sexta-feira, 25 de março de 2011

Um Ronin no caminho meifumadô

Lobo Solitário, Kazuo Koike e Goseki Kojima


 Grande parte de minha vida convivi com japoneses, aos 10 anos morava no norte do Paraná, onde existia uma enorme colônia japonesa.  Na escola convivia com crianças que apesar de alfabetizadas em português pouco falavam essa língua. Não era estranho na cidade que eu morava, tinha uma colônia de poloneses e uma de eslavos e todos eles falavam entre si e em suas casas, suas próprias línguas. Acho que falando português sobrava eu, meus irmãos e mais meia dúzia de crianças, o município todo apesar de grande contava com 5 mil habitantes. Os japoneses chamavam atenção, eram fisicamente diferentes, sérios, estudiosos e muito trabalhadores, as crianças saiam da escola e iam diretamente ajudar os pais em suas lavouras.  Com 15 anos, já morando em São Paulo, consegui meu primeiro emprego com carteira assinada bem no meio da Liberdade, o bairro japonês. O que me chamava à atenção, eram as lojas, as livrarias, os restaurantes e as escolas de caligrafia, não entendia nada o que estava escrito nos livros, nos cartazes, no jornal do bairro e o que falavam, mas me fascinava as delicadezas das louças, dos papéis, das flores e da escrita. Enquanto morei em São Paulo, por mais duas vezes trabalhei na Liberdade, estudei com descendentes de japoneses e tive vizinhos japoneses, com o tempo aprendi mais sobre seus costumes, sua história e sua arte; acho Ikebana (arte dos arranjos de flores) lindíssimo e tenho fascinação por Origami (dobradura de papel), faço tsuru (um pássaro) constantemente. Me fascina que nossa cultura seja bebê ante a milenar cultura oriental.
Desde a tragédia que atingiu o Japão eu queria fazer um post sobre ele, não de tristeza mas algo que homenageasse esse povo que faz parte de nós brasileiros. Por isso escolhi um mangá, essa arte tão japonesa em quadrinhos que é chamada de a nona arte! O Lobo Solitário e seu filhote é a história de um samurai, Ogami Itto, que era o executor do xogum, que é traído numa disputa política onde matam sua família, ele recusa o suicídio, pega seu filho, Daigoro, e passa a andar pelo Japão como um assassino de aluguel, enquanto planeja sua vingança. Escolhe o caminho meifumadô, a estrada do mundo dos mortos. A história se passa no período Edo, o equivalente ao nosso século 17 e dentro dela está toda a cultura japonesa, o código de ética samurai, os códigos que regiam a sociedade feudal japonesa, suas lutas marciais, suas técnicas do uso de espada (elas têm nome e função). É um passeio pelo Japão, suas montanhas, seus castelos, seus templos, suas aldeias e até seus ritos de morte.
O Lobo Solitário não é exatamente um mangá (desenhos irresponsáveis) é um gekiga (figuras dramáticas) pois são destinados a adultos, suas histórias têm tramas psicológicas, guerras, drogas, sexo, brigas de rua, corrupção e duelos. Ogami Itto é um matador de aluguel, é o que ele sabe fazer – matar – portando jorra sangue em todas as histórias, mas é comovente sua relação com seu filho e ele não poupa o garotinho de nada! Ele mata por dinheiro, muito dinheiro, pois sempre cumpre o contrato, mas pode matar por um punhado de arroz para dar a uma aldeia pobre desde que ele ache que é justo.
Essa saga começou a ser desenhada em 1970 e chegou ao fim na mesma década. No Brasil houve algumas tentativas de publicação desde 1988, mas nunca passou dos primeiros números, em 2005 a Editora Panini assumiu a tarefa e em 2007, após 28 volumes, concluiu. Portanto para os interessados só resta os sebos ou os leilões, os volumes são objetos de colecionador. Eu não tenho todos, infelizmente, mas ao fazer uma pequena pesquisa para este post já consegui mais alguns. Para que nada seja perdido os livros devem ser lidos como em japonês, de trás para frente e da direita para a esquerda, não é difícil.
O Lobo Solitário é considerado uma obra-prima e influenciou muita gente boa por aí, Frank Miller e Tarantino são os exemplos mais clássicos. Os desenhos são... são cinematográficos, em grande parte das histórias não tem diálogo, tudo está contado nos desenhos e que desenhos!  Ora somente alguns rabiscos que diz tudo, ora tudo completamente detalhado desde os desenhos dos quimonos até as filigranas dos templos. Koike, o roteirista, é um historiador por isso não há grandes erros históricos e Goseki, o desenhista, é um artista excepcional que estudou as artes marciais de espada a fundo, por isso nenhum personagem pega a espada que lhe cabe de forma errada. Se tiverem oportunidade não deixem de ler!
“Um pai conhece o coração de seu filho... da mesma forma que apenas um filho pode conhecer o seu pai”. Ogami Itto


*Esse post é dedicado ao Alexandre Mauj Imamura Gonzalez do Lost in Japan. Ele está concorrendo ao prêmio The Bobs – Deustche Welle na categoria “Melhor uso da Tecnologia para o Bem Social”, se você o conhece vote, se não o conhece vá ao blog dele, conheça e também vote.

SOBRE OS AUTORES

Kazuo Koike (1936-  ) – historiador, escritor, poeta e roteirista japonês ainda hoje atuante no mundo dos mangás.

Goseki Kogima (1928-2000) – desenhista e ilustrador japonês, seus últimos trabalhos consistiu em transpor os filmes de  Akira Kurosawa para os quadrinhos.

25 comentários:

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

poxa... como eu não posso me considerar VENCEDOR, eu ganhei esse concurso. mesmo que o tal site russo esteja disparado na frente, eu venci, ter esse carinho dos amigos é o melhor prêmio.

Eu ia comentar sobre o mangá, que gosto muito... mas fiquei muito contente com seu carinho que fiquei sem palavras rs.

muito obrigado Jussara. não só pelo post de hoje, mas pela gentil amizade que vc me dedica, sempre com suas palavras delicadas e generosas.
mto obrigado SEMPRE!

http://www.youtube.com/watch?v=JWpKneOXUGc
a canção de Kozure Okami...
bjs

Roberta M. disse...

Ju, que interessante essa história!! Esse vai ser mais um prá minha lista....Nao sou muito fã de mangá, mas pelo que vc falou, esse segue outro estilo e acho que o Pandinha tb poderá aproveitar!! Beijocassss

Pandora disse...

Ter Lobo Solitario na estante é uma ambição \o/

Lindo post Jussara, linda homenagem!!!!

Guará Matos disse...

Caraca que maravilha é essa que você apresentou hoje por aqui, amiga.
O "Lobo Solitário" foi transformado em séria na década de 1980 e passou aqui na TV brasileira.
A série é espetacular e chei a defilosofias, ensinamentos de honra.
Que lembrança deliciosa.

Beijos.

A. Marcos disse...

Jussara,

Me tornei seu fã. Cultura pop também é cultura e não sabia que isso não era um mangá, na acepção técnica do termo.

Quando menino conheci a tal saga mas só em partes.

Agora, sejamos francos, não dá para deixard e fazer graça com a palavra: "meifumadô"...Tipo: "esse cara tá muito louco, tá mei fumado...." kkkk

Edlena Franklin disse...

Muito interessante, Jussara! Meus filhos são loucos por mangás e apesar da arte em questão ser outra, acredito que é questão de tempo para que o mais velho, principalmente, se volte para o gekiga... Bacana a sua convivência com tantas culturas diferentes!
Beijos

M. disse...

Se influenciou quem tu referes já é um bom padrão:_)

Não sou muito de literatura oriental...Nem de sua filosofia...Mas é defeito meu:(

Adriana Alencar disse...

Essa cultura é realmente fascinante e chama-me muito a atenção a dedicação deles em tudo o que fazem, deveria servir de exemplo para os brasileiros.
Já passei lá e votei no blog do Alexandre.
Beijo
Adri

Apenas um lugar para ser (Lis) disse...

Oi Jussara, mais uma vez vc faz a gente gostar do livro antes de ler.. =)

Me chamou mto a atenção o fato do autor ser historiador, mas eu nao entendi mto bem a leitura ao estilo japonês.. de trás pra frente, da direita pra esquerda? deve ser confuso isso.. :)

Obg pelas suas visitas! Adoro receber seus comentários.

Bjs e um ótimo fds!

Juliana disse...

Toda vez que leio seus posts fico pensando que quero escrever sobre livros assim quando eu crescer. =)
Linda homenagem!

Mônica disse...

Que encantador este seu post! Ficou mesmo, emocionante!
Parabéns pelas palavras!
Em toda a minha vida nunca tive a oportunidade de conhecer ou conviver com algum japonês, ou mesmo orientais, mas imagino que deve ser um povo maravilhoso.
Um dos livros que li nas minhas férias, faz menção aos japoneses, sua cultura e filosofia. A leitura coincidiu com a tragédia recente,e pude parar um pouco e ver este povo com um outro olhar. O livro, o qual me refiro, é A Elegância do Ouriço de Muriel Barbery, devo colocar sua resenha por estes dias, mas o recomendo a você depois de ler este post.
Vou ter que colocar Lobo Solitário na minha lista de desejos. Beijos e boa leitura

Lufe disse...

Que beleza, Jussara.
Aos poucos vamos conhecendo novas facetas.
Você criança no Paraná e pre adolescente na Liberdade, devia se sentir como pinto no lixo, dada a sua sensibilidade e percepção das coisas ao seu redor.Que riqueza de culturas.
Gosto muito da cultura japonesa, me encanta o bushido. Não conhecia o Lobo Solitario.
Você já leu o "Shogum"?

bjos

Cintia Branco disse...

Ju,

Me animei agora para ler, cada vez mais fico apaixonada pela cultura japonesa, e a culpa é do Alexandre, rsrs.

Quero te agradecer pelas palavras carinhosas lá no blog.
Grandes beijos e ótimo final de semana

Balzaquiana com 'Z' disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Balzaquiana com 'Z' disse...

Me emocionei, Jussara, principalmente por ter dedicado ao Alê.

Meu marido é fã de mangás... já ouvi ele falar do Lobo Solitário... mas nunca vi nenhuma delas. Acho que ele não chegou a ter. As que ele coleciona são a Blade e a Vagabond. Uma vez ele se chateou porque uma das duas... não lembro qual foi... parou de ser publicada... simples assim. E ele sempre fala dessa empunhadura correta da espada... e quando ele assiste Kill Bill... parece criança... "olha, olha... tá vendo... é assim que se pega a espada" rs.

Recentemente eu estava no projeto de ler os mangás dele... e ia começar pela Blade... justamente porque eu sempre achei as capas da Blade mais bonitas... mais coloridas. Ele nunca entendeu isso... porque segundo ele o desenhista da Vagabond é melhor... mas não sei... acho que é porque eu não entendo desse estilo de desenho e prefiro os da Blade. Até comentei com a Pandora que ia começar a ler e ela deu super apoio e tal... aí... meu Deus... eu fiquei agoniada com tanta violência... na realidade... foi mais a questão do estupro que vez ou outra fala... eu achava que os Samurais (pelo menos eu acho que aqueles que estupravam eram Samurais também)não estupravam mulheres... que eles tinham todo um código de ética... em fim... acho que eu tenho que partir para os mangás mais leves... pelo menos no começo.

Por coincidência duas postagens seguidas de coisas que meu marido gosta... quando ele chegar em casa vai adorar ler.

BeijoZzz

Adorei ler teu comentário no último post que a Jaci fez... é sempre bom ouvir a opinião de alguém como você. A história daquele post começou quando eu perguntei a Jaci se ela me achava limitada porque eu havia lido os livros da Saga e assistia filmes água com açúcar. Na época que eu li certas pessoas acharam por bem me pegar pra Cristo.

Cintia Branco disse...

Ju,

Fala sério, é até vergonhoso, você faz uma postagem toda poderosa para homenagear o Alexandre e fazer a campanha para votação e eu (me inspirando em você, kkk, depois de ler sua postagem) vou lá e faço aquela postagem meia boca, tipo informes gerais em reunião de condomínio, cruzes, será que o Alexandre me perdoa?
Mas você tem toda a razão, tirando os escritores, o Trotsky e o Lênin, ah, tem o Bolshoi e o Kremlin também, esses russos não tem nada que preste.
Grande beijos e bom final de semana

Cinderela Descaída disse...

Só hoje vim te visitar e vou ler mais dos teus posts.
Não conheço mangás, não sou leitora de quadrinhos, apesar de achá-los obras de arte maravilhosas. Mas vou tentar ler estes que você indica, apesar de difíceis de achar.
bjs,

Rogério Pereira disse...

Votei. Se não tivesse votado ao ler seu texto iria fazê-lo
(mas ele já o venceu - dogo eu...)
________________

Venho aqui frequentemente.
Leio e releio e, quando comento,
faço-o porque algo mexeu comigo, por dentro.
Dou uma explicação para o que faço, porque o faço e
gostava que comentasse o efeito provocado

Papai Gay disse...

Gostei da história, meu filho é leitor assíduo de Mangás, vou recomendar a ele e quem sabe será minha introdução a esse universo fascinante.

Apenas um lugar para ser (Lis) disse...

Oi Jussara, passei aq pra agradecer seu comentário. Sabe uma coisa, não acho q o caso seja disturbio de humor, faço terapia e nunca fui diagnosticada com isso. Espero encontrar um outro anticoncepcional q cause menos efeitos colaterais. Eu estava lendo sobre o Yaz e mtas mulheres se sentem assim, vamos ver no q dá.. :) Bjs!

Long Haired Lady disse...

o que mais me chamou atenção nessa tragedia no japao é o grau de civilidade desse povo tão sofrido!

Macá disse...

Jussara
Depois de quase um verão inteiro, eis-me aqui novamente.
Mas não perdi nada não, já li os posts anteriores que não tinha visto.
Que apaixonante esse de hoje. Não conheço e pelo jeito só vou poder ler, mesmo com essa dificuldade toda (eu sou loira meu bem, lembra?) se for aí na sua casa, já é que é coisa rara.
Ah! e foi lindo você oferecer ao Alê. Ele, representando pra nós todo o povo do Japão, deve estar precisando desse carinho.
um beijo

xatuhoya disse...

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