sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pisadelas e beliscões

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, Manuel Antônio de Almeida

Este  é um daqueles livros que todo mundo leu, pelo menos os que estudaram por essas terras brasilis, e fizeram questão de esquecer. Eu estou nessa lista. Mas a vida dá voltas e no processo de aprender e apreender tudo sobre o primeiro reinado redescobri esse livro.
Memórias de um sargento de Milícias é uma verdadeira delícia, divertido e nos transporta para outra época. Ele foi escrito já no Segundo Império e faz uma descrição do Rio de Janeiro ainda dando seus primeiros passos com a chegada de D.João VI, por isso são memórias. Os romances da época, como as telenovelas de hoje, só falavam da nobreza e da burguesia remediada tentando ascensão social, Manuel Antônio optou por falar do chamado baixo extrato social (lavadeiras, meirinhos, barbeiros, parteiras e outros) que só entravam nos solares pela porta de trás, quando entravam. O autor retrata as crendices, festas, profissões hoje extintas, costumes e hábitos do povo que na verdade não é herói e não faz história. O livro foi escrito em capítulos autônomos para um folhetim de jornal, aos olhos de hoje, pequenas crônicas em que a ligação é feita pelo personagem principal Leonardo – o sargento de Mílicias. Atentem que ele é do baixo escalão militar.
O livro começa antes do nascimento de Leonardo, no navio que trás seus pais  de Portugal, um meirinho e uma quintadeira das praças de Lisboa – quitandeiras são mulheres que vendiam comida salgada ou doces (as quitandas) em tabuleiro, ele é concebido entre piscadelas, pisadelas e beliscões, como ironicamente o autor descreve o romance de seus pais. As memórias seguem pela infância, passada com o padrinho barbeiro, adolescência, sua entrada na vida militar e casamento, numa cidade suja, cheia de escravos e sem saber se comportar como uma metrópole européia, mas tentando. Leonardo foi, sem sombra de dúvida, o primeiro malandro carioca  e brasileiro descrito pela literatura, é um anti-herói pois está mais preocupado com a sobrevivência do que  ser correto ou vilão. Outro atrativo é a linguagem usada, o autor retratou como se falava nas ruas sem rebuscar a escrita. Não foi sucesso em sua época, tanto que foi o único romance escrito pelo autor e começou a ser resgatado pelos  modernistas, quando o realismo entrou na moda.
Eu tenho visto muita gente dizer que não rele livros, não acho essa uma boa idéia, livros a cada época de nossa vida podem ter outras leituras, principalmente quando são bem escritos. Memórias de um sargento de Mílicias é daqueles livros que lemos na adolescência e sobre pressão de professores e do vestibular, portanto com certeza perdemos o melhor que ele tinha. Então essa é a minha indicação para quem quer ler algo leve e divertido e de bônus ver de que tipo de material (humano) nós brasileiros fomos feitos.

Uma boa leitura dispensa com vantagem a companhia de pessoas frívolas.
Marquês de Maricá

SOBRE O AUTOR
Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) – médico por formação, escritor, jornalista e professor do Liceu de Artes e Ofícios, publicou Memórias de um sargento de Milícias em 1852, primeiramente como folhetim de jornal.

18 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Eu li, mas já gostei de cara! Não acho o enredo muito sofisticado, mas gostei e nunca esqueci a linguagem, tão bem humorada...Beijos

Rogério Pereira disse...

Comprei a ideia de ler
Pois o soube bem vender
Não sei se vou encontrar esse livro por cá...

Abraço

LUFE disse...

Você, com a sua critica bem elaborada como sempre, me despertou a vontade de rele-lo.
Vamos lá....

bjos

2010 disse...

fiquei feliz em ver q vc visitou meu blog, pois você é uma ótima crítica, e o seu blog é um dos melhores que conheço , parabéns...

por rosagraciosa.blogspot.com

Guará Matos disse...

É muito mesmo esse livro.
Bjs.

