domingo, 13 de março de 2011

Aspone

O Chalaça, José Roberto Torero

Chalaça um dito zombeteiro, picante, uma caçoada grosseira é esse o  significado que está no dicionário, já nos livros de história quer dizer Francisco Gomes da Silva (1751-1852), o conselheiro e amigo de D Pedro I. Todos aqui sabem que eu tenho especial predileção pelo período de Reinado no Brasil, principalmente por seus personagens, o Chalaça não poderia ficar de fora, ele é mais um dos nossos “heróis sem nenhum caráter”, aliás ele até tinha algumas  qualidades só não tinha é caráter.
A biografia dele é rocambolesca, filho ilegítimo de um Visconde foi perfilhado por um ouvires em troca de um bom dinheiro e um cargo na corte (ourives do rei). Para resolver melhor a questão foi mandado para um seminário, que lhe deu cultura, conhecimento em línguas e disciplina. Fugiu de lá aos 16  anos e conseguiu um lugarzinho em um dos navio que partiram de Lisboa em 1808.  Foi ser barbeiro no centro da cidade, mas logo se insinuou no palácio  como amigo de esbórnia de D.Pedro, lógico que não era esse o título oficial.  Aprontou tanto, era um conhecido leva-e-trás das fofocas palacianas, que acabou expulso da Quinta da Boa Vista, amargou um breve exílio em Itaguaí e após a partida de D. João VI volta para junto do amigo de farra.
O Chalaça não está presente na maioria dos livros de história do Brasil do Ensino Fundamental, afinal não pega bem um personagem que apesar de estar presente no Grito do Ipiranga, ter ajudado a escrever a primeira Constituição e ter sido um conselheiro sempre atuante ao lado do Imperador,  era alcoviteiro, oportunista, fazia negócios escusos, gostava de tocar lundu e frequentar botequins mal-afamados.  Óbvio que só chegou ao poder fazendo inimigos e alguns bem poderosos, foi então mandado como embaixador para Nápoles (banido do país, na verdade), voltou para Portugal ao encontro do amigo (ele sempre foi fiel a D. Pedro) e por lá morreu. Ficou tão rico que ao fazer o testamento, onde reconheceu 8 filhos,  distribuiu uma fortuna, para quem começou a vida como barbeiro, foi longe nosso conselheiro!
José Roberto Torero, escreveu sobre esse personagem, o livro na verdade se chama Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, O Chalaça. Tendo o autor encontrado parte dos “diários” , cartas e outros papéis do Conselheiro o livro é todo escrito em primeira pessoa, portanto as possíveis  imprecisões históricas ficam por conta do personagem, pois se há alguns exageros nas vitorias os fracassos passam rápidos, mas enfim é assim que funciona a memória. É um saboroso romance, diria até um romance picaresco, onde está descrito a corte de um ponto de vista bem cínico, afinal ele era o Chalaça, pois fazia rir a toda gente e tinha um  humor inteligente, mesmo que os alvos não gostassem de suas tiradas.
Ele foi o ocupante nº 1  da cadeira de  um personagem comum em toda a história política do Brasil, quando não houve um aspone* perto do poder com atribuições pouco esclarecidas?
*aspone : Assessor de Porra Nenhuma
“Custa menos ao nosso amor-próprio caluniar a sorte, do que acusar a nossa má conduta.” Marquês de Maricá

SOBRE O AUTOR
José Roberto Torero (1963-  ) – escritor, jornalista, cineasta, roteirista e blogueiro paulista, de Santos, publicou O Chalaça em 1994 pela Editora Objetiva e por esse romance recebeu o Prêmio Jabuti de 1995.

16 comentários:

Balzaquiana com 'Z' disse...

Tu sempre falas de um jeito pelo período do Reinado que até eu tô começando a ter uma "quedinha" por ele.

Quando eu crescer eu quero ser igual você.

E como assim você tem uma filha da minha idade??? rs

BeijoZzz

Borboletas nos Olhos disse...

Gosto do Torero, gosto mais ainda das suas resenhas (e adoro os heróis sem caráter, sei lá, acho que sou uma pessoa suspeita, rsrs). Bjs

Misturação - Ana Karla disse...

Preciso conhecer mais.
Boa semana Jussara!
Xeros

Guará Matos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guará Matos disse...

Querida, como diria o Cazuza "meu heróis morreram de overdose...".
O Brasil é um país tão sui generis e surreal, que até os nosso heróis foram, são, ou serão picaretas pra cacete, hahaha!

Bjs.

Pandora disse...

kkk Meu periodo de estudo é o Imperio, então tb é meu xodô historico, sempre é fascinante observar como uma nação é formada, quando é a nossa o doce fica ainda mais gostoso ou simplesmente muito amargo, depende do ponto de vista!!! E sim, adorei esse verbete aspone é pra gravar no dicionario pessoal e usar muitooooooooo!!!

Quanto ao livro, ele acaba de entrar para a lista do "vou ler" \o/

Beijos Jussara!

Angela disse...

É uma pena que nao consigo literatura brasileira para comprar aqui. Este livro deve ser interessante. Bela dica! Beijos e uma ótima semana.

Mayara disse...

Não conhecia a paersonagem e amei, vou ter que procurar! Obrigada pela dica :) E adorei o seu jeito de resenhar heheh

BsVoxx disse...

Até entendo esconderem o Chalaça dos livros didaticos infantis. Bem que poderiam ter falado dele nas narrativas alternativas sobre a corte, como o 1808 ou nos diversos filmes ... Interessante, os Aspones presentes desde o inicio do Brasil ... risos

A. Marcos disse...

Nunca tinha ouvido falar...

Adelaide disse...

Adorei! É tão atual. Por vezes ficou triste ao ouvir pessoas falando mal de nossos corruptos da atualidade, e entristeço-me por dois motivos, primeiro que quem comenta não conhece nossa história, perde por não ler este tipo de livro e também por saber que não é só ficção...rsrs
Tenha uma ótima semana!
Abraços

M. disse...

Não conheço...

Snif...

O Brasil é um mundo mesmo:)

Apenas um lugar para ser (Lis) disse...

Eu tb não conhecia esse personagem, nunca tinha ouvido falar, mas o livro em primeira pessoa deve ser mto interessante, principalmente pelo fato do autor ter tido contato com o diário e as cartas. Temos mtos, mas mtos aspones no nosso país. Ótima resenha!

Obg pelo último comentário, um beijo!! :*

Lufe disse...

Como você sou um apreciador do Reinado.
Surgiram muitas obras, algumas excelentemente relatadas por você, mas quase todas falando da vinda da Corte portuguesa até o regresso de D Joao. Poucas obras, dentro do meu parco conhecimento, trataram dos dois Pedros.
O primeiro tem historias para serem contadas. Talvez os historiadores não se sentiram a vontade para falar de um imperador devasso.
O segundo, mais serio, mais culto, progressista, iniciou a construção de um pais mais humano.
Tinha conhecimento do Chalaça, atraves de obras onde era citado an passant.Não conhecia este livro do Torero e certamente vou conhece-lo.

bjos

Adriana Alencar disse...

É interessante como a "história por trás da história" pode nos fascinar! Obrigada pelas palavras de carinho lá no blog!
Beijo
Adri

Érika Freire disse...

Sou fã do Torero. Meu TCC foi sobre ele e esse livro é bem bom! ;)