sexta-feira, 20 de maio de 2011

Aos olhos da multidão

Fama e Anonimato, Gay Talese

Houve um tempo nesse mundo que jornalista era curioso, escrevia, ia para rua, conhecia seus entrevistados pessoalmente e procurava ter estilo. Tudo isso acabou! O Google responde as perguntas do ambiente, o entrevistado responde por email, a assessoria de imprensa manda um release sobre o assunto junta-se tudo isso num texto mequetrefe e está pronto o jornal de amanhã, a revista do domingo, a revista mensal. Ah, não se esqueça de ver se temos uma foto no arquivo ou mandamos um fotografo fazer a foto, sozinho!  O repórter vai ficar na redação.
Naquele tempo onde imperava a Bossa Nova e os Beatles (anos 60) todo jornalista queria ser Gay Talese. Mentira! Todo mundo que faz jornalismo quer ser Gay Talese, infelizmente hoje não dá. Ou melhor dá, largue a redação e vá escrever um livro-reportagem! Gay Talese é um ícone do chamado new jornalism ou como chamamos no Brasil jornalismo literário, é o estilo que procura se afastar do trilho puro e simples da informação, buscando tornar tudo mais atraente com uma narrativa de ficção. O melhor é que as reportagens dele eram impressas nos jornais diários ou nas revistas semanais, tudo rigorosamente checado e conferido pelo próprio autor, jornalismo como deve ser.
Fama e Anonimato traz algumas de suas mais famosas reportagens, que têm mais de 40 anos e ainda assim é uma delícia de ler. A reportagem sobre New York é feita sobre as incongruências de uma cidade cosmopolita, com seus personagens anônimos, seus diferenciais, suas curiosidades e seus números. Talese escreve sobre cada pequeno pedaço desse mosaico urbano, não esquece nem os gatos de rua. "A Ponte” é uma reportagem que ele levou pelo menos quatro anos apurando os detalhes, fazendo entrevistas e coletando dados conta a construção de uma ponte em New York, desde o impacto no bairro que tem que ir abaixo para ela poder ser construída até o final da construção. Estão lá os moradores do bairro, os engenheiros, os operários e como a ponte afeta suas vidas e modifica tudo ao seu redor. Essa ponte ficou pronta em 1964, em 2002 Talese resolve descobrir o que havia acontecido com alguns dos personagens dessa matéria, o resultado está no livro, uma cereja no bolo.
Por fim temos os perfis de algumas personalidades, Di Maggio (marido de Marilyn Monroe), Peter O’Toole então um jovem ator de 30 e poucos anos, Floyd Patterson e Joe Louis dois boxeadores da época e o mais famoso perfil: o de Frank Sinatra. O perfil de Sinatra, “Frank Sinatra está resfriado, é uma obra-prima de reportagem até hoje exaltada e estudada, publicada originalmente na revista Esquire em 1965, ao completar 70 anos , em 2004, a revista o republicou por considerar o melhor perfil que já havia publicado.
Esse livro foi publicado no Brasil em 1973 com o título Aos olhos da Multidão e se tornou uma raridade, minha edição é essa. Em 2004 foi reeditada com nova tradução e duas novas reportagens foram acrescentadas, a de 2002 sobre a ponte e uma sobre a feitura do perfil de Frank Sinatra, “Como não entrevistar Frank Sinatra” da década de 80. Este é um daqueles livros inesquecíveis, nunca mais você vai ler um jornal ou revista com os mesmos olhos, vale a pena ler quem gosta de reportagens bem escritas, quem gosta de boa literatura (agora o Talese me mata!) e para quem gosta de escrever.
“O jornalistas, hoje, ficam dentro de um lugar fechado olhando uma tela, quando caminham pelas ruas estão sempre olhando a tela de um telefone celular. Eles não conseguem ver o que acontece ao redor e só enxergam a vida a partir de uma tela.” Gay Talese
SOBRE O AUTOR
Gay Talese (1932-  ) – jornalista americano que  ajudou a consolidar o jornalismo literário no panorama mundial, aos 79 anos ainda escreve. Fama e Anonimato   foi publicado  pela Companhia das Letras.
*Esta postagem faz parte do Desafio Literário.

19 comentários:

Celia na Italia disse...

Não pertenço a este meio mas uma coisa posso dizer com propriedade, nada mais é como antigamente.
Hoje o superficial tomou conta de tudo e nós, fingimos ser intelectuais entendidos sendo levados pelo lixo espalhado em qq meio de comunicação.
Ainda bem que vc está por aqui para me fazer acreditar que não sou uma extra terrestre :)

Roberta M. disse...

Ju, fiquei agora louuuucaaa prá ler esse livro, já abri o site da Saraiva e já vou fuxicar, ai menina, porque vc faz isso comigo rsssss?? Beijocasss

Gritos de Mulher disse...

Olá!
Vim retribuir a tua visita lá no meu cantinho...
Muito legal o teu post, tbém fiquei com vontade de ler este livro.
Uma das coisas que mais gosto é ler. Agora estou lendo o livro da Ingrid Betancourt. Estou gostando.
Um grande abraço pra vc!

Misturação - Ana Karla disse...

Jussara, esse livro aí me deixou curiosa.
Não sou jornalista mas quero aprender e ver mais, sempre mais.
Bom final de semana
Xeros

Lufe disse...