Roberta M. disse...

Vc sabe que acontece muito isso mesmo, livros de infancia e adolescencia viram verdadeiros traumas naquela época e já na vida adulta nos encantam. Fico pensando se era a época certa para lermos tais livros?? Vejo os livros que meu filho le hoje, sao tao mais interessantes e apropriados para idade dele!! Bem, fica a dica, beijocas e bom final de semana!!

so sad disse...

por incrivel que pareça eu não li! rs
preciso corrigir isso!
beijo

Carla Farinazzi disse...

Sabe que você resgatou lá de trás uma lembrança minúscula, né? Eu li justamente por obrigação, há mais de 20 anos atrás.
E me despertou a vontade de reler...

Adoro reler livros.
Quantas vezes der na telha...

Beijão, valeu pela dica

Carla

Fernando disse...

Esse livro é realmente muito bom. Escrito sem maiores pretensões e e dotado de uma ironia fina e bem feita.

Giuliana: disse...

Realmente é o tipo de livro que a maioria dos brasileiros devem ter lido, menos eu! Percebi que não li e não leio literatura brasileira, sempre estrangeira. Acho que tenho esse livro, quando minha pilha de livros diminuírem vou tentar achá-lo e ler.

Beijos.

Glória Maria Vieira disse...

Olha, Jussara, eu não cheguei a ler, mas sempre tive uma ideia de como é a história já que meus professores de literatura falavam muito e, claro, indicavam a leitura na íntegra. Qualquer dia desses, qnd a faculdade deixar, eu o lerei...

Ivan disse...

Li esse bendito por culpa da fuvest. E é verdade, a obrigatoriedade tira toda a graça. Só vc pra me fazer pensar em reler esse livro rsrs... vamos ver, quem sabe. Seu blog, como sempre, excelente.

Abraço

http://chinanaminhavida.zip.net disse...

Essa história de momento certo para ler o livro é verdade mesmo! A maneira como a literatura é imposta nas escolas desestimula qualquer cidadão a se tornar um leitor. Muito triste. Mas essa coisa da maturidade aconteceu comigo com "cem anos de solidão". Ganhei de uma tia qdo fiz 18 anos e começava e parava, dezenas de vezes. E não que agora, alguns anos depois (muito poucos) devorei o livro e me perguntei como antes era impossível essa leitura!
Beijo
Christine

Silenciosamente ouvindo... disse...

Eu não li este livro, daí não ser possível
fazer qualquer referência.
Obrigada pela sua visita ao meu blogue.
Desejo muito que esteja bem.
Um beijinho/Irene

Macá disse...

Ju
Sabe que nesta ultima semana (de férias) estávamos comentando, marido e eu, sobre como os professores da época não sabiam estimular a nossa leitura. Simplesmente nos passavam os livros e.... leia e odeie. Não atentávamos para a história da época. Esse é um deles, mas que agora, como sempre com a sua excelente explicação, fiquei com vontade de reler.
Ah! Obrigada pelo selo DARDOS. Já publiquei.
beijos

Anne disse...

rsrs vc tem toda razão Ju, esse livro é um daqueles de leitura "obrigatória" na escola e isso tira todo o prazer... Eu mesma o li e agora lembro que pensei "que livro chato!", rsrsrs
Bela ideia essa de reler essas literaturas clássicas e ter um olhar diferente...

Beijos minha linda, obrigada pelo carinho!

Edlena Franklin disse...

Um dos meus preferidos... Divertido e bem atual, muita coisa permanece igual ao meu ver. Falo de como certas pessoas levam a vida, ao sabor do vento.
Beijos

Adelaide disse...

Concordo com você no fato de ser este um livro divertido, a primeira vez que o li, foi para ser "diferente" era préaborrecente, gostei, mas não curti tanto como quando para o vestibular eu o reli...achei muito engraçado. Acho que como já havia amadurecido conseguia entender melhor os relacionamentos.
Grande abraço