Alexandre Mauj Imamura (lostinjapan.tk) disse...

eu sou mistura de povos, japa parte de mãe e Europa parte de pai. e tenho traços de sangue negro, creio eu. E todo brasileiro deveria ter orgulho da negritude, independente de cor. áfrica é riqueza cultural, beleza, arte.

Que trabalho interessante de resgate histórico! deve ser um livro lindo, interessantíssimo!

(queria ser amigo do autor, pra poder ver a coleção de fotografias dele rs)

bom dia!

Allan Robert P. J. disse...

Belo texto. Sempre vivi muito ligado à cultura africana. Nem poderia ser diferente, sou brasileiro. Nesses anos de Itália me faz muita falta essa convivência e não apenas com a cultura negra, mas com aquela árabe (esfiha, kibe...), ou lugares como o bairro da Liberdade (SP) e toda aquela confusão calma de raças que temos no Brasil. A segregação por aqui é concreta como a muralha da China.

Glória Maria Vieira disse...

Bárbaro, né Juh?! Ai, que queria saber de quem eu sou filha. AUHUSUAHSUHAUSHAUHUSH Nunca pensei nesse viés da vida. :~

Pandora disse...

Respiro fundo sempre que falo de negritude e de afro-descendência, tema espinhoso esse, mas que me enche de orgulho. O estudo da história e cultura afro-brasileira é parte de meu oficio, também é uma luta politica, pq politica está em tudo... A abolição foi ontem, ainda há muito a se fazer, muito a se pensar, muito a se desconstruir e construir quando o assunto é história afro-brasileira.

Mas, estamos na luta... todo dia um pouco mais... esse livro que vc citou eu venho paquerando ele a um tempo... qualquer dia desses ele vem para minha estante, essa negra linda parece minhas amigas do Oxum Panda \o/

Adorei a postagem Jussara, como sempre bem pensada, bem feita... Não jogo flores para Yemanja, nem nunca procurei saber qual o meu órixa(afinal ainda sou crente néh), mas dizem meus amigos que sou de Nanã, a mulher veia, será!!!

Ah, a M foi perfeita: "Em rigor somos todos africanos...Uma mais pálidos que os outros...lol"

Rosane Marega disse...

Adorei o texto!
Mas, também fico com raça humana.
Beijossssss

Cintia Branco disse...

Ju,

Adoro livros de fotografias, acho um dom conseguir captar a essência do momento num click, como eu queria saber fazer isso.
Quanto ao carro, paciência, kkkk, Mestre Branco não se importou (muito) disse que o carro é meu, portanto, o problema é meu, kkk.
Grandes beijos

Adelaide disse...

Jussara, adorei a dica. Como sou "branca" graças a ajuda do escrivão da época, que embora fosse amigo de papai, que era negro, no ato de preencher o registro de nascimento por preguiça ou descuido colocou esta cor "escolhida" por ele....rsrs Sendo assim sou filha de negro com italiano e oficialmente tenho cor branca...kk Tá na prática não é assim e para o IBGE eu já assumi a minha cor... acho muito interessante analisarmos esses detalhes e nos sobra para reflexão datas comos está que foi muito importante aos negros da época...
Amo fotos principalmente as que nos lembram da nossa história, nossas referencias.
Abraços