Jussara,

Foram-se os grandes jornalistas. Tantos os "literarios" como o Talese, como os investigativos e tantos outros.
?No jornalismo de hoje, a gente nota que eles são comprometidos com o status quo.São reportagens comerciais. Quase tudo materia paga.
Essa fala do Talese que você colocou no final é fantasticamente precisa: Não existe mais o olhar ao redor, o filling do reporter, existe apenas o olhar pela tela dos computadores.

bjo

Guará Matos disse...

Vivemos hoje numa sociedade de merda, realmente!
Tudo esta se perdendo no óbvio, no politicamente correto, na cerveja sem álcool, na falta de emoção.

Bjs.

Cinderela Descaída disse...

Oi!
Adorei a dica. SAbe, já quis ser jornalista, mas a faculdade de jornalismo era tão bagunçada...e eu tinha essa ideia romântica do jornalista investigativo ao estilo de Todos os Homens do Presidente.
Agora, a New Yorker e a Slate, duas revistas norte-americanas ainda tem artigos excepcionalmente bem escritos. Das publicações nacionais, destacaria a Piauí.
bjs,
PS: Obrigada pelo elogio ao meu arremedo de conto.

Inaie disse...

e eu, que ja fui jornalista na outra encarnacao, fico aqui, triste, triste por nao ser mais.

Fernanda disse...

Obrigada pela dica.

Não sou jornalista mas como leiga digo que as entrevistas do jeito que são feitas hj em dia deixam passar em branco muitos lances que sem o olho no olho passam despercebidos.

Glória Maria Vieira disse...

Juuuuuuuuuuh! Que fantástico. Louca, louca pra lê-lo! Vou até procurar por aqui pela net se tem pra baixar, senão, o comprarei de certeza.

Ivan disse...

Caramba, mais um livro na lista para comprar... vc vai me falir rsrs.... Excelente post!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

nossa, esse livro é demais! é escrito pelo grande do jornalismo, o que realmente sabe fazer e não vive de firula -copiou- colou- e- nem- pensou.

é o melhor!
Um ótimo domingão pra vc, Jussara! bjs

Rogério Pereira disse...

Tudo o que escreve sobre essa realidade se aplica também a Portugal. Hoje não há mais jornalismo (nem talvez jornais). A imprensa está limitada a ser veiculo de redação dos fazedores de opinião, em sentido único... Os jornalistas de antes, hoje escrevem romances. Não por opção mas por imposição. Sua letras deixaram de fazer parte das palavras necessárias. Na seara, sobrevive o joio...

Glorinha L de Lion disse...

Hum Jussara, fiquei com água na boca...já tinha ouvido falar nele no Manhattan Connection... Em tempos de google e blogs, qq um se acha bom escritor...altamente recomendável pra quem se acha sem ser...rsrs beijão,

Fatima Valeria disse...

Jussara, obrigada pela visita,fiquei feliz em celebrar tb c vc.
Adorei a sua escolha e principalmente sua opinião. É isso aí, superficialidade, manipulação, pensar dói...e dá trabalho. Bjs

Pentacúspide disse...

Eu já trabalhei como jornalista ou repórter, sei lá, ou pelo menos trabalhei para um jornal durante algum tempo e tinha de fazer reportagens e entrevistas, antes de me fixar como cronista; e o que aprendi nesse período foi que se o texto dos jornalistas hoje é pobre não é bem pela pobreza dos próprios, mas das pessoas para quem se dirigem (posso estar a enganar-me, porque é certo que há bons pares de jornalistas pobres). Mas, vamos ver uma coisa: há uns cinquenta anos as pessoas liam jornais e liam de verdade, hoje só passam os olhos, e preferem ver a TV, e a massa que saber ler (só ler, não interpretar) é incrivelmente maior que antes, e a massa que interpreta é bem reduzida, pelo condicionamento da TV e outros meios, e prefere tudo mastigada. Acho que isso contribui bastante para o nível da produção jornalística actual, sem falar, como referiu Lufe, no foco comercial e publicitária dos artigos. Jornalistas escrevem sobre Saramago e centram-se mais nos fatos Armani dele (nunca li tal coisa, só estou a criar uma ilustração).

Irene Moreira disse...

Jussara
Um livro recheado de boas e interessantes noticias. Ler sobre New York com tantos detalhes e focado em tudo que está a sua volta me fascinou. Conhecer NY é um dos meus sonhos e tudo que possa saber só aumenta a minha vontade.

Gosto de escrever, mas ainda tenho muito que caminhar e aprender. Livros como este mostrando boas e detalhadas reportagens só vem a engrandecer essa arte.
Gostei de ver o seu layout e de te conhecer.
Quase não venho te visitar, mas sempre a encontro em outros blogs e admiro seus comentários pela sua forma autêntica de quem conhece muito bem o mundo literário.
Beijos e uma boa semana

Nilce disse...

Oi Jussara

Aguça a nossa curiosidade num tempo em que o jornalismo deixou de ter assunto e virou reportagem/tragédia.
Uma pessoa com esta inteligência deve ter reportagens sensacionais com assuntos interessantes e não esta porcaria que está por aí.

Bjs no coração!

Nilce

Vivi disse...

Faz falta olhar que bem reporta, sem sensacionalismo barato. Hoje entrega-se à tecnologia a tarefa de pensar e dizer. Por isso, tudo parece ter um gosto artificial. Bela resenha e ótima dica de leitura.

Beijocas