segunda-feira, 7 de março de 2011

O gênio imperfeito

Africa, Leni Riefenstahl

Este é um livro belíssimo de fotos de tribos africanas, ainda inocentes e com pouco contado com brancos, as fotos foram feitas durantes os anos 60/70. Tribos principalmente do Sudão, onde a fotografa esteve inúmeras vezes, chegando até a aprender a língua Nuba (principal tribo fotografada). É um livraço, é grande, tem 560 páginas, pesa quase 5 kgs é e um livro de fotografia, um livro para ser visto e apreciado. O importante deste livro é sua autora Leni Riefenstahl, ela é o gênio imperfeito e polemico que viveu 100 anos, por isso escolhi falar dela na semana em que se homenageiam as mulheres.
Leni com 30 anos
Leni é uma cineasta alemã que faz parte da história, seja a alemã seja a história do cinema. Leni foi atriz mas logo percebeu que podia fazer mais atrás das câmeras, fez um filme em 1932 “A Luz Azul”, Hitler assistiu e gostou. Convidou a cineasta para fazer um curta-metragem sobre um comício, gostou mais ainda e então pediu que ela filmasse a convenção anual de 1934 do Partido Nazista em Nuremberg. Leni pôde dispor de toda a tecnologia de ponta do cinema da época e filmou O Triunfo da Vontade, uma obra-prima. Esse documentário é considerado por muitos como uma das melhores obras já produzidas no cinema. Eu já assisti e sim é surpreendente! Aos olhos de hoje pode ser até meio banal, de tanto que foi copiado e ainda é e muito. Em 1936 é convidada por Hitler para filmar as Olimpíadas e o faz com enorme competência, resultado: Olympia, celebrado por suas inovações técnicas e estéticas, até hoje influência a cobertura esportiva de qualquer esporte seja no cinema ou na TV. É quase como se ela tivesse inventado um “alfabeto” novo que ninguém consegue se livrar para ter imagens belas ou impactantes do assunto.
Estamos falando da Alemanha Nazista, na Segunda Grande Guerra na Europa e todo o horror que isso causou e causa. Seria ela engajada nos ideais nazistas ou completamente inocente das atrocidades cometidas? Há enormes controvérsias a esse respeito, estaria ela tão focada em seu trabalho que não percebia o que havia em volta? Talvez, ela filmou 400 km de fita sobre as Olimpíadas e levou dois anos só na montagem. A seu favor ela jamais dirigiu documentários belicistas (não aparecem armas no Triunfo da Vontade), nem racistas e nem anti-semitas. Após a guerra ela ficou presa durante 4 anos e respondeu a inúmeros processos, não foi condenada em nenhum, pois nunca puderam provar qualquer envolvimento seu nas atrocidades.  Mas... ficou a mancha, ela tinha criado as duas obras mais poderosas de propaganda do regime nazista, ainda hoje não é fácil ver seus filmes. Em geral é passado nas faculdades de cinema para estudo e pode ser adquiridos em alguns sites em DVD.
Leni  com suas amadas lentes
No pós-guerra veio o ostracismo, ninguém queria Leni por perto e muito menos fazendo filme. Ela pegou outras lentes (câmera fotográfica) e se mandou pra o Sudão, sempre ligada à estética , faz grandes reportagens fotográficas. Vai inúmeras vezes à África e fotografa outros povos em outras regiões. Ela já com a venerável idade de 80 anos e rotulada de vilã, mas com muita energia, se interessa por fotografias submarinas, faz um curso de mergulho (mentindo a idade) e se torna a mais velha mergulhadora do mundo. Começa então a filmar e com 100 anos lança “Impressões Subaquáticas”, isso após sobreviver a uma queda de helicóptero aos 97 anos.
Leni Riefenstahl é uma dessas mulheres que ultrapassam limites, uma mulher talentosa e com uma imensa energia criadora, que ainda por cima teve uma vida longa e produtiva. Ela sempre será um mistério, uma vilã?  Quem sabe? Ela nunca se arrependeu da revolução estética que fez em seus filmes mais conhecidos. Ingênua? Difícil, ela tinha livre transito nas altas esferas do Governo alemão. Mas como alguém disse “o seu talento foi sua tragédia”, pois abstraindo o conteúdo político de sua vida, Leni foi, é e será um marco incontornável da história do cinema, O Triunfo da Vontade selou sua reputação como o maior cineasta do sexo feminino do século XX.
Leni por Leni:
Não me é fácil virar as costas ao presente e mergulhar no passado, tentando compreender a minha vida em toda a sua estranheza. Sinto-me como se tivesse vivido muitas vidas, experimentado os altos e baixos de cada uma delas, como as vagas do oceano, sem nunca ter descanso. Através dos anos, procurei sempre o invulgar, o maravilhoso, os mistérios no coração da vida.”
“Se Leni Riefenstahl somente tivesse ido à África e trazido suas fotografias o seu lugar na história seria mais seguro .” Kevin Brownlow

SOBRE A AUTORA
Helene Bertha Amalie Riefensthahl (Leni) (1902-2003) – atriz, cineasta e fotografa alemã.  Africa foi publicado em 2002 pela Editora Taschen e não há publicação em português.
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Neste mês de março minha amiga Luciana está postando a visão de várias mulheres sobre outras mulheres, vale a pena conhecê-las. Eu já estive por lá com uma carta.

16 comentários:

Guará Matos disse...

Uma senhora mulher!
Que existência útil, maravilhosa.

Bjs.

Borboletas nos Olhos disse...

Eu ia comentar, ia mesmo, mas aí li "minha amiga" e fiquei toda desmanchada. beijos, amiga \o/

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Já assisti alguns documentários sobre ela. Talvez ela tenha sido mais uma que "caiu" nos contos de Hitler, quantos milhões não o apoiaram, não é?
Seus filmes eram maravilhosos, o ângulo de câmeras, a edição, trabalho perfeito. E como vc explicou, não havia a abordagem de violência, anti-semitismo, apenas enaltecia o povo alemão e o partido do governo (isso até o Lula fez na TV Brasil ué).
As fotos são espetaculares.
Eu prefiro olhar para a artista Leni Riefenstahl do que olhar para a mulher da propaganda nazi. Se ela tivesse feito aqueles filmes que mostram judeus como nojentos, essas coisas...

demais essa postagem, adorei!

Pandora disse...

Da Leni o que eu conheço é justamente esse livro, "África" e ele é lindo de tirar o folego, um trabalho belissimo mesmo (pra quem gosta da estetica afro então\o/ Jesus me acuda!).

Os outros trabalhos dela, ainda não os vi, apenas ouvir falar aqui e ali por pessoas que não são nem de longe tão didáticas e tão interessadas em se fazer compreender como você, ai o que faço é seguir seu exemplo e apreciar o legado dela e evitar o juizo de valor!

Adriana Alencar disse...

Além dessa carreira fenomenal que você colocou, ela é admirável pelo modo com que sobreviveu ao regime nazista, respeitando limites sem deixar de produzir as suas obras.
Beijo
Adri

M. disse...

Conheço pouco. Do que eu conheço: uma mulher no mais sublime supor. Com qualidades enormes e alguns defeitos...

Fossse ela perfeita e não a admiraria tanto:=

Lufe disse...

Assisti um filme sobre a Olimpiada de Berlim onde Jesse Owen se destacou contra a "supremacia branca. Sera que as filmagens de ótima qualidade eram dela? Confesso que não lembro. Diz a lenda que Owem humilhou Hitler. Pelo o que a gente lê, ideologias a parte, o nazismo exaltava acima de tudo, o vigor físico e a estampa, não importando qual fosse a raça. Aquele que revelasse alguma musculatura e virilidade, harmonizada num belo corpo, tinha sua imediata aprovação. Tanto isso é fato que Leni Rienfenstahl, era a cineasta do regime e , quando depois da guerra resolveu se auto-exilar na África, fez um notável trabalho fotografico celebrando a beleza plástica dos núbios. Sendo imparcial, a gente percebe uma grande ironia nessa história. Quem de fato discriminava os negros (que na Alemanha nazista eram olhados como atraentes excentricidades) era a delegação norte-americana, que os segregavam durante os próprios jogos olímpicos. E mesmo quando a guerra eclodiu algum tempo depois, eram os norte-americanos quem não permitiam que os batalhões negros acampassem junto aos brancos. Joe Louis, o campeão mundial de boxe, convocado para lutar, foi obrigado a andar na parte traseira dos ônibus militares. A ironia final veio com o enorme esforço da mídia mundial em provar que os jogos de Berlim foram uma tentativa frustrada de Hitler de mostrar uma suposta superioridade alemã. E ao alemães ganharam os jogos com 33 medalhas de ouro contra 24 dos americanos. A gente sempre necessita observar os dois lados da história. Não se pode culpar a Leni por documentar a filosofia alemã na era Hitler. Que era uma propaganda, claro que era, visando elevar o moral do povo alemão. As atrocidades efetuadas por Hitler e seus asseclas, eram feitas na surdina, sem publicidade. Nem o próprio povo alemão sabia o que se passava. Não se concebe uma alemã nazista, fanática, expoente da propaganda da supremacia alemã, passando o resto de seus dias, e foram muitos, frequentando a Africa, junto aos negros, e fazendo um trabalho fotográfico maravilhoso. Se ela fosse o que dizem teria vindo para a Argentina. O trabalho posterior a guerra mostra bem o que era, e não o rotulo que lhe querem colocar.

Desculpe o post. Adoro estes temas.

bjo

Palavras Vagabundas disse...

Lufe, obrigado por complementar meu post! E,como você,acredito que o que interessava realmente a Leni era a beleza plástica do corpo, fosse ele branco, preto ou amarelo. Provavelmente o filme que você viu é o Olympia,pois são onde estão a maioria das imagens Owen.
bjs

A. Marcos disse...

Interessante mesmo.

BsVoxx disse...

Já havia ouvido falar em Leni, mas sempre de forma meio marginal ... nunca vi nada que ela tenha produzido, fica uma curiosidade, mas uma extrema resistência por conta da filosofia ... mas enfim, o destaque dela em condições tão adversas demonstra si que ela era uma mulher muito talentosa ... Feliz Dia das Mulheres.

Macá disse...

Ju
Triste ela ter ficado marcada como ficou, mas você percebe, ela nunca desistiu. Essas são grandes mulheres, as que fazem a diferença.
E hoje, graças a Deus, nós temos muitas.
beijos

Sentindo e pensando disse...

Essa é a mesma Leni da propaganda nazista? Se não me engano li algo sobre ela numa revista "história Viva" há algum tempo...

yanne passos disse...

Querida Jussara,
Emocionei-me com esse post, poe vários motivos e sempre que escuto falar ou leio algo a respeito da Leni, confesso que fico sem saber o que dizer...talvez porque não haja necessidade de se dizer nada, não gosto de julgamentos, portanto, se ela era simpatizante ou não do regime nazista ela pagou um preço por isso. Se formos analisar apenas a sua obra, sem os envolvimentos políticos da época, aí sim, teremos uma mulher brilhante.
Beijos e parabéns.

Rosamaria disse...

Bonita e merecida homenagem, Jussara.

Obrigada pela visita.

Bjim

Cintia Branco disse...

Ju,

Sumi, mas apareci!!! Adorei conhecer essa mulher, vou em busca de seus filmes, pois fiquei super curiosa. Quanto a visão política dela, creio que para o talento e a criatividade isso não seja relevante, pelo menos para mim, nesse momento. O movimento nazi-facista foi um movimento de inúmeras pessoas, não de apenas um, e foi motivado por uma realidade econômica. Hoje, nosso regime ainda mata, talvez não em câmeras de gás, mas mata aos poucos, de fome, no silêncio, no medo... Apenas mudamos nossas táticas, a grande engrenagem ainda é a economia.
Mas que a mulher era um talento, isso sem sombra de dúvida, senão pela sua arte, então pela sua persistência!
Beijos e ótimo final de semana

Carla Farinazzi disse...

Oi Jussara

Mulher extraordinária, não merece julgamentos maniqueístas. Acredito que sua arte e seu talento suplantam em muito essa ligação com Hitler.
Não devemos julgá-la, e sim, apreciar sua obra. Na minha opinião. Concordo com o Lufe.

Mais um post excelente, minha cara.

Beijos

Carla