segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Emma Bovary c'est moi

MADAME BOVARY, Gustave Flaubert

Eu tenho um caso de amor e ódio com esse livro. A primeira vez que li eu detestei, mas sou insistente, passado uns anos o reli e... continuei odiando. Um dia olhei para ele na estante ele olhou para mim e lá fomos nós de novo!  Nessa terceira leitura gostei um pouco mais.Como eu tinha gostado um pouco mais, passado um tempinho resolvi relê-lo pela quarta vez. Bem, foi aí que eu descobri a dualidade de amor e ódio. Eu odeio Emma Bovary. Eu amo Flaubert porque escreve tão bem que faz com Emma Bovary seja alguém que você conhece intimamente.
Quem não conhece uma Emma Bovary? Fútil até a última caixinha de prata, rasa como um pires de porcelana, totalmente alpinista social – infelizmente, para ela, escolheu um marido poltrão e bobo, ainda que médico.  Emma leva uma vida medíocre, só se interessa por compras – mais uma que acha que felicidade se compra no shopping. Não faz nada de útil, nem mesmo cuida da filha, mesmo que na época isso fosse normal ela não tem interesse nenhum na menina. Emma morre de tédio, enquanto sonha com bailes e salões da nobreza, faz dívidas e engana o marido. Ele o engana com rapazes mais jovens, não por amor mas para manter as ilusões O tédio, o não fazer nada, as expectativas ilusórias fazem de Emma a mulher mais fútil que eu conheci. Ao longo da vida conheci algumas Emas , está aí a Daslu e que tais, que não me deixam mentir. Vem cá, uma bolsa por R$3.000,00 para ir ao shopping é totalmente Bovary, enquanto um Sr. Bovary esta se ralando em algum lugar. Ah! Hoje em dia em vez de Emma Bovary elas se chamam socialites. O marido pode ser bem mais rico que o Dr.Bovary, mas isso não faz delas menos fúteis ou menos vazias.
Emma se envenena e morre, porque seu último amante se manda (ela quase sufoca o infeliz) e ela está tão afundada em dívidas que não tem mais como esconder do marido. Ou seja, procurou a saída mais fácil, gente desculpa mas... eu odeio essa mulher!
Madame Bovary é um marco da literatura, até mesmo pela polêmica que suscitou. Os fundamentalistas da época não gostaram nada de como Flaubert descreveu as aspirações e as razões de Emma. Numa época em que as mulheres eram criadas para obedecerem ao marido, não tinham desejos e sofriam caladas, Emma foi uma revolução, pensava, sofria, correu atrás de atenção e sexo. Flaubert levou à perfeição o ideal do romance realista; de harmonizar a arte e a realidade. A narrativa é rica em detalhes e objetividade, o que faz da obra uma preciosidade e me faz dizer: amo Flaubert.
P.S. Madame Bovary é um dos livros favoritos de Mario Vargas Llosa.
“Em vão procuramos a verdadeira felicidade fora de nós, se não possuímos a sua fonte dentro de nós.” Marquês de Maricá

SOBRE O AUTOR
Gustave Flaubert (1821-1880) – escritor e poeta francês. Publicou Madame Bovary  em 1857, por esse livro sofreu um processo por ofensa à moral pública e religiosa.



18 comentários:

VaneZa disse...

Eu tbm já publiquei minhas impressões do livro. Eu não senti tanto ódio por ela... na realidade eu sentia mais pena. Na necessidade de preencher o vazio da alma... ela se enchia de futilidade.

Deixo com vc o link com as minhas impressões e gostaria de pedir para um dia publicar essa sua impressão no meu blog... porque eu gostei desse paralelo que você fez com as mulheres da atualidade... gostei também dessa sua emoção. rs
Mas assim... só se vc não achar ruim que outras pessoas publiquem seus textos... pode ficar tranquila que os créditos serão dados.

http://balzaquianacomz.blogspot.com/2009/12/livros-e-livros.html

AbraçoZzz

LUFE disse...

Jussara,

Excelente a cronica sobre Emma Bovary.
Você captou uma sutileza que transpos para os dias atuais, com uma comparação muito feliz.
A futilidade.
A falta de compromisso, respeito, cabeça oca tambem são caracteristicas dela.
Você bem contextualizou a época e o impacto.
Se fosse escrito hoje talvez não houvesse grande repercussão pois como você bem disse, há bovarys em profusão, nos shoppings, na midia, na casa ao lado.
Sem duvida, Flaubert causou uma revolução com sua escrita descritiva dos sentimentos de Emma.
Tornou mais transparentes os inconfessaveis anseios das mulheres no inicinho da era moderna.

bjo

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

hahah eu te entendo perfeitamente! A primeira vez que li, li "engolindo o livro na marra" ! rs

acho que só com a maturidade a gente entenda o propósito do livro. E eu chamo de Sra. Bovary uns parentes e amigos que se encaixam no perfil dela hahaha.

excelente seu post!
um bom feriado pra vc!

Cintia Branco disse...

Jussara,

Lembro de ter lido a obra, mas não me recordo nada sobre ela, exceto alguns livros especiais, geralmente acabo de ler e não consigo lembrar de mais nada, me some tudo, fico com a impressão, durante um tempo, se gostei ou não, mas detalhes básicos desaparecem, neste caso específico não tenho nem idéia da minha impressão, sinal que está na hora de lê-lo novamente.
Beijos

Pandora disse...

Adorei quando vc escreveu: "Um dia olhei para ele na estante ele olhou para mim e lá fomos nós de novo!" Foi assim comigo e com O morro dos ventos uivantes... Mas falando de Madame Bovary morro de raiva dela e do tipo de mãe que ela era, muito egoista... o marido dela entregue as traças... amando ela, a filha abandonada a sua própria sorte... O pior é que esse é um dos livros que mais gostei, não pela história em si, mas sim pela forma como ela é contada!!!

Beijos...

Silenciosamente ouvindo... disse...

Eu também tenho esse livro e subscrevo
as suas palavras.
Beijinho.Irene

Jota Sena disse...

Olá boa noite!

Vim para agradecer, por teres me visitado e deixado lá suas considerações por meus escritos...
E comentando sobre seu texto,pouco posso dizer a respeito do livro, porque não o li. Mas em relação o que questionasse, de ler e reler,para depois aceitar...Eu entendo que isto aconteceu, porque a maneira como o escritor relatava os fatos, querendo passar para os leitores uma realidade de muitos,te fez agir desta forma... E ao chegares ao fim da leitura,passasse a odiar a personagem, porque tua maneira de ser jamais aceitara injustiça.

Meus parabéns, estes tópicos do livro, que transmitisse foi muito bom. Tanto é, que eu vou a procura deste livro.

Uma excelente semana a você!

Abraços e até +.

Jota.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Estamos de acordo amiga. Beijinho/Irene

Tata disse...

Nunca li, mas agora faz parte da minha lista de desejos.
O que está lendo no momento?
Eu, pela segunda vez, estou lendo Cisnes Selvagens. Uma delícia.
beijos

Juliana Magalhães Fonseca disse...

Querida
sobretudo o último recado que você me deixou, me marcou muito, estou interiorizando ele o tempo todo...
Você é muito especial
Obrigada
beijos Juju
(estou seguindo você)

Silenciosamente ouvindo... disse...

Amiga, beijinhos/Irene

Tathiana disse...

Sabe, vc é mesmo persistente. Eu, o oposto. Não lerei mais uma, muito menos mais três vezes, um livro que inicialmente detestei... rs. Mas, parabéns por ser assim, considero uma grande virtude.
Bjs.

so sad disse...

li quando era muito jovem, questionei sua moral, assisti o filme e só reforçou a imagem que tinha dela. tempos depois me vi presa numa relação e passei por alguns momentos entre meu carater e o que podia viver...reli o livro e consegui ver um lado humano dela.
beijo!

Claudia disse...

Jussara é interessante sua maneira de não desistir do livro,acontece comigo tb
Leio,insisto fiz assim com o romance de Camilo Castelo Branco Amor de Perdição
Por ser muito antigo,1862,linguagem dificil de entender,mas insisti e foi o melhor livro,aquele inesquecível dramático,forte,romantico
Abraço Jussara

Adelaide disse...

Passei para agradecer a visita, não resisti e a estou seguindo....Amo ler e sou uma daquelas pessoas que lê até encarte de ofertas, se este for o papel do momento, ao ler este post... cujo livro ainda não li despertou-me a curiosidade, gosto de livros assim que nos transporta ao extremo de nossas emoções. Vou buscá-lo....rsrs para também ter a "minha" opinião sobre ele....rsrs
Grande abraço até a próxima

Anônimo disse...

Darei a minha impressão: Concordo com tudo que vc disse , achei fantástica essa visão sec. XXI. Mas como alguns romances que li e foram escritos no sec. XIX, todas as "mocinhas ousadas", acabam pagandoseus "pecados" com a morte. Imagino que tenha sido a forma que os autores encontraram para amenizar o choque moral da época...Amei seu blog.
A não tão anônima Fatima Valéria

Edlena Franklin disse...

Pois sim, Emma nos enoja e Flaubert nos seduz. Fiz trabalho na faculdade sobre Emma, Luísa(d'O Primo Basílio) e Capitu, o tipo de personagem que eram. Mulheres e seus anseios por status e romance... Gostoso reler e descobrir nuances não percebidas anteriormente. A futilidade sempre será odiosa aos meus olhos como aos de muitas mulheres, o mau uso do tempo. Seria Emma nos tempos de hoje algum tipo de blogueira amargurada? Ou ficaria só comprando on-line?
Viajando...

Marina disse...

Oi Jussara! Você me recomendou ler essa postagem e aqui estou! Eu li esse livro quando era adolescente e não me lembro muito dele. Talvez se hoje eu o lesse novamente eu teria uma visão diferente, mas na época eu fiquei com dó da Emmae não senti tanta raiva assim dela. O que mais me chocou foi o abandono completo da filha que considero muito pior do que o que ela fez com o marido. Acho que existe um lado muito humano na personagem. Só acho uma pena que naquela época uma mulher não pudesse simplesmente se separar ou viver outro tipo de vida. Ou a mulher se casava e dava um jeito de ser feliz ou passava a vida inteira insatisfeita.

Meus sentimentos a respeito da personagem são contraditórios, como dá pra ver...

Achei muito bacana você ter lido o livro 4 vezes. É raro eu fazer isso; sempre penso que há pouco tempo e tantos livros que eu quero ler... acabo lendo sempre um livro novo. Claro que alguns ficam gravados na alma e esses eu releio de vez em quando. Muitas vezes quando releio eu descubro que o livro era completamente diferente do que eu me lembrava, então talvez eu precisasse reler Madame Bovary para dizer se tudo isso que escrevi acima ainda é válido. Realmente pensamos parecido em relação a essa coisa de livros.

beijo!