sábado, 9 de abril de 2011

A primavera das meninas

Clarissa, Érico Verissimo

Clarissa tem 13 anos e quer usar salto alto, um saltinho que seja, mas a mãe diz que é cedo só podera usar quando fizer 14 anos. Clarissa vive nos anos 30 do século passado.  Clarissa, filha de fazendeiros,  mora em Porto Alegre na pensão da tia Zina e  vai para escola. Clarissa é criança, brinca com as flores do jardim, com as galinhas do quintal, arrelia o papagaio da pensão. Clarissa é moça com seu uniforme e sua boina branca, parada em frente as  vitrines cheias de vestidos e bolsas.  Como será ter um  namorado, como será um beijo?  Há tanto o que pensar! E ainda tem que estudar. Tanta gente diferente na pensão:  tia Zina a trabalhar, tio Couto a dormir. Levinsky passa a noite a estudar, faz Direito o coitado. A costureira vizinha e seu filho aleijado, o bonde cortou a perna do menino.  Belmira namora o guarda-civil. Seu Amaro tão gentil, toca o piano todas as noites quando chega do banco. Seu Barata tão gordo e sua esposa Ondina, ela usa baton! Todos  os dias iguais, ir a escola e fazer lição, todo dia uma novidade, uma atenção despertada, a vizinha maliciosa, a amiga sapeca que olha os rapazes.  Enfim 14 anos e os sapatos de salto. O ano escolar acabou, ufa!  Passei! Vou para casa ver papai e mamãe,  a fazenda... tudo igual, o que me espera lá? Depois do que  vi e do  tanto que aprendi.
Clarissa é a história da vida  de uma menina que se faz mulher, seu cotidiano, seus pensamentos e seus dilemas  durante um ano. Tudo tranquilo, não acontece  nada de extraordinário, exatamente com na vida real, mas tudo é novo para ela. É um livro para nos lembrarmos  do deslumbramento  diante da  vida,  pela perspectiva de todo um futuro pela  frente.
Escolhi esse livro para “esquecer”  no dia 8, como moro perto de duas escolas  ia deixá-lo em uma praça por onde passa a maioria dos estudantes, já até havia começado a escrever sobre ele num tom alegre e gracioso. Após os acontecimentos do dia 7, aqui no Rio, não tive coragem. Sou mãe de duas meninas, hoje mulheres, e avó de uma garotinha de 8 anos, Clarissa e seu universo me toca de perto.  Acabei por deixá-lo hoje no balcão dos correios. Este post é dedicado a todas as Clarissas de Realengo que tiveram suas vidas interrompidas no começo de suas primaveras.
PAZ
SOBRE O AUTOR
Érico Veríssimo (1905-1975) – escritor gaúcho, é um dos escritores mais populares do Brasil, Clarissa é seu primeiro romance publicado em 1933, atualmente sua obra é publicada pela Companhia das Letras.

27 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Seu post me fez chorar. Tudo, por agora, faz-me chorar.

Guará Matos disse...

Doce e singelo, lindo e adorável.

Bjs.

Christine disse...

Triste, Ju...
Só isso me cabe dizer.
Bj enorme.

Lufe disse...

Você conseguiu de forma singela e brilhante mostrar todo o seu repudio e homenagear as Clarissas de Realengo, que não terão mais o tempo de se tornarem mulheres.

bjo

Mônica disse...

Puxa!!!!
Puxa!!!!
Fiquei curiosa sobre você.
Fiquei curiosa sobre você.

... sem mais Palavras.


Beijos

Irene Moreira disse...

Muito boa a sua escolha e Clarissa reprsenta essa menina que quer ser mulher.

Confesso que não tive a felicidade de me entregar a leitura nos primórdios de minha vida, mas hoje tento recuperar o tempo para ler o que me for possível por que alimenta a minha alma e me faz feliz.

Rabisco meus testos muito amadoramente, mas o faço com sentimento e é esse amor que dar asas a imaginação.

Tragédias como essas nos abalam e mostram como falta amor e fé nesta vida.

Cheguei de mansinho depois que li seu comentário na postagem da Beth Lilás e como gostei de estar aqui e aprender um pouco mais.

Beijos e um bom domingo

A Viajante disse...

Muito bacana o livro, gostei da historia me interessou bastante, parece ser bem doce e suave!!

beijos!!

Giuliana: disse...

Oi Ju,

O livro deve ser encantador, ler sobre as descobertas de uma fase tão gostosa, que muitas de nós já passamos. ;oD

E que delicada homenagem às vitimas de uma tragédia inesquecível.

Beijos

Cintia Branco disse...

Ju,

Emocionante sua homenagem, quem conhece o livro entende de forma única tudo o que foi ceifado dessas famílias e dessas meninas. Lamentável.
Grandes beijos

Elaine C Chieppe disse...

Oi Jussara, bela homenagem do seu post, essa dor é de todas nós né. Não conheço esse livro mais já está na minha lista de leitura. Seu blog é encantador. Estou passando para dizer que gostaria muito de tê-la como seguidora do meu cantinho. Sigo-te também. Bjos.

Isadora disse...

Jussara, não tive oportunidade, ainda, de ler esse livro, mas ficou a dica.
Adorei o livro que você esqueceu e tenho certeza de quem o econtrar fará uma deliciosa leitura e linda, a homenagem que fez as meninas que tiveram seus sonhos brutalmente ceifados.
Pensei duas vezes em deixar a data do dia 08, depois que tomei conhecimento da tragédia, mas confesso que em um dia de tanta tristeza me fez bem esquecer o livro.
Obrigada pela participação e ajuda na divulgação.
Um beijo

M. disse...

Esta homenagem só podia ser tua!!!

És grande!

Celia na Italia disse...

Belíssimo texto, ótima dica de leitura e homenagem digna de quem sabe o que diz!

Adriana Alencar disse...

Saudades da infância, quando li esse livro lindo!
Beijo
Adri

Apenas um lugar para ser (Lis) disse...

Oi Jussara, essa tragédia marcou a tds. Parece que olhamos nos olhos uns dos outros sem saber oq dizer.. Acho que após tanta festa (carnaval), onde tds esquecem, ou procuram esquecer a realidade, essa tragedia nos trouxe de volta ao mundo em q vivemos...

Olha, dos livros q vc já comentou aq, esse foi oq me deixou mais animada para ler. Parece tão sensível, tão bonito.. Desejo mto lê-lo ainda.

Uma excelente semana pra vc!

Beijos!

Lu Souza Brito disse...

Oi Jussara,

Uma bonita homenagem as crianças de Realengo...
Parece um livro muito bonito mesmo e quem o encontrar, com certeza ficará muito feliz!
Obrigada por sua visita.
Bjos

Negação de Irene disse...

A história é linda e a realidade é triste!

Luciano A.Santos disse...

Depois de uma tragédia tão grande, esuqcer um livro, na esperança de que ele toque a vida de outra pessoa, ganhou uma representatividade ainda maior, e seu texto expressa bem isso.

Grande abraço.

Luana disse...

Obrigada por me lembrar do Flicts la no blog da borboleta... =)

Mônica disse...

Olá Ju, tem um meme pra ti lá no blog, beijos

Cinderela Descaída disse...

Que lindo!
Eu li esse livro já faz tempo e é uma delícia, pois mostrava um crescimento sem atropelos, sem a loucura que é hoje, quando meninas de dez anos se acham pré-adolescentes e querem crescer.
E linda e delicada a tua forma de tratar dessa tragédia tão martelada na cabeça das pessoas de uma maneira nada sutil. Fiquei nauseada com a cobertura da mídia e mais ainda com a reação da classe política.
Parabéns! bjs

Juliana Galante Magalhães disse...

Oi Ju

sua homenagem é muito especial. Tão especiais são as primeiras primaveras... Tudo tão agora não é mesmo?
Fiquei louca para ler o livro...
Beijo no coração
Juju

Misturação - Ana Karla disse...

Ah, Jussara
tem muitos livros que ainda quero ler.
Meu interesse na leitura começou quase na fase adulta, e fico querendo abraçar todos que passam na minha frente. rs
Até me perco um pouco, mas vou indo.
Me interessei por Clarissa. Vou anotar.
Xeross

Anne disse...

Muito triste lembrar das meninas que não tiveram chances de tornarem-se mulheres... Maravilhosa sua escolha, Ju!

Ainda não comecei a "esquecer livros" por aí, mas quero muito participar!!

Ainda não li Clarissa, mas acho que uma amiga minha tem, vou pedir emprestado, rsrs

Tenho lido bastante ultimamente, e tô super empolgada!

Obrigada pelos votos de feliz aniversário, tá? Saudades de ti!

Beijos!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Que maneira delicada e bonita vc tocou no assunto sobre o que aconteceu em Realengo, o pedido pela paz.

Que realmente essa coisa singela e inocente contida no livro Clarissa reine, a paz. Eu li esse livro há mtos anos atrás, qdo era adolescente. E me encantei. Toda vez que vejo glicínias, me lembro do livro...

um bom dia pra vc, querida Jussara!

Luma Rosa disse...

Hoje será celebrada a missa de sétimo dia para os mortos dessa chacina e diante deste colapso social, imagino como estarão mexidas as cabeças das crianças sobreviventes à tudo isso. O mundo precisa de mais delicadeza, de pais presentes e amorosos! Pensei na família do tal rapaz bandido que a mídia não fala - seria ele sozinho no mundo? Ele e seu computador somente? Teve sonhos um dia? Socialmente ele foi uma cria do sistema e penso que, se os pais não precisassem trabalhar tanto, se não tivessem tantas preocupações, se o estado cumprisse o seu papel dando ao cidadão o que é de direito básico, não haveriam tantos crimes.
Poderíamos voltar ao tempo de Clarissa!
Beijus,

Rike disse...

Olá, Palavras Vagabundas!
Eu também gostei de ter lido deste livro há algum tempo atrás. Boa dica!
Bjs!
Rike